home

search

31. O Cômodo Branco

  O branco respirava.

  N?o era luz.

  N?o era espa?o.

  Era uma consciência, silenciosa, irritada, impaciente.

  Ribeiro estava de pé no centro, ainda meio curvado da queda anterior.

  O corpo parecia feito de ossos soltos e fuma?a espremida dentro de um contêiner pequeno demais.

  Atrás dele, o Inseto deslizou pela parede branca como se a gravidade estivesse bêbada.

  A porta que tinha olhos continuava aberto, mas n?o revelava nada além da escurid?o líquida.

  Um som fraco vinha lá de dentro.

  Um treino…

  imperfeito.

  Desorganizado.

  Humano demais pra ser seguro.

  O Inseto estalou o pesco?o.

  A cabe?a virou de lado, analisando.

  — "Aqui é onde tudo come?ou"

  disse ele, com a voz que parecia uma agulha tentando costurar palavras.

  Ribeiro tentou falar, mas seu peito ardia como se estivesse cheio de poeira quente.

  — Isso é… minha mente?

  O Inseto riu, um estalo seco que o branco absorveu, ofendido.

  — "N?o."

  — "Isso é o que sobrou dela."

  O ch?o afundou um pouco sob os pés dos dois, como se o c?modo tivesse sido feito de inspira??o.

  Do fundo da escurid?o aberto pela porta, algo se mexeu.

  Algo pequeno.

  Algo que estava despertando...

  O PONTO NEGRO

  Um pontinho preto saiu da escurid?o.

  Tremia.

  Dan?ava.

  Pulsava como carv?o vivo tentando aprender a existir.

  Ele ideal para Ribeiro

  n?o com olhos, mas com inten??o direta.

  E:

  "Eu… nasci?"

  O pensamento soou na cabe?a de Ribeiro como uma pergunta feita dentro de um sino.

  O Inseto observava em silêncio, como quem vê um vídeo velho de si mesmo.

  O pontinho tentou erguer um bra?o.

  N?o tinha bra?os.

  Ent?o criou um.

  Preto.

  Fino.

  Comprido demais.

  Deformado.

  Ribeiro completou um passo.

  — Isso… é você?

  perguntou ao Inseto.

  A criatura apenas arrastou uma das pernas longas pelo teto, deixando um risco fino como uma arranhando porcelana.

  — "N?o ainda."

  O ponto olhou em volta, confuso.

  "Onde estou?"

  "Por que estou aqui?"

  "Quem me chamou?"

  O branco n?o respondeu.

  Mas algo respondeu.

  Uma memória.

  UMA MULHER

  A parede se abriu como carne sendo cortada, silenciosamente, e mostrou uma imagem flutuando no ar:

  Uma mulher cansada.

  Pálida.

  Tremendo enquanto seguro um bebê que chora fraco.

  O ponto negro ficou imóvel.

  Depois, derreteu para frente, como tinta sendo atraída.

  "Aquilo é… lindo."

  "Aquele choro…"

  "Eu quero... eu quero ficar ali."

  Ribeiro estremeceu.

  — Minha m?e…

  O Inseto inclinou a cabe?a.

  — "Sua primeira luz... Eu acho..."

  O ponto come?ou a alongar-se, ganhando emo??es erradas, tor??es estranhas, uma silhueta protótipo do que o Inseto se tornaria.

  "Quero ir até ela."

  Unauthorized tale usage: if you spot this story on Amazon, report the violation.

  "Por favor… deixa eu ir."

  "Mas a memória come?ou a dissolver."

  "E algo desceu pelo teto inexistente."

  O PRIMEIRO IMPACTO

  Uma energia azul, quente, rachada, chorando através da luz.

  A alma da m?e de Ribeiro.

  Arrancada por uma for?a divina que n?o sabia ter pena.

  Ela descia chorando.

  Sem boca.

  Sem rosto.

  Sem forma.

  Só lamento.

  Quando tocou o ponto negro, ele se expandiu como ferro ao fogo.

  Trevas estalaram.

  Novos membros cresceram.

  Garras se formaram intuitivamente.

  "Isso… isso é bom."

  "Eu quero mais."

  "Eu preciso de mais."

  Ribeiro caiu de joelhos, sentindo a energia atravessá-lo como se fosse sua também.

