A floresta ao leste de Balmund é viva mesmo em meio a noite. Pequenos animais possuem alguns hábitos noturnos, esquilos e guaxinins perambulam à espreita.
Algumas cigarras cantam, grilos esperneiam e vagalumes dan?am próximo da margem do rio abaixo que, curiosamente, os acompanha com uma ramifica??o daquele que corre pela cachoeira.
A sensa??o gelada das brisas noturnas contra o rosto traz alguma tranquilidade. N?o sabiam ao certo até quando iriam aproveitar essa paz, o aroma da vegeta??o fresca ou a friagem da grama aos pés.
一 Vamos parar um pouco aqui.
一 Finalmente!~
Carmen se senta sobre um dos rochedos ali presente nessa área mais aberta. Por outro lado, Raisel afrouxa um pouco o colarinho e se aproxima do av?.
一 Eu pego galhos pra uma fogueira?
一 Isso. Fa?a próximo de onde ela sentou. Eu vou dar uma inspecionada na área.
一 Beleza.
Com a rápida troca de palavras, Yurgen desaparece como um vulto.
O menino leva as m?os à cintura, mas logo co?a um pouco a cabeleira escorrida.
“Vou pegar só alguns secos. Deve ter mais pra lá.”
Indo do lado contrário ao córrego, o rapaz se afasta da ruiva e do homem. Caminhar sozinho nesse ambiente faz ele lembrar da primeira ilha em Fyodor, a das árvores-monstros.
“Parece que já faz tanto tempo, mas foram só alguns dias.”
Sem dificuldade, acaba por encontrar os peda?os ideais.
“Antes eu e o vov? acampavamos com certa frequência ao redor da vila. Será que… depois que encontrarmos Imoriel, as coisas voltar?o a ser como antes?”
As sobrancelhas dele caem. Os cílios escondem parte do brilho dourado em seus olhos. Um sentimento quente ressoa pelo cora??o, mas ele n?o é acolhedor como uma felicidade. é pontiagudo como uma faca, mas também dentado como uma serra
“Isso é saudade? Desespero? N?o sei dizer ao certo…”
Sem que percebesse, apanhou diversos galhos abaixo da axila. A garganta parece estar embolada com um nó denso o suficiente para lhe tirar o f?lego. Com duas piscadas rápidas, ele endireita a coluna e encara o tanto que pegou nos bra?os.
“Exagerei- é melhor voltar.”
Ao soltar metade do que pegou, Raisel parte em passos longos para a dire??o de Carmen.
De longe, ele ouve os adultos conversando, mas n?o consegue distinguir com clareza sobre o que.
De qualquer modo, ao se aproximar deles, eles pararam e o encararam.
一 Trouxe os galhos!
一 Bom trabalho. Solta aqui no meio e senta pra descansar um pouco.
O menino larga eles no centro da rodinha e depois pega um dos rochedos para usar como banco.
Sentou-se com alguma demora, mas logo abra?ou as próprias pernas e encarou a fogueira sendo feita pelo av?.
Ele posiciona os galhos ao redor de folhas secas, quase como uma cabana. Quando terminou, apontou o dedo e uma fagulha branca serviu como isqueiro para fazer uma pequena chama.
Contudo, conforme a natureza falava por eles, os olhos azulados de Carmen se fixam em Raisel que está em silêncio.
一 No que você tá pensando tanto, Rayzinho?
Em relutancia, o olhar dele sobe e encara a mulher. O semblante dela é acolhedor. O seu sorriso traz seguran?a e o seu jeito delicado mostra alguma perspicácia em saber quando algo incomoda alguém mais novo.
Yurgen, mesmo sem se expressar, também leva o olhar para o menino. Uma espécie de cantil é tirado de dentro das vestimentas, ent?o ele presencia a intera??o entre eles enquanto toma alguma água sem relar os lábios.
No fim, o olhar dourado encara o brilho da pequena chama no ch?o. Um suspiro antecedeu o início da sua fala, como se reunisse coragem para falar sobre.
一 Depois que encontrarmos Imoriel, as coisas v?o voltar ao normal?
Ao ouvir aquilo, Carmen n?o se surpreendeu. Pelo contrário, permaneceu com a sua postura, mas levou os olhos até os do homem à frente.
Com a breve encarada entre eles, o av? desgostou com os olhos. Afinal, ele n?o se acha o mais apropriado para se expressar sobre assuntos t?o delicados. Porém, rapidamente fechou o cantil e respirou fundo para come?ar a falar.
一 Você já n?o é o mesmo de poucos dias atrás. Nem o mesmo de ontem, Raisel. As coisas n?o v?o ser as mesmas por tudo o que aconteceu.
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O semblante de Carmen aponta para a fogueira. Por outro lado, o som dos estalos vindo dos galhos queimados se sobrep?e ao canto das cigarras.
