Ribeiro ainda estava com Askiel quando a voz caiu sobre o Coliseu.
N?o veio do alto.
Veio de tudo.
“DAQUI A CINCO MINUTOS, INICIAREMOS A PRóXIMA RODADA. úLTIMA ANTES DAS QUARTAS DE FINAL.”
A frase n?o ecoou.
Ela se acomodou.
Ribeiro inclinou levemente a cabe?a, como quem reage a um ruído que o corpo reconhece antes da mente.
— Você ouviu isso?
Askiel já se afastava.
— "Ouvi antes de você terminar a pergunta."
As asas se abriram só o suficiente para deslocar o ar.
— "Eles n?o v?o parar."
Ribeiro soltou um riso curto, sem humor.
— Claro que n?o.
E foi atrás.
O Coliseu estava ativo demais.
As arquibancadas ainda se enchiam. Pessoas discutiam apostas, riam alto demais, brigavam por espa?o como se o dia seguinte fosse garantido. Nos corredores laterais, dois combatentes aguardavam a chamada sentados no ch?o, afastados do fluxo principal, como se aquela parte do Coliseu existisse só para quem já aceitou que n?o há muito o que fazer além de esperar.
Um cara gigante e um gato jogavam cartas.
N?o era tenso.
N?o era solene.
Era quase… doméstico.
Cartas batendo no piso de pedra. Um monte improvisado. Regras sendo dobradas sem muito esfor?o.
O gigante trapaceava descaradamente.
O gato xingava sem convic??o, mais por hábito do que indigna??o.
Em algum momento, um dos dois riam, n?o porque algo fosse engra?ado, mas porque o corpo ainda lembrava como rir.
Qualquer coisa que fingisse normalidade.
Ribeiro parou alguns metros atrás, observando a cena sem ser notado.
A pergunta surgiu sozinha, inc?moda demais para ser ignorada.
"Vocês n?o v?o lutar n?o?"
N?o disse.
Nem precisava.
O céu ciano ainda pulsava pelas aberturas superiores do Coliseu, uma presen?a constante, inc?moda, como uma dor antiga que ninguém mais comenta. A estrela continuava descendo. Lenta. Irreversível.
Mas ali embaixo, o mundo seguia.
Como se tivesse tempo sobrando.
O Patr?o surgiu no centro da arena.
Postura firme. Voz limpa. Sorriso calibrado para n?o parecer nervoso demais nem indiferente demais.
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— “Combatentes da próxima rodada, avancem.”
Os port?es se abriram.
à esquerda, o híbrido.
Rayel Daemon.
Três metros de altura. Massa densa. Cada passo parecia confirmar algo. A sombra colada aos pés n?o se movia como ausência de luz, ela tinha peso, atraso, inten??o.
à direita, o gato.
Mahershalalhashbaz.
Pequeno demais para aquela arena. Leve demais para o que carregava. O cajado que carregava era curto, demasiado curto para as expectativas de um bast?o de duelo; cabia confortavelmente na pata como um instrumento de precis?o. A prótese, instalada no membro oposto, era um espelho funcional da outra pata, mas, feito de ferro: n?o apenas substituía um membro, ela replicava e respondia, permitindo que o gato se erguesse por instantes em um equilíbrio errado, quase bípede, o tempo suficiente para canalizar uma técnica. A imagem era desconcertante: um ser ancestral usando uma postura improvisada que ofendia a lógica, e, por isso, era hipnótica.
O painel acima da arena se acendeu.
RAYEL DAEMON
Ra?a: Híbrido — Humano / Nyxari
Idade: 65
Classifica??o: TRINDADE
O Coliseu reagiu com um murmúrio baixo, instintivo.
O painel mudou.
MAHERSHALALHASHBAZ
Ra?a: Monstro Ancestral — Tipo: Gato
Idade: ???
Classifica??o: miau
A palavra estava escrita com uma caligrafia absurdamente bonita. Curvas cuidadosas. Tra?os rústicos, quase artesanais. Alguém claramente se importou ao escrever aquilo.
O narrador pigarreou.
— "…A letra está… surpreendentemente bem-feita."
O gato inclinou a cabe?a.
— "Obrigado."
Ribeiro piscou uma vez.
— é claro que agradeceu... '-'
Os dois tomaram posi??o.
O sinal soou.
A luta come?ou.
Mahershalalhashbaz n?o avan?ou.
Ele reorganizou.
A mana do ambiente se ajustou como um campo sendo arado por m?os invisíveis. O ar se adensou. O ch?o vibrou em concordancia.
Rayel n?o desviou.
A sombra dele se moveu.
N?o como técnica.
N?o como magia.
Como alguém se levantando.
No instante em que a sombra se desprendeu do ch?o e assumiu volume próprio, algo atravessou Ribeiro sem aviso.
ódio.
N?o direcionado.
N?o racional.
N?o seu.
Foi físico. Um aperto seco no est?mago, como se algo dentro dele tivesse reconhecido outra coisa… e n?o gostado nem um pouco.
Ele cerrou o maxilar.
— Que porra é essa…?
Rayel avan?ou. A sombra atacou de um angulo que n?o obedecia inten??o clara. O gato respondeu com precis?o cirúrgica: numa sequência súbita, a prótese espelhada fez o ajuste fino, o gato elevou-se apenas o bastante para apoiar o cajado curto entre a pata e o membro prótese, e um tra?o de mana, fino como linha de costura, foi costurado no ar. O cajado n?o foi brandido como arma comum; foi usado como instrumento, ponte, foco, alavanca.
Golpe.
Recuo.
Reajuste.
A plateia reagia, mas sempre meio segundo tarde demais.
Ribeiro percebeu, com um desconforto silencioso, que estava torcendo.
Para o gato.
N?o por lógica.
Por instinto.
A luta se estendeu. Rayel apanhava, mas n?o cedia. Cada impacto parecia alinhar algo. N?o for?a, coordena??o. Como se mais de um ritmo tivesse decidido cooperar.
Mahershalalhashbaz hesitou.
Foi pouco.
Foi suficiente.
O golpe final n?o foi espetacular. Foi inevitável. A sombra prendeu. O corpo avan?ou. O Coliseu inteiro prendeu o f?lego por hábito.
Silêncio.
Vitória do híbrido.
O anúncio ecoou.
Ribeiro n?o aplaudiu.
N?o xingou.
N?o reagiu.
Só ficou… puto.
A névoa ao redor dele se adensou, assumindo contornos mais definidos. A voz surgiu perto demais, íntima demais.
— "Tá ouri?ado por quê, meu anjinho? :*"
Ribeiro virou o rosto.
— "Vai à merda. Negócio de gay do caralh—"
Parou.
Piscou.
— "…Pera. Como que eu sei o que é essas palavras?"
A névoa pareceu sorrir.
— "Estudos, meu brother. Estudos."
— Mas eu n?o lembro de ter estudado isso.
— "Foda-se."
A névoa observou a arena, onde os combatentes se retiravam.
— "Bora prestar aten??o nesses dois. Parecem promissores."
Pausa.
— "O gato lutou bem."
Outra pausa. Menos brincalhona.
— "Vontade de fazer carinho… muito fofo."
Ribeiro suspirou.
Lá em cima, a estrela continuava descendo.
E o torneio…
continuava fingindo que nada estava acontecendo.
Fim do capítulo.

