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Capítulo 36 - Pesadelos

  A pequena chama pouco a pouco se apaga. O seu calor está cada vez mais fraco em meio a floresta. A sua luz desaparece. A sua presen?a some.

  Contudo, foi o pisar das grevas de a?o que determinou o fim da fogueira. O momento de aconchego se foi e agora é a hora de seguir em frente após o descanso.

  Sob a brisa fria da madrugada, Raisel e Yurgen esperam a mulher que se aproxima em passos lentos. Ela parece estar cochilando em pé ainda.

  Por sua vez, discípulo e mestre est?o lado a lado, encarando o horizonte do restante da floresta.

  一 Antes do amanhecer devemos chegar em Kromslaing.

  O velho desliza os olhos para o outro e come?a a caminhar em passos curtos morro abaixo.

  Acompanhando-o, o ritmo da caminhada do rapaz também é lenta para que a espadachim viesse a acordar logo.

  一 Até agora n?o encontramos nenhum monstro. Espero que mais lá pra perto esteja assim também.

  一 Os Batedores ca?am qualquer possível amea?a às pessoas e a Balmund. Mas em Kromslaing vai ser diferente… é uma cidade fantasma.

  Curioso com as palavras do av?, os olhos dourados tentam fisgar alguma possibilidade do que aconteceu com esse lugar.

  一 Ela ruiu por causa de uma Ruína em Nascimento, como foi com nosso vilarejo?

  A aten??o de Yurgen se volta para o neto, os olhos deles se encontram enquanto a cabe?a do homem balan?a levemente de um lado para o outro.

  一 N?o houve muita divulga??o do que aconteceu com ela. O que eu soube é que ela foi coberta de Gewissen ressentido, inundado de pecados e amarguras de uma hora para outra.

  O semblante de Raisel se torna mais evidente com o arregalar de seus olhos. O fato de uma cidade inteira ser consumida pelas Trevas é algo aterrorizador, pois rapidamente é associável com a presen?a de uma Estrela Escura, como Samael.

  一 Foram os Pag?os?

  一 Provavelmente.

  A ruiva finalmente se aproxima dos dois. Está mais desperta, mas ainda com uma postura horrível e molenga por n?o descansar bem faz alguns dias.

  Com um biquinho nos lábios, Carmen encara o velho sem dizer nada. Mas apesar disso, ele já sabia o que ela queria.

  Tirando o cantil com água das vestimentas, estica para ela o objeto.

  Num instante, a mulher apanha o recipiente e bebe alguns goles sem relar a boca.

  Após se refrescar, é como se ela finalmente houvesse acordado. A express?o cansada, sonolenta e pregui?osa se foi. Os ombros se alinham, a coluna se ergueu.

  Ao devolver o cantil, ela decide entrar na conversa após um respirar profundo.

  一 A intensidade das Trevas em Kromslaing é enorme. Ent?o tem grandes chances deles estarem relacionados.

  Após a fala, um período de silêncio se estabelece. Somente a natureza canta com o ressoar das folhas, o balan?ar do gramado e dos arbustos.

  Entretanto, quanto mais andam rumo ao destino, menos o brilho do luar os persegue. Afinal, est?o indo de encontro com algo além das suas compreens?es.

  Gradativamente o frio cresce. A noite, pouco iluminada, agora é o palco para as assombra??es. N?o apenas as que vêm de fora, mas também as que vêm de dentro.

  一 Ali está. Aquela é Kromslaing…

  Conforme a vis?o ganha nitidez com o diminuir da vegeta??o, fica evidente o poder da enorme cidade.

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  Situada no cume de uma montanha, as suas muralhas s?o naturais. Com incontáveis torres, ela parece tentar tocar o céu nublado com tudo o que tem. Porém, mesmo assim, foram as sombras que a abra?aram.

  Há diversas outras constru??es que se espalham por todos os arredores do pico. A cidadela de Kromslaing, que um dia foi conhecida pelos seus espetáculos e seus artistas, agora há apenas resquícios do que um dia já representou.

  一 O que é aquilo?

  Por mais assombrosa que a cidade se pare?a com a escurid?o, há diversas luzes vindo da base do monte. Essas luzes d?o a volta por toda a cercania do lugar, como se estivesse montado uma barreira contra os males à espreita lá dentro.

  一 é o motivo de n?o ter tido muitas informa??es do que aconteceu com a cidade.

  O olhar do velho se estreita perante a paisagem morta. As árvores est?o secas, o gramado amarelado e a terra negra. As nuvens come?am a descer, causando uma neblina densa que, pouco a pouco, ofusca a cidade e a paisagem.

  Entretanto, os borr?es de luzes das chamas daqueles que portam o le?o em chamas em seu peito, permanecem irredutíveis.

  一 Um cerco. Um acampamento militar de Balmund está isolando a cidade já fazem dez anos…

  A voz da mulher ganha destaque em um tom de preocupa??o, mas também de receio em tentar se infiltrar nesse lugar esquecido pelo tempo.

  一 à partir desse ponto, se cubra com a sua energia, Raisel. Caso contrário, a contamina??o desse lugar pode acabar o afetando.

  Em um aceno com a cabe?a, o menino fica um pouco para trás. O mentor continua a caminhada enquanto tem o seu contorno envolvido com a sua aura prateada. Carmen, logo ao lado, também se cobre com o seu ímpeto.

  O vapor sai dos pulm?es com um suspiro, um único passo à diante marca o subir da sua aura dourada.

