N?o três dias de esperan?a, três dias contados, frios e secos como centavos. O azul ciano que prendia o céu sobre o Coliseu já n?o era céu; era mostrador. Cada pulso daquela luz riscava um segundo do mundo, uma batida administrativa que transformava tempo em item de pauta. N?o importava quem gritava nas arquibancadas, quem forjava promessas entre apostas ou quem jurava que voltaria para casa naquela noite: o relógio cósmico seguia marcando.
Capella n?o apareceu.
A informa??o veio direta. Ribeiro aproximou-se do centro e falou baixo com o Patr?o, um murmúrio técnico, seco: Zenerity; escolha dela; saída imediata. O homem que presidia o torneio ouviu como quem recebe relatórios rotineiros: assentiu e virou-se, ajeitando mentalmente uma variável qualquer. Era assim que lidava com o imprevisível: transformando-o em tarefa.
Na arena, o resto frizou por hábito. Rayel Daemon saiu do anel com passos pesados, a sombra ainda grudada ao corpo; o gato ancestral, Mahershalalhashbaz, foi escoltado resmungando, a prótese tintilando. A multid?o retomou seu ruído mecanico: apostas recalculadas, apostas duplicadas, exclama??es entediadas. O Coliseu fazia o que sabia fazer melhor: fingir que tudo permanecia sob controle.
O Patr?o ficou no centro. N?o por pose. Por execu??o. Olhou para Rayel como quem corrige um documento; falou sem dimens?o dramática, apenas linguagem gerencial, por isso a mudan?a soou ainda mais estranha.
— "Mudo o formato."
Disse.
— "Esquema “vencedor enfrenta próximo” n?o cabe mais. O mundo está mudando. N?o vamos empilhar provas como se amanh? fosse rotina."
Rayel franziu o cenho, n?o por desconforto, só sem entender o tom. Para muitos foi nota administrativa; para quem prestava aten??o, uma ruptura discreta que alterava o contrato tácito do torneio. As maiores mudan?as vêm assim: troca-se um protocolo e o ch?o realinha.
— "Entendido..."
murmurou Rayel.
— "O que segue?"
— "Decide-se no momento."
O Patr?o disse.
— "Avalia-se caso a caso. N?o tenho paciência para formalidades quando o teto do mundo está rachando."
N?o houve alarde. A decis?o já dizia tudo. O jogo, a estrutura, os rituais, tudo podia ser reconfigurado num instante por quem ainda mantinha aparência de humano.
Ent?o chamou Askiel.
A voz foi sem artifícios:
— "Askiel, venha."
A proposta veio com eficiência: cinquenta por cento a mais no prêmio em ouro ou um tomo real; se perder, sai da arena com as pernas e sem glória. E, crucialmente, o aviso: “vou me conter, usarei apenas manipula??o elemental.” A clareza cortou o ruído. Askiel ouviu como quem avalia uma oferta de risco: o ganho era palpável, o risco contido. Aceitou.
Cinco minutos. Tempo para ajustar mente, respira??o, inten??o. O Patr?o atravessou o anel e sentou-se no meio, pernas cruzadas, olhos cerrados como quem recalibra com precis?o de relógio. N?o parecia preparar ataque; parecia alinhar parametros. Askiel, do outro lado, acalmou a respira??o e deixou as laminas gêmeas repousarem nos antebra?os. N?o eram instrumentos comuns: onde quisessem cortar, convertiam matéria em névoa, n?o por maldade, por fun??o. Quando a inten??o chamava, o fio decupava a coerência das coisas.
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O público prendeu a respira??o por inércia. Lá fora, a festa de fim de ano. Aqui, o calendário do céu marcava cada segundo.
O sinal soou.
Askiel avan?ou com a precis?o de quem aplica lei. Cortes limpos, múltiplos planos, micro-ritmos que pediam mais que músculos, pediam leitura perfeita do rival. Onde os fios varreram o ar, a própria tessitura do espa?o come?ou a desfazer-se em filamentos translúcidos. Bastava um toque coerente para que pedra, carne, cobre perdessem forma.
No instante em que o corte devia se completar, o Patr?o ergueu a m?o.
Foi movimento mínimo. Sem espetáculo. O ar tornou-se resistente de modo n?o violento: denso, hesitante, como se perdesse o hábito de se transformar. A névoa que deveria nascer desistiu de existir antes de nascer. A inten??o de Askiel encontrou n?o um bloqueio físico, mas a recusa do mundo em aceitar a mudan?a.
