O branco respirava.
N?o era luz.
N?o era espa?o.
Era uma consciência, silenciosa, irritada, impaciente.
Ribeiro estava de pé no centro, ainda meio curvado da queda anterior.
O corpo parecia feito de ossos soltos e fuma?a espremida dentro de um contêiner pequeno demais.
Atrás dele, o Inseto deslizou pela parede branca como se a gravidade estivesse bêbada.
A porta que tinha olhos continuava aberto, mas n?o revelava nada além da escurid?o líquida.
Um som fraco vinha lá de dentro.
Um treino…
imperfeito.
Desorganizado.
Humano demais pra ser seguro.
O Inseto estalou o pesco?o.
A cabe?a virou de lado, analisando.
— "Aqui é onde tudo come?ou"
disse ele, com a voz que parecia uma agulha tentando costurar palavras.
Ribeiro tentou falar, mas seu peito ardia como se estivesse cheio de poeira quente.
— Isso é… minha mente?
O Inseto riu, um estalo seco que o branco absorveu, ofendido.
— "N?o."
— "Isso é o que sobrou dela."
O ch?o afundou um pouco sob os pés dos dois, como se o c?modo tivesse sido feito de inspira??o.
Do fundo da escurid?o aberto pela porta, algo se mexeu.
Algo pequeno.
Algo que estava despertando...
O PONTO NEGRO
Um pontinho preto saiu da escurid?o.
Tremia.
Dan?ava.
Pulsava como carv?o vivo tentando aprender a existir.
Ele ideal para Ribeiro
n?o com olhos, mas com inten??o direta.
E:
"Eu… nasci?"
O pensamento soou na cabe?a de Ribeiro como uma pergunta feita dentro de um sino.
O Inseto observava em silêncio, como quem vê um vídeo velho de si mesmo.
O pontinho tentou erguer um bra?o.
N?o tinha bra?os.
Ent?o criou um.
Preto.
Fino.
Comprido demais.
Deformado.
Ribeiro completou um passo.
— Isso… é você?
perguntou ao Inseto.
A criatura apenas arrastou uma das pernas longas pelo teto, deixando um risco fino como uma arranhando porcelana.
— "N?o ainda."
O ponto olhou em volta, confuso.
"Onde estou?"
"Por que estou aqui?"
"Quem me chamou?"
O branco n?o respondeu.
Mas algo respondeu.
Uma memória.
UMA MULHER
A parede se abriu como carne sendo cortada, silenciosamente, e mostrou uma imagem flutuando no ar:
Uma mulher cansada.
Pálida.
Tremendo enquanto seguro um bebê que chora fraco.
O ponto negro ficou imóvel.
Depois, derreteu para frente, como tinta sendo atraída.
"Aquilo é… lindo."
"Aquele choro…"
"Eu quero... eu quero ficar ali."
Ribeiro estremeceu.
— Minha m?e…
O Inseto inclinou a cabe?a.
— "Sua primeira luz... Eu acho..."
O ponto come?ou a alongar-se, ganhando emo??es erradas, tor??es estranhas, uma silhueta protótipo do que o Inseto se tornaria.
"Quero ir até ela."
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"Por favor… deixa eu ir."
"Mas a memória come?ou a dissolver."
"E algo desceu pelo teto inexistente."
O PRIMEIRO IMPACTO
Uma energia azul, quente, rachada, chorando através da luz.
A alma da m?e de Ribeiro.
Arrancada por uma for?a divina que n?o sabia ter pena.
Ela descia chorando.
Sem boca.
Sem rosto.
Sem forma.
Só lamento.
Quando tocou o ponto negro, ele se expandiu como ferro ao fogo.
Trevas estalaram.
Novos membros cresceram.
Garras se formaram intuitivamente.
"Isso… isso é bom."
"Eu quero mais."
"Eu preciso de mais."
Ribeiro caiu de joelhos, sentindo a energia atravessá-lo como se fosse sua também.
— Pare… pare… por favor…
Mas a memória n?o é.
