A porta range.
N?o como madeira.
N?o como metal.
Mas como algo vivo que ficou tempo demais esperando ser tocado.
Ribeiro segura a lateral do batente, seus dedos n?o fazem for?a, eles só… est?o lá, tremendo devagar. Ele n?o quer entrar, e mesmo assim o corredor se inclina como um animal empurrando sua presa para frente.
A cor dali n?o é branca.
N?o é preta.
é um cinza gasto, de coisa que já foi lavada demais.
O ar tem cheiro de nada.
Nada absoluto.
Nada que incomoda mais do que qualquer cheiro forte.
O Inseto passa primeiro, caminhando como quem nasceu para aquele corredor.
As patas arrastam no teto o barulho de um lápis riscando folha velha, seco, áspero, irritante.
— "Você lembra daqui?"
ele pergunta sem virar a cabe?a.
Ribeiro tenta responder.
A garganta só abre ar.
Nenhuma palavra se forma.
O corredor sorri por ele.
"Sim"
sorriu.
As paredes encolhem alguns centímetros para dentro, fazendo um som que n?o deveria existir: o som de alguém rindo com a boca costurada.
O Inseto se diverte com isso.
Ele dobra o pesco?o para trás até o queixo encostar na coluna, observando Ribeiro com os olhos que n?o brilham nunca.
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— "Ele sempre riu aqui, n?o é?"
— "Você era crian?a."
A palavra “crian?a” dói no ch?o.
Parece que o piso quis solu?ar.
Ribeiro dá um passo.
Outro.
Sente a porta atrás dele se fechar sozinha, n?o com violência, mas com paciência.
Como se dissesse: você n?o vai precisar voltar agora.
O corredor termina sem se alargar.
Ele simplesmente… vira um quarto, como se tivesse sido sempre um quarto e Ribeiro é que n?o tinha percebido.
A cama está ali.
O len?ol azul claro.
A fresta na cortina por onde entrava luz demais.
A mesma sombra no canto, onde nenhuma crian?a deveria olhar por mais de quatro segundos.
Ribeiro reconhece tudo.
Mesmo que nada esteja exatamente igual.
— "é aqui que o “ele” mora"
diz o Inseto, tocando o teto com o rosto como se farejasse lembran?as.
— "A parte sua que aprendeu a rir quando doía mais."
Ribeiro sente algo arranhar o peito por dentro.
N?o é a fuma?a.
N?o é o osso.
é memória tentando nascer com dentes.
A cama afunda.
Sozinha.
Como se alguém tivesse sentado ali, alguém pequeno, magro, com medo demais para falar, com riso demais para pedir ajuda.
A cortina balan?a, embora n?o haja vento.
O Inseto inclina a cabe?a para o canto escuro.
Seu corpo inteiro se alonga, ficando mais fino, mais impossível.
— "Ele está esperando "
sussurra, divertido.
— "N?o por mim."
— "Por você."
Ribeiro n?o consegue respirar por um segundo.
O canto escuro se mexe.
Como uma boca abrindo.
E uma risada, aquela risada fina, aquela risada que ele aprendeu a usar como armadura, preenche o quarto, lenta, quase doce.
Mas infantil.
Porém quebrada.
— "Você demorou… Ribeiro…"
O Inseto dá um passo para trás, abrindo espa?o.
— "Vai lá."
— "Encontre o que sobrou de você."
— "Antes que outra coisa encontre primeiro."
Ribeiro se aproxima do canto.
A risada fica mais baixa.
Mais triste.
Mais dele.
Quando a sombra finalmente se revela, n?o é uma figura.
é um contorno.
Como uma porta entreaberta, mas em forma de gente.
Uma porta feita de riso e cansa?o.
Uma porta que esperou anos.
— "Você… "
a voz infantil falha
— "…voltou?"
Ribeiro n?o sabe se deve responder.
A sombra da porta abre só um pouco mais.
Lá dentro, dá para ver apenas olhos cansados.
Dois.
Ou mais.
Ou nenhum.
Mas eles o reconhecem.
O quarto inteiro prende o f?lego.
E ent?o, finalmente, a porta-figura, a Crian?a-Riso, o "Ele", diz:
— "Eu só queria saber se agora… dói menos."

