O sono fora um oceano escuro e sem sonhos, um alívio aben?oado para a sua mente exausta e assombrada. Moisés acordou lentamente, a luz suave da tarde de Zenthos a filtrar-se pela janela do seu quarto, pintando o ch?o com tons de laranja e púrpura. O seu corpo sentia-se descansado pela primeira vez em dias, mas o peso no seu peito, uma mistura de medo e responsabilidade, permanecia.
Ele sentou-se na cama, sentindo-se envergonhado por ter desmaiado de cansa?o na frente de Maria. Ao sair para a pequena sala comum do seu dormitório, encontrou-a sentada numa poltrona, a ler um datapad com uma concentra??o fingida, enquanto Rick estava encostado à parede oposta, de bra?os cruzados, a olhar para o teto. Sobre a mesa, o lanche que Maria mencionara horas antes permanecia intocado. Eles n?o tinham ido embora. Estavam à espera dele.
"Sentes-te melhor?", perguntou Maria, sem levantar os olhos do ecr?, mas a sua voz continha um alívio genuíno que traía a sua tentativa de parecer casual.
"Sim. Obrigado", respondeu Moisés, a sua voz um pouco rouca do sono. "Vocês n?o precisavam de ter ficado. Eu estou bem."
"Idiota", resmungou Rick da parede, a sua voz grave e sem rodeios. "é claro que precisávamos."
Moisés olhou de um para o outro. A sua lealdade era um bálsamo para a sua alma solitária e, ao mesmo tempo, um fardo que o aterrorizava. "Sobre o que eu disse ontem à noite..."
"Nós n?o vamos a lado nenhum, Moisés", interrompeu Maria, finalmente olhando para ele, os seus olhos azuis intensos e inabaláveis. "Nós entendemos que tens medo. Entendemos que perdeste tudo. Mas n?o podes usar isso como uma desculpa para nos afastares."
"N?o é uma desculpa, é uma realidade!", retorquiu Moisés, a sua frustra??o a vir ao de cima, alimentada pelo medo que sentia por eles. "Vocês n?o entendem o perigo. Aquele pesadelo... n?o foi só um pesadelo."
Ele respirou fundo, a imagem da selva alienígena e da luz dourada a extinguir-se a voltar com uma clareza horrível. "Eu vi... alguém. Um guerreiro. Um Magic Dourado. Ele lutava com uma luz como a minha. E ele foi... ca?ado. O Magic Negro n?o o derrotou numa luta justa, ele desmontou-o com uma frieza cirúrgica. Eu senti a vida dele a apagar-se como se fosse a minha."
Ele olhou para as suas m?os, que tremiam ligeiramente. "Eu n?o sei se foi uma vis?o do passado, uma memória antiga da Esfera, ou um aviso. Mas foi real. E se vocês estiverem ao meu lado quando um deles aparecer, eu vou sentir a vossa luz a apagar-se também. Eu n?o... eu n?o consigo passar por isso outra vez." A sua voz quebrou-se na última frase, a sua vulnerabilidade exposta no ar, crua e dolorosa.
Foi Rick, o mais improvável dos três, quem quebrou o silêncio tenso. "A tua lógica está errada."
Moisés e Maria olharam para ele, surpreendidos.
"Tu assumes que a nossa presen?a te torna mais fraco, porque sentes que tens de nos proteger", continuou Rick, desencostando-se da parede e dando um passo em frente, a sua presen?a a preencher a sala. "Mas estás a ver as coisas ao contrário. A nossa presen?a torna-te mais forte. A velocidade dela", disse ele, acenando com a cabe?a para Maria, "obriga o teu Instinto de Batalha a evoluir para um nível que nunca alcan?arias sozinho. A minha defesa", acrescentou ele, com um toque do seu antigo orgulho, "for?a-te a encontrar novas formas de atacar, como fizeste ontem. Nós n?o somos um peso. Nós somos as tuas ferramentas de treino mais eficazes."
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Maria levantou-se, os seus olhos a brilhar com a clareza da lógica de Rick. "Ele tem raz?o! Nós n?o somos de vidro, Moisés. Nós sabíamos que esta vida era perigosa quando entrámos para esta academia. O teu fardo n?o tem de ser carregado sozinho."
