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50. Quando céu nega a terra

  O Coliseu ainda respirava em solu?os.

  N?o era silêncio, era aquele intervalo torto depois de um grito coletivo, quando ninguém sabe se corre, se chora ou se fica parado fingindo que entendeu o que acabou de acontecer. O tipo de calma que só existe depois do anúncio. Depois da gargalhada divina. Depois que o prazo é dado.

  O céu ciano ainda pulsava.

  A estrela ainda descia.

  Nada tinha sido resolvido.

  Ribeiro fechou o portal de Aqua com um gesto seco. O azul profundo se contraiu, virou linha, depois nada. O vento cessou. O eco da própria voz morreu entre as arquibancadas, como se o Coliseu tivesse decidido n?o responder mais.

  Alguns olhares o seguiam com ódio.

  Outros, com gratid?o.

  A maioria… com medo.

  Ele se virou antes que qualquer coisa pudesse virar pedido, acusa??o ou súplica. Caminhou pelos corredores laterais, onde o som era abafado e a luz mais fraca, como se aquela parte do Coliseu tivesse sido construída para decis?es que n?o deveriam ser vistas.

  Cada passo era uma conta fechada.

  Cada respira??o, um custo aceito.

  Capella estava encostada numa coluna que estava sendo usada de suporte dimensional. Bra?os cruzados, express?o dura demais para ser chamada de calma. Thua estava ao lado, sentada no parapeito, balan?ando uma perna com insistência, o tipo de movimento que tenta convencer o corpo de que ainda existe normalidade.

  Capella foi direta. Sempre foi.

  — "Você quer vir comigo?"

  Ribeiro parou a alguns passos.

  — "Zenerity abriu uma rota para nós"

  continuou ela.

  — "Outra dimens?o. Isolada. Dá pra esperar a poeira baixar. N?o é fuga… é sobrevivência antes de você ensinar algo."

  Thua inclinou a cabe?a, observando Ribeiro com curiosidade cautelosa, como quem avalia uma rea??o química instável.

  — "N?o é um lugar ruim"

  completou.

  — "E n?o tem estrela nenhuma lá. Nem mensageiro. Só silêncio."

  Ribeiro olhou para o ch?o por um segundo. Depois, para o céu rachado visível pela abertura do corredor. A luz ciano vazava como uma lembran?a ruim, persistente, invasiva.

  Stolen novel; please report.

  — Eu sei...

  disse.

  Capella estreitou os olhos.

  — "Ent?o?"

  Ribeiro respirou fundo. N?o para ganhar coragem. Para terminar uma conta.

  — N?o vou.

  O ar pareceu perder densidade por um instante.

  — "Você é idiota?"

  Thua comentou, sem agressividade. Mais como quem reconhece um padr?o.

  Ribeiro deu um meio sorriso.

  — Meia mula para você.

  Capella n?o riu. A voz dela saiu mais baixa:

  — "Por quê?"

  Ele levantou o olhar. N?o havia heroísmo ali. Nem prazer.

  — Porque eu tenho um lugar seguro em mente.

  pausou...

  — E porque eu quero ver este planeta pegar fogo.

  Thua arregalou os olhos, o movimento rápido demais para ser controlado.

  — "Caralho…"

  Capella fechou os olhos por um instante. N?o em choque, em confirma??o.

  — "Ent?o é isso"

  Disse.

  — "Você fica. Eu vou."

  Ribeiro assentiu.

  — Você n?o vai aparecer no torneio.

  — "N?o"

  Capella confirmou.

  — "N?o vou ousar brincar de espetáculo com o mundo assim."

  Silêncio.

  Nenhuma negocia??o possível sobre o que já foi decidido.

  Capella estendeu a m?o. Ribeiro segurou. O aperto foi firme, real, n?o simbólico. N?o havia promessa ali, apenas reconhecimento mútuo de risco.

  — "N?o tem garantia nenhuma de que a gente se veja de novo"

  Ela disse.

  — Nunca teve.

  Ribeiro respondeu.

  Thua se levantou, aproximou-se e deu um soquinho leve no bra?o dele.

  — "N?o morre, tá? Ia ser um saco explicar isso depois."

  — Vou tentar...

  Ribeiro disse.

  Capella abriu a dobra dimensional. N?o foi chamativa: um corte limpo no espa?o, quase respeitoso, como quem fecha uma porta sem bater. Antes de atravessar, ela olhou para Ribeiro uma última vez.

  — "Boa sorte."

  — Você também.

  Capella atravessou. Thua foi logo atrás. A dobra se fechou sem som.

  Menos uma.

  Ribeiro ficou parado alguns segundos.

  N?o por arrependimento.

  Por contagem.

  Depois virou-se.

  Foi ent?o que sentiu.

  Passos.

  Firmes. Ritmados. Sem pressa.

  Askiel vinha pelo corredor oposto, caminhando como quem já sobreviveu a anúncios piores. As asas recolhidas. As laminas presas ao corpo. O ar em volta dele parecia mais organizado, como se obedecesse por hábito.

  Quando pararam frente a frente, n?o houve hostilidade imediata. Só reconhecimento.

  — "Ent?o é você."

  disse Askiel, a voz grave, controlada.

  — Depende do dia

  Ribeiro respondeu.

  Askiel olhou na dire??o do céu rachado. Depois, de volta para ele.

  — "Você mexeu em coisas grandes hoje."

  — Alguém precisava mexer.

  — "Nem sempre"

  Askiel disse.

  — "Mas agora já foi."

  Um silêncio curto, denso.

  — "Você vai ficar"

  constatou o arcanjo.

  — Hnnh.

  Askiel assentiu lentamente.

  — *Ent?o escolha bem seus próximos passos."

  pausou.

  — "Nem todo apocalipse perdoa quem decide acompanhar de perto."

  Ribeiro sorriu de leve.

  — Eu n?o vim acompanhar.

  Askiel sustentou o olhar por um segundo além do necessário. Algo passou ali, n?o julgamento, mas registro. Depois virou-se e seguiu, os passos ecoando pelo corredor como um aviso que chegou tarde demais.

  Ribeiro ficou sozinho outra vez.

  A estrela continuava descendo.

  E o mundo, oficialmente, já tinha passado do ponto de retorno.

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