Saída.
O ponto de luz murchou; a dobra chiou como pálpebra que se fecha. Ribeiro foi cuspido para fora do gr?o, o selo que fora camara, tribunal e espelho, e o mundo o recebeu com o hálito seco do vidro rachado.
O planeta ardia de longe, como um sol ferido. Peda?os de cidade jaziam espatifados sobre dunas de vidro, torres derretidas em colunas que brilhavam como ossos lavados pelo sol. O vento trazia cinza que cortava a língua; o ar tinha gosto de metal quente e sal.
O Inseto em seu ombro estalou duas vezes, uma batida curta e desconfiada, como metr?nomo tentando reencontrar o compasso do mundo.
Ribeiro respirou. Algo dentro do peito ainda batia, n?o sangue, mas o eco de um selo. As palavras que ouvira recentemente.
“Feito à minha imagem, como deus.”
Esfregavam-se entre as costelas.
O manto novo pendia dos ombros como roupa que ainda n?o se acostumara ao corpo.
Ele andou, passos medidos, quase tentando provar a si mesmo que ainda era "humano".
No vale, junto a uma ruína que fora pra?a, um grupo se avultava: figuras cobertas por panos, rostos escurecidos, olhos do tamanho da fome. Tinham lan?as feitas de vergalh?es, machados com laminas antigas, ganchos. Eram coletores, saqueadores do que restara.
Quando Ribeiro se aproximou, o ar entre eles se esticou como uma corda.
Um velho, magro como um espeto, avan?ou dois passos. A voz dele era casca de tombo:
— "FORASTEIRO!"
ele cuspiu
— "SUMA DAQUI!"
A palavra foi lente e lupa. Ribeiro congelou. Por um segundo pensou: o que eu fiz?
Olhou para as m?os.
Close-up.
Fuma?a. N?o fuma?a que sobe e some, mas fuma?a com corpo: filamentos opacos, veias de névoa que desenhavam, por dentro, algo como ossos translúcidos.
A luz atravessava e transformava as falanges em notas de cristal.
Era belo e nojento, como ver uma música rasgar a pele.
O ch?o, sob os pés dos coletores, vacilou.
Um deles sorriu de avareza
— "isso vale..."
Pensou o sorriso.
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Outros já sacaram armas, o gesto seco de quem conta vantagem.
O Inseto chiou, curto.
A cena virou sequência. Corte. Plano-contraplano.
Som de botas na pedra. O vento parou, atento.
Ribeiro n?o queria aquilo. N?o sabia as coreografias de lutas com vergalh?es, n?o tinha treino de a?o.
O que tinha era o que o selo deixara, um frio poder nas palmas, uma névoa que respondia quando ele a chamava com pensamento torto.
Quando o primeiro avan?ou, lan?a apontada, Ribeiro abriu as m?os.
A fuma?a obedeceu.
N?o foi tiro, nem lamina.
Foi forma espessada: um dedo de neblina que entrou pela gola do homem e saiu como punhal de vento.
O atacante caiu de joelhos, n?o sangrando, mas drenado de coragem. As articula??es tremeram e os olhos ficaram molhados de súplica.
O segundo veio por impulso.
Ribeiro girou, ombro, passo, e um golpe de névoa virou gancho, acertando a têmpora.
O som foi líquido, um estalo como fruto maduro explodindo.
Close-up nos olhos de Ribeiro:
n?o há triunfo.
Só horror, ver sangue onde nunca houve inten??o.
N?o era prazer: era o reconhecimento do estrago que seu corpo podia fazer.
A fuma?a se ajustava como fio em m?o inexperiente: uma pétala que enrola faca; uma onda que encobre costela.
O sangue, quando vinha, saía em arcos vívidos, pontua??o rubra no parágrafo do ch?o.
A luta parecia filmagem em slow motion: faca cortando o ar, névoa envolvendo lamina, grito que morre.
O Inseto marcava o tempo com estalos que soavam como trilha sonora de um filme mudo.
Em vinte respira??es, os coletores estavam no ch?o.
Alguns gemiam.
Alguns somente n?o se levantam mais.
A névoa nas palmas de Ribeiro estava salpicada de vermelho fino, partículas que dan?avam dentro do véu translúcido, como se estivessem vivas.
Ele caiu de joelhos, n?o por dor física, mas por conhecimento novo e aterrador: tinha matado sem procurar matar.
O Inseto chiou longo, uma nota de reprova??o.
Uma mulher, uma das sobreviventes, cuspiu terra e o olhou com algo que n?o era só ódio era medo e lágrimas.
Levantou a m?o num gesto de rendi??o, depois baixou: n?o somos monstros, dizia o gesto.
Crian?as se encolheram atrás dela, olhos grandes e brilhantes.
Ribeiro passou a palma sobre um corpo, n?o pra sentir calor, mas pra tocar a verdade.
A fuma?a que se desprendia das feridas lembrava brasas apagando.
Instintivamente, soprou.
A névoa entrou nas fendas, trabalhou como costura torta.
Um dos moribundos pigarreou e apertou os olhos, por um suspiro, voltou a ser humano.
Um milagre errado, talvez, que n?o consertava o estrago.
O vento recome?ou.
O sol baixou um palmo.
Ribeiro olhou as m?os, agora sujas de ferro e fuligem.
Murmurou, quase sem som:
— N?o era pra ser assim...
O Inseto estalou, concordando com o que podia concordar.
"Plano geral".
Ribeiro é um ponto pequeno que se afasta pelo vale.
Atrás, corpos jazem em linhas tortas; a poeira come?a a mascarar as marcas.
Ao longe, as ruínas continuam de pé, indiferentes.
O selo, agora apenas um gr?o de luz enterrado entre lascas, pulsa como cora??o que n?o sabe se deve manter o batimento.
Enquanto se afastava, sentiu nas costas o peso da frase do ser: “és ruína e origem.”
Entendeu, pela primeira vez, que aprender o ofício do fogo n?o vinha sem carregar sangue.
N?o era apenas nomear; era carregar a dívida do queimar.
O som final: o estalo discreto do Inseto, o passo de Ribeiro sobre vidro seco, e a cidade de cristal engolindo a história como se fosse só mais um corte no filme do mundo.
Ele caminhou.
O mundo voltou a girar.
E, em algum ponto minúsculo do selo, um deus observava.

