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30. Queda Para Dentro

  O vale parecia respirar.

  N?o com ar, com lembran?as antigas, empilhadas como poeira viva.

  Cada pedra latejava como se tivesse um cora??o emprestado.

  O céu parecia esquecer como cor funcionava.

  E as sombras… n?o obedeciam ninguém.

  Ribeiro caminhava.

  Ou achava que caminhava.

  A sensa??o era de estar sendo empurrado por dentro, como se alguém segurasse suas cordas, e esse alguém n?o fosse ele.

  A fuma?a tremia entre seus ossos.

  Quente. Viva.

  Próxima demais.

  O Inseto movia-se no ombro dele, estalando… estalando…

  Cada clique era um toque frio no vidro da alma.

  Ribeiro tentou respirar.

  O ar entrou como fragmentos de vidro.

  — N?o era pra ser assim…

  sussurrou, mas a voz saiu torta, fraturada, sem dono.

  A fuma?a reagiu de dentro do peito.

  Um pux?o.

  Firme.

  Fundo.

  Como se segurasse lugares que nem pulm?es lembravam que existiam.

  As ruínas à frente ondularam, derretendo nas bordas da vis?o.

  O mundo dobrava como celulóide queimando.

  O Inseto inclinou a cabe?a.

  Estalo curto.

  Aviso.

  Ribeiro levou a m?o à têmpora.

  A própria sombra dele se esticou pelo ch?o, longa demais, articulada demais, puxada por m?os invisíveis.

  Algo estava errado.

  Profundamente errado...

  Ele pisou.

  E o ch?o desistiu de existir.

  O TURBILH?O

  N?o houve queda.

  N?o houve impacto.

  Só um som, interno, íntimo, um cora??o batendo fora do corpo.

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  Depois, luz.

  Ou algo fingindo ser luz.

  Reflexos quebrados, como dentro de uma bolha rachada.

  Fragmentos de realidade cortados por angulos impossíveis.

  Quando ele abriu os olhos, viu o novo mundo:

  Um campo formado de superfícies partidas.

  memórias estilha?adas, pensamentos sem dono, lembran?as com dentes.

  E no centro delas…

  A fuma?a.

  Mas n?o sua fuma?a.

  Uma massa maior, pulsante, respirando como um pulm?o vivo feito de vapor e ruído.

  Rostos infantis surgiam e desapareciam.

  M?os translúcidas tentavam agarrar qualquer coisa que tivesse forma.

  Ela o percebeu.

  E vibrou.

  Ribeiro recuou, e o ch?o rachou como espelho molhado sob seus pés.

  — N?o devia estar aqui…

  murmurou, engolindo a própria voz.

  Um estalo profundo vibrou o ar.

  Algo se desprendeu de uma torre de sombras e desceu.

  O Inseto.

  O verdadeiro.

  Comprido demais, fino demais, distorcido demais pra existir em qualquer continente que tivesse lógica.

  Seus olhos eram buracos com inten??o.

  — "Você Demorou..."

  disse a criatura.

  Os estalos se torceram até virarem palavras.

  A fuma?a ondulou atrás de Ribeiro.

  Ciúme.

  Medo.

  Fome.

  O Inseto levantou uma m?o fina como uma lamina.

  — "Ela n?o quer que você fale comigo."

  — "Ela acha que sou amea?a."

  Estalo.

  — "E eu sou... ü, HAHAHAHAHAHAHHAHAHAHAHAHAHAHHAHAHAHAHAHAHAHHAHAHAHAHA"

  A fuma?a tentou alcan?á-lo, se esticando em veias escuras que vibravam com raiva.

  O Inseto recuou, rápido demais, angular demais.

  Ribeiro puxou o pé, tentando reconhecer o próprio corpo.

  — O que você… quer…?

  O Inseto aproximou-se.

  Sua sombra tocava a sombra de Ribeiro, e aquilo doeu.

  — "Quero te reconstruir."

  A fuma?a explodiu.

  Tentáculos de vapor negro se lan?aram para dentro dele, olhos, boca, espinha, pulm?es, qualquer abertura que encontrassem.

  O Inseto interceptou.

  Sombra contra névoa.

  O impacto silencioso gritou dentro dos tímpanos de Ribeiro.

  Duas inten??es atravessaram seu peito como laminas:

  Da fuma?a:

  — "Entrega-te."

  Do Inseto:

  — "Reage."

  E uma terceira voz… remota.

  Quase morta.

  Uma memória lutando para existir.

  — "Ri… bei… ro…"

  A sanidade dele estalou como gelo velho.

  E o mundo explodiu em branco.

  O BRANCO ENTRE PENSAMENTOS

  Branco total.

  Mas um branco com peso.

  Com textura.

  Com cheiro de algo prestes a nascer.

  Algo tocou o rosto dele, leve como uma lembran?a arranhando a consciência.

  Um olho abriu no branco.

  Depois outro.

  Depois dezenas.

  A luz estava observando.

  Ribeiro tentou falar, mas a voz saiu antes de existir.

  Foi ent?o que a Porta surgiu.

  Simples.

  Madeira escura.

  A fechadura respirando como um animal ferido.

  Atrás dela, um som.

  Um batimento irregular.

  Como uma alma tentando escapar do próprio corpo.

  O Inseto apareceu ao lado dele, menor, como se tivesse deixado parte de si na batalha.

  Sua voz saiu arranhada, estática tentando ser som:

  — "Se você abrir…"

  — "Ou volta inteiro…"

  — "Ou nunca volta."

  A fuma?a, em algum ponto além da porta, riu.

  Sem humor.

  Sem piedade.

  Ribeiro levantou a m?o.

  N?o por coragem.

  Por algum instinto antigo que queria entender quem ele era antes de tudo quebrar.

  Tocou a ma?aneta.

  O branco ao redor come?ou a rachar, como porcelana quebrando devagar.

  A Porta…

  lentamente…

  virou o rosto para ele.

  E abriu os olhos.

  FIM DO CAPíTULO

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