一 Apesar de tudo isso, a mudan?a é boa. Ela permite que você construa novas memórias, com as mesmas pessoas ou com pessoas novas.
O palmo do mentor se aproxima da cabeleira escorrida do neto. Contudo, ao invés de chacoalhar a cabe?a dele de um lado para o outro ou provocá-lo de alguma maneira, ao encontrar os olhos, o rapaz percebe um sorriso vago vindo da fei??o cinzenta do av?.
As sobrancelhas se levantam em alguma surpresa. De alguma forma, naturalmente um sorriso se abre como o do velho.
一 Obrigado, vov?.
é um momento de calor, de aconchego. A pequena brasa continua a queimar mesmo em meio ao breu ou à brisa úmida.
Diante da mínima luz avermelhada, a natureza continua a cantar sem se intimidar pela presen?a do fogo. Pelo contrário, de longe, os guaxinins e os esquilos param para encará-la.
Os segundos se passam. Em seguida, se transformam em minutos.
Sobre a humilde lareira, o velho está adormecido com as costas escoradas contra uma árvore.
一 Quando a idade chega, qualquer relaxamento vira tempo de cochilo.
Em sussurros, Carmen diz enquanto ri um pouco ao ver Yurgen completamente vulnerável.
Ao lado dela, Raisel solta alguma risada sem ser escandaloso.
Com um gesto de m?o de vai e vem lento, a mulher o chama para mais perto.
Atendendo o pedido, o garoto caminha agachado enquanto segura o rochedo contra a parte de trás da cintura até se sentar mais próximo, ao lado direito da ruiva.
一 O que foi, senhora Carmen?
一 O Yurgen disse pra você focar na sua emo??o mais forte na hora de descobrir sobre o Kern, mas posso te contar como eu consegui despertar o meu pela primeira vez?
A cabe?a do menino balan?a brevemente para cima e para baixo de maneira rápida. é bastante interessante saber sobre uma história assim.
Antes de come?ar a falar, a m?o direita de Carmen busca o palmo esquerdo do garoto. Os dedos dela est?o frios. Parecem trêmulos. Mas em poucos instantes, o calor come?a a aquecê-los.
一 Há uns bons anos, quando eu e o Yurgen ainda éramos jovens, havia uma pessoa com quem nós dois nos importávamos muito. Ela era um orgulho, uma inspira??o e uma admira??o. Forte, gentil…
一 Mas essa pessoa se aproximou demais do seu av? e, no fim, eles acabaram juntos. Cada vez mais, eu me afastei dessa pessoa. Eu via ela como um modelo, um norte pra eu continuar a me desenvolver e melhorar dia após dia.
一 Quando ela decidiu ir embora de casa e seguir o sonho do seu av?, eu desafiei ela… Quem você acha que ganhou?
Os olhos azuis dela se dispersam das chamas e encaram o rosto do rapaz ao lado. O sorriso no semblante da ruiva é intrigante. Parece ser um misto de felicidade, mas a cor do seu olhar está nublada.
Raisel, ao ser questionado, abaixou o olhar. Pensativo, reflete sobre tudo o que já viu das capacidades de combate da sua mentora em esgrima.
一 Acho que a pessoa. N?o sei se você já era t?o forte naquela época…
Uma risada breve acompanhada de um suspiro nasal. A gra?a em ver que ele pensou dessa maneira deixa ela satisfeita, mas a cabeleira carmesim balan?a de um lado para o outro com lentid?o.
一 Foi eu quem venci. Mas mesmo tendo ganho, eu n?o me senti feliz. Pensei “O que eu vou fazer agora?” e coisas assim. Só que, depois da luta, ela me abra?ou e disse pra mim…
O palmo esquerdo de Carmen se aproxima do próprio peito. As lembran?as daquele dia, mesmo tendo se passado mais de uma década, ainda s?o vívidas.
“一 Você n?o precisa chorar, irm?. Relaxa~ Você sempre foi mais forte do que eu. Ent?o, mantenha sua cabe?a erguida. Sei que algum dia você vai honrar o nosso nome.”
一 Mas naquele dia, eu perdi o que eu desejava. A Sarina do lado do Yurgen estava mais feliz do que em qualquer outro momento. Ent?o eu n?o podia implorar pra ela ficar comigo ou algo assim…
Em silêncio, o menino ouve. A natureza está quieta, pois as cigarras n?o cantam mais. As labaredas estalando contrap?em o pipocar de memórias vindo da mente da ruiva.
“Ela despertou o Kern dela desejando algo além do seu alcance, mas se contentando com a realidade… Naquela hora do Jardim Espiral, o que foi que eu desejei?”
Encarando o próprio palmo, a luz da fogueira também faz sombras. O rosto de Yurgen, de olhos abertos, est?o voltados para essa escurid?o.