  Mantê-la com esse nível de controle, ao ponto de parecer um contorno, é algo difícil por longos períodos. Por isso, o Gewissen dele se fixa mais como uma brasa por todo o corpo.

  Os três seguem rumo à paisagem morta agora obstruída pelo nevoeiro completamente.

  Raisel sente o corpo enrijecido. Com as sobrancelhas estreitas, ele visualiza as costas dos dois adultos com apreens?o. Está nervoso ao ponto das m?os estarem frias.

  “é diferente da sensa??o de Heinz… N?o é assustadora e pavorosa como Kaelduryx… O ar que está vindo de lá faz meu nariz co?ar. é uma atmosfera pesada somente por existir.”

  A primeira árvore morta passa à esquerda.

  Mesmo coberto pela sua energia, parece estar ouvindo sussurros que ecoam pela neblina. Parecem chamados, parecem convites.

  一 N?o dê tanta aten??o. Mantenha o foco.

  Sem que percebesse, Yurgen está o encarando de soslaio há algum tempo. O menino consente com a cabe?a e, à partir desse momento, as vozes parecem ganhar mais distancia.

  Somente o som dos passos dos três esmagam a terra rígida abaixo.

  Ao olhar para baixo, pisa em ossadas de animais. Est?o desgastadas, antigas. Porém, isso n?o o afeta. Ele segue caminhando pela trilha sendo guiado pelas costas dos dois adultos…

  Mas ao erguer o olhar novamente, o brilho de suas auras simplesmente desapareceu.

  Nesse ambiente desconhecido, em meio a escurid?o e a névoa, Raisel está sozinho.

  “Mas o que…”

  O menino para.

  A cabe?a balan?a de um lado a outro.

  Os olhos buscam alguma referência.

  Ao balan?ar o palmo para a direita, a espada das cinco estrelas surge.

  Empunhada, o rapaz caminha com cautela.

  “N?o sinto a presen?a de ninguém… Eles desapareceram de um segundo pra outro.”

  Contudo, conforme anda, ele nota algo à esquerda. Um brilho rosado familiar. Um tom leve, gentil e calmo de rosa. Sutil, delicado, mas ao mesmo tempo, fervoroso com aqueles próximos.

  O horizonte sobre a figura fica mais nítido a cada segundo.

  é impossível para ele se confundir com o cheiro, com esses cabelos vermelhos longos e flutuantes, os olhos azuis que refletem como um oceano.

  Trajada com o vestido que costumava usar, as listras verdes est?o desbotadas e o tom de branco já está amarelo. As botas marrons, o amarrador de cabelo no pulso e o colete no abd?men.

  Quanto mais ele via, menos conseguia acreditar.

  “Raquel…”

  Um sorriso se formou no rosto da garota com a tiara em meio a cabeleira.

  一 Você tá atrasado, Ray! Por quanto tempo planeja me fazer esperar?

  Paralisado, ele encara os arredores.

  O campo verde vívido, o céu vasto limpo, o sol agradável sobre a pele. O aroma das carnes vindo do a?ougue de um lado, mas misturado com o cheiro das po??es e remédios vindo da chaminé de Kimich do outro.

  N?o restam dúvidas, esse lugar é o seu vilarejo.

  “Onde eu… Eu voltei?”

  Olhando para os arredores, a cabe?a parece quieta. S?o tantas perguntas que nem ao menos parece ter uma ordem para escolhê-las.

  O rosto dele se abaixa.

  Encarando os próprios palmos, os calos de seus treinamentos ainda est?o ali.

  Boquiaberto, a express?o pouco a pouco se fecha.

  Por baixo, os palmos delicados de Raquel apoiam as bochechas do menino.

  一 Ray… Tá tudo bem?

  O semblante dele se ergue contra a sua vontade.

  Os olhos dourados est?o lacrimejando. O lábio inferior estremece.

  “A sensa??o das m?os dela é t?o aconchegante… Eu nunca tinha reparado antes…”

  O peito dele dói. N?o por tristeza, mas sim por felicidade. S?o detalhes que, antes n?o pareciam ter valor, mas agora…

  As lágrimas tentam escapar, mas ele suspira fundo.

  Em seguida, as m?os de Raisel se p?em contra as de Raquel.

  一 Obrigado… Eu juro que vou te resgatar. Ent?o espera um pouco mais, por favor...

  O olhar dele ganha ainda mais determina??o. Se antes a sua aura se assemelhava a uma brasa cintilando contra o vento, o brilho dourado se expande como um sol ofuscando toda a paisagem.

  Tudo é consumido pela sua luz. Nem um mísero resquício de sombra permanece.

  Contudo, a escurid?o rapidamente toma conta.

  Ao abrir os olhos, as costas dos adultos est?o à sua frente. O cheiro horrível da natureza corrompida é a sua realidade.

  一 Carmen! Vov?!

  Em alguns passos largos, ele tenta puxá-lo pelos ombros. Mas isso n?o é um sonho implacável.

  Ambos est?o duros como pedra.

  Ao ficar de frente para eles, os seus olhos est?o completamente azuis enquanto encaram o vazio.

  “Isso é a habilidade de alguém?”

  Esse mísero pensamento é o gatilho para que o rapaz se vire bruscamente. A m?o destra, dessa vez em definitivo, empunha as partículas douradas que d?o forma à sua espada.

  Encarando o horizonte das árvores mortas, quem está por trás dessa armadilha?

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