  — Pare… pare… por favor…

  Mas a memória n?o é.

  Enquanto o Inseto se aproxima, Ribeiro abre seus olhos com for?a, como uma crian?a que tenta apagar um pesadelo fechando o mundo.

  Isso n?o adiantou.

  As pontas dos membros do Inseto, finas, agora mais longas, afiadas como bisturis que aprenderam a ter inten??o, tocaram suas ordens.

  Com cuidado cruel, ele é t?o íntimo.

  Abrindo os olhos de Ribeiro à for?a.

  — "N?o finja que n?o vê~"

  estalou o Inseto, a voz rindo entre cada clique.

  — "é sobre você~."

  O PAI

  O branco virou água turva, pesada, silenciosa.

  O corpo de seu pai flutuava logo abaixo da superfície.

  submerso, imóvel, distorcido pela ondula??o lenta.

  O sangue se espalhou por dentro,

  diluindo-se como uma oferta que ninguém queria aceitar.

  O ponto absorveu a imagem.

  Absorveu a energia.

  Absorvi a dor que n?o compreendia.

  Cresceu de novo.

  Perdeu forma.

  Depois encontrada outra.

  Maior.

  Pior.

  Ribeiro falou sem som, abrindo os olhos como se isso pudesse apagar a água.

  O Inseto o largou.

  E já estava de cabe?a para baixo, suspenso no teto, falando como quem descobre um segredo antigo.

  — "N?o adianta cobrir os olhos~."

  — "Você sempre ri~."

  — "Só n?o admitia~."

  DEUSA

  O ó interior estalou.

  A deusa apareceu, ou tentou.

  Um borr?o de luz pregui?osa, irritada, uma forma que nunca se completava.

  Cada tentativa de se materializar fazia o branco gritar,

  um som metálico, dobrado, como se a realidade estivesse se contorcendo de dor.

  — "Você n?o deveria existir."

  disse ela ao ponto crescido, sem emo??o, sem pressa.

  — "Seu dono é fraco."

  — "Eu posso te dar um lugar melhor."

  O quase-Inseto riu, um som fino demais, cruel demais para caber naquele corpo que ainda n?o sabia o que era.

  E.

  Luz e sombra se estra?alharam.

  Cada impacto cúspide fragmentos de realidade.

  Vozes.

  Sangue.

  Memórias.

  Sensa??es.

  E no meio da briga…

  Algo sucu para o ch?o.

  Um fio cinza.

  Branco-cinza...

  Pulsante.

  Fuma?a...

  A primeira fuma?a.

  Ela entrou pela boca da crian?a-Ribeiro na memória.

  Invadiu o.

  Ope.

  Uma alma.

  Outra parte foi arrancada por Deusa.

  Outra engolida pela sombra.

  E o resto…

  contínuo crescendo em segredo dentro do menino.

  Ribeiro cambaleou para trás no presente, segurando o peito como quem tenta deter um ataque cardíaco metafísico.

  — Isso… é minha origem? N?o… n?o foi assim! Ela nunca falaria isso…

  O Inseto estalou, suas posi??es abrindo horizontalmente, num gesto que n?o deveria existir.

  — "N?o."

  — "Isso é a minha."

  — "A sua come?ou quando você decidiu sobreviver~."

  O PRESENTE

  O c?modo branco come?ou a rachar.

  As memórias escorreram pelas fendas como tinta suja.

  O ponto negro completou-se finalmente, e sua forma se solidificou:

  O Inseto.

  Longo.

  Tartaruga.

  Impossível.

  Ele caminhou pelo teto, descendo até ficar cara a cara com Ribeiro.

  Pela primeira vez, a voz saiu inteira.

  líquida, clara, horrível.

  Quase como uma sugest?o amea?adora.

  — "EU nasci olhando você."

  — "EU cresci dentro das coisas que você n?o suportava olhar."

  — "E agora…"

  Ele segurou o rosto de Ribeiro com uma m?o fina demais.

  — "Agora... Você está olhando para MIM."

  Um estalo profundo atravessou o c?modo.

  A porta, com olhos, voltou a se mover atrás deles.

  O Inseto virou a cabe?a devagar, dando uma baforada antes de falar.

  — "Está pronto para sair?"

  — "Ou quer saber o que ainda falta?"

  A porta abriu a boca.

  E respirau.

Recommended Popular Novels