A luta virou jogo de instantes.
Askiel testou angulos. Ajustou cadências. Projetou inten??es menores para sondar a resposta. O Patr?o rebatia sem atacar: um sopro que deslocava eixo, um peda?o de piso que virava liso no milésimo certo, vapor que rompia leitura no compasso final. N?o era afeta??o de poder. Era administra??o do momento. Negar a completude do corte mantinha a integridade do palco sem violência aberta, e pedia a Askiel que jogasse por regras novas.
Na terceira tentativa, Askiel come?ou a descer ao método. Quem vive de leitura transforma percep??o em ficha. Ra?a: humano. Energia: quase ausente. Mana: praticamente zero. Defesa: números que n?o cabiam quando aplicados às rea??es do mundo. FOR: 0/∞, um paradoxo que o cérebro, treinado em hierarquias angelicais, n?o sabia mapear. Admitir aquilo doía mais que qualquer lamina.
O absurdo entrou como náusea. N?o era medo; era deslocamento epistemológico. Era entender que a própria régua de combate estava torta.
Num erro de compasso, pequeno, humano, a lamina tocou carne.
A névoa come?ou. E parou.
Meio processo. Meio resultado. Um fio de sangue dourado jorrou, curto e metálico; nenhum cataclismo, só a presen?a de algo que podia ter sido completo e foi interrompido. O Patr?o caminhou com calma clínica e fechou a ferida com gesto prático: mana aplicada como sutura, sem drama. Da arquibancada veio a rea??o previsível: riso nervoso, gente que comemora o óbvio. Onde a apreens?o vira piada, o conforto coletivo respira.
Askiel caiu de joelhos. N?o por dor física, a dor veio em outro registro. Riu, seco, antes que as palavras lhe faltassem. Pressionou os dedos contra a têmpora como quem repousa um mapa que falhara; um tremor fino percorreu-lhe a mandíbula, sinal de abalo, n?o de derrota bruta. Era riso de quem percebeu uma falha profunda no que sabia.
— "Você quase usou outra coisa..."
murmurou, mais para si do que para o público.
— "Fim de luta."
O sistema decretou automático.
Patr?o vence.
O anúncio n?o trouxe triunfo. Soou como conclus?o lógica sem o passo anterior: o público sabia que alguém vencera, mas n?o do que se esquivara. A vitória veio limpa, administrativa, com uma sombra de estranhamento no ar. Askiel ergueu-se com a dignidade dos que entendem que perder ensina. Ficou para assistir às lutas residuais, curiosidade prática, desejo de aprendizado, e saiu com a névoa brincando ao redor como animal doméstico que se sacode depois da chuva.
Do lado de fora, o mundo seguia: luzes de Ano Novo piscavam, casais cruzavam ruas, vendedores fechavam caixas. Um homem nas primeiras filas, sem entender nada, já gritava vitória de um concorrente; outra voz, mais atrás, xingou, e uma fita colorida caiu das m?os de uma crian?a. Pequenos desalinhamentos humanos, detalhes que ressaltavam a desconex?o entre o teatro e o que realmente estava em jogo.
No céu, a Estrela prosseguia sua descida pausada. Três dias ainda marcavam o intervalo até a chegada. Enquanto a multid?o se reorganizava em boatos, apostas e insultos baratos, a luz ciano avan?ava mais um pouco, cortando o tempo que restava do planeta como quem apaga tópicos de uma lista concluída.
O Patr?o recolheu-se como gerente encerrando expediente. N?o olhou para trás. Partiu sem gesto triunfal. Deixou no ar uma altera??o discreta nas regras: o aparelho do torneio n?o se limitava mais ao formato antigo. A prioridade agora era medir limites, ver até onde o mundo resistiria a varia??es quando o teto já cedia.
A névoa que seguia Ribeiro riu baixo, som que ninguém mais ouviu direito. Em instantes, o Coliseu voltaria a inflar com outro pared?o de vozes. Mas, para quem notara as microfalhas, nada mais servia para ocultar o que acontecia no céu. A Estrela descia. O mundo seguia seu teatro, agora com prazo.
Quando o leitor erguesse a ta?a na festa que viria, talvez fosse a sensa??o física que o lembrasse: o metal frio da ta?a, o estalo da rolha, o champanhe que tem um gosto ligeiramente metálico na língua, e, junto com isso, a memória da contagem. Três dias. Três. Até que o relógio deixasse de ser só metálico e come?asse a partir certezas.