Ela aproximou-se, a sua express?o uma mistura de determina??o e um carinho que o desarmou. "Ent?o vamos fazer um pacto. Um novo pacto. Nós aceitamos a tua regra: na batalha real contra um Magic Negro, nós n?o interferimos. Ficamos para trás. Por agora." Ela fez uma pausa, para dar ênfase à última palavra, uma promessa para o futuro. "Mas, em troca, tu deixas-nos ajudar. Deixas-nos treinar contigo, todos os dias. Deixas-nos empurrar-te, desafiar-te, e ajudar a tornar-te t?o incrivelmente forte que, quando o dia chegar, nenhum Magic Negro terá a menor hipótese. O nosso trabalho n?o é lutar ao teu lado na batalha final. O nosso trabalho é garantir que tu nunca percas."
Rick concordou com um aceno brusco. "A tua vitória é a nossa vitória. é t?o simples quanto isso."
Moisés olhou para os seus dois amigos, para os seus dois únicos amigos neste vasto universo. Eles n?o estavam a oferecer-se como ajudantes indefesos, mas como aliados estratégicos. Eles estavam a dar-lhe o espa?o de que ele precisava, ao mesmo tempo que se recusavam a abandoná-lo. Uma lágrima teimosa, uma traidora, escapou-lhe e ele limpou-a rapidamente com as costas da m?o.
"Está bem", sussurrou ele, a sua voz embargada. "Eu aceito. Um pacto."
Um sorriso aliviado espalhou-se pelo rosto de Maria. Até Rick parecia menos tenso, os seus ombros a relaxarem ligeiramente. O muro invisível que Moisés construíra à volta do seu cora??o tinha sido substituído por uma ponte.
Mais tarde, quando eles finalmente saíram, deixando-o com a promessa de um treino infernal no dia seguinte, Moisés fechou a porta e, no silêncio do seu quarto, convocou o Guardi?o. A forma etérea materializou-se, a sua luz a encher o espa?o.
"Guardi?o", disse Moisés, a sua voz agora firme, precisando de uma última confirma??o. "O pesadelo que eu tive. A morte daquele guerreiro dourado. Foi real?"
O brilho do Guardi?o pareceu diminuir por um instante, como se partilhasse a dor da memória. Sim. A Esfera que carregas contém os ecos da nossa Ordem. O que viste... foi a memória de uma das últimas batalhas da Grande Guerra. A memória da queda de um dos nossos irm?os de armas. Um evento que aconteceu há muito, muito tempo, mas cuja dor ainda ressoa dentro do legado que carregas.
Um frio gelado percorreu a espinha de Moisés. Aquele n?o era um perigo novo, mas sim um lembrete vívido e brutal da crueldade dos seus inimigos. A ca?ada n?o estava a come?ar agora. Ela nunca tinha terminado.
"Eles s?o assim t?o implacáveis?", perguntou ele, a voz baixa.
Eles ca?am a luz onde quer que a encontrem, respondeu o Guardi?o, a sua forma a cintilar com uma urgência sombria. A tua revela??o na arena pode n?o ter sido sentida. Ou pode ter sido. N?o podemos saber. Mas agora tu compreendes a verdadeira natureza da nossa luta. Esta n?o é uma guerra de exércitos e bandeiras. é uma guerra de sobrevivência.
Moisés cerrou os punhos. A sua miss?o tornou-se mais clara, mais pesada. N?o era apenas sobre treinar para o futuro. Era sobre dominar o seu poder o mais rápido possível, antes que as sombras do passado o encontrassem.
"O treino tem de intensificar", disse Moisés, mais para si mesmo do que para o Guardi?o. "Eu tenho de estar pronto. N?o para uma batalha. Mas para uma extin??o."
Este foi um capítulo muito importante para mim. Mostra que a verdadeira for?a de um herói n?o vem apenas do seu poder, mas também das pessoas que lutam ao seu lado. O que acharam do discurso do Rick? às vezes, o "músculo" também tem um cérebro, n?o é? Ele surpreendeu-vos?
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