Enquanto o Inseto se aproxima, Ribeiro abre seus olhos com for?a, como uma crian?a que tenta apagar um pesadelo fechando o mundo.
Isso n?o adiantou.
As pontas dos membros do Inseto, finas, agora mais longas, afiadas como bisturis que aprenderam a ter inten??o, tocaram suas ordens.
Com cuidado cruel, ele é t?o íntimo.
Abrindo os olhos de Ribeiro à for?a.
— "N?o finja que n?o vê~"
estalou o Inseto, a voz rindo entre cada clique.
— "é sobre você~."
O PAI
O branco virou água turva, pesada, silenciosa.
O corpo de seu pai flutuava logo abaixo da superfície.
submerso, imóvel, distorcido pela ondula??o lenta.
O sangue se espalhou por dentro,
diluindo-se como uma oferta que ninguém queria aceitar.
O ponto absorveu a imagem.
Absorveu a energia.
Absorvi a dor que n?o compreendia.
Cresceu de novo.
Perdeu forma.
Depois encontrada outra.
Maior.
Pior.
Ribeiro falou sem som, abrindo os olhos como se isso pudesse apagar a água.
O Inseto o largou.
E já estava de cabe?a para baixo, suspenso no teto, falando como quem descobre um segredo antigo.
— "N?o adianta cobrir os olhos~."
— "Você sempre ri~."
— "Só n?o admitia~."
DEUSA
O ó interior estalou.
A deusa apareceu, ou tentou.
Um borr?o de luz pregui?osa, irritada, uma forma que nunca se completava.
Cada tentativa de se materializar fazia o branco gritar,
um som metálico, dobrado, como se a realidade estivesse se contorcendo de dor.
— "Você n?o deveria existir."
disse ela ao ponto crescido, sem emo??o, sem pressa.
— "Seu dono é fraco."
— "Eu posso te dar um lugar melhor."
O quase-Inseto riu, um som fino demais, cruel demais para caber naquele corpo que ainda n?o sabia o que era.
E.
Luz e sombra se estra?alharam.
Cada impacto cúspide fragmentos de realidade.
Vozes.
Sangue.
Memórias.
Sensa??es.
E no meio da briga…
Algo sucu para o ch?o.
Um fio cinza.
Branco-cinza...
Pulsante.
Fuma?a...
A primeira fuma?a.
Ela entrou pela boca da crian?a-Ribeiro na memória.
Invadiu o.
Ope.
Uma alma.
Outra parte foi arrancada por Deusa.
Outra engolida pela sombra.
E o resto…
contínuo crescendo em segredo dentro do menino.
Ribeiro cambaleou para trás no presente, segurando o peito como quem tenta deter um ataque cardíaco metafísico.
— Isso… é minha origem? N?o… n?o foi assim! Ela nunca falaria isso…
O Inseto estalou, suas posi??es abrindo horizontalmente, num gesto que n?o deveria existir.
— "N?o."
— "Isso é a minha."
— "A sua come?ou quando você decidiu sobreviver~."
O PRESENTE
O c?modo branco come?ou a rachar.
As memórias escorreram pelas fendas como tinta suja.
O ponto negro completou-se finalmente, e sua forma se solidificou:
O Inseto.
Longo.
Tartaruga.
Impossível.
Ele caminhou pelo teto, descendo até ficar cara a cara com Ribeiro.
Pela primeira vez, a voz saiu inteira.
líquida, clara, horrível.
Quase como uma sugest?o amea?adora.
— "EU nasci olhando você."
— "EU cresci dentro das coisas que você n?o suportava olhar."
— "E agora…"
Ele segurou o rosto de Ribeiro com uma m?o fina demais.
— "Agora... Você está olhando para MIM."
Um estalo profundo atravessou o c?modo.
A porta, com olhos, voltou a se mover atrás deles.
O Inseto virou a cabe?a devagar, dando uma baforada antes de falar.
— "Está pronto para sair?"
— "Ou quer saber o que ainda falta?"
A porta abriu a boca.
E respirau.

