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32. O quarto onde "ele" ri

  A porta range.

  N?o como madeira.

  N?o como metal.

  Mas como algo vivo que ficou tempo demais esperando ser tocado.

  Ribeiro segura a lateral do batente, seus dedos n?o fazem for?a, eles só… est?o lá, tremendo devagar. Ele n?o quer entrar, e mesmo assim o corredor se inclina como um animal empurrando sua presa para frente.

  A cor dali n?o é branca.

  N?o é preta.

  é um cinza gasto, de coisa que já foi lavada demais.

  O ar tem cheiro de nada.

  Nada absoluto.

  Nada que incomoda mais do que qualquer cheiro forte.

  O Inseto passa primeiro, caminhando como quem nasceu para aquele corredor.

  As patas arrastam no teto o barulho de um lápis riscando folha velha, seco, áspero, irritante.

  — "Você lembra daqui?"

  ele pergunta sem virar a cabe?a.

  Ribeiro tenta responder.

  A garganta só abre ar.

  Nenhuma palavra se forma.

  O corredor sorri por ele.

  "Sim"

  sorriu.

  As paredes encolhem alguns centímetros para dentro, fazendo um som que n?o deveria existir: o som de alguém rindo com a boca costurada.

  O Inseto se diverte com isso.

  Ele dobra o pesco?o para trás até o queixo encostar na coluna, observando Ribeiro com os olhos que n?o brilham nunca.

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  — "Ele sempre riu aqui, n?o é?"

  — "Você era crian?a."

  A palavra “crian?a” dói no ch?o.

  Parece que o piso quis solu?ar.

  Ribeiro dá um passo.

  Outro.

  Sente a porta atrás dele se fechar sozinha, n?o com violência, mas com paciência.

  Como se dissesse: você n?o vai precisar voltar agora.

  O corredor termina sem se alargar.

  Ele simplesmente… vira um quarto, como se tivesse sido sempre um quarto e Ribeiro é que n?o tinha percebido.

  A cama está ali.

  O len?ol azul claro.

  A fresta na cortina por onde entrava luz demais.

  A mesma sombra no canto, onde nenhuma crian?a deveria olhar por mais de quatro segundos.

  Ribeiro reconhece tudo.

  Mesmo que nada esteja exatamente igual.

  — "é aqui que o “ele” mora"

  diz o Inseto, tocando o teto com o rosto como se farejasse lembran?as.

  — "A parte sua que aprendeu a rir quando doía mais."

  Ribeiro sente algo arranhar o peito por dentro.

  N?o é a fuma?a.

  N?o é o osso.

  é memória tentando nascer com dentes.

  A cama afunda.

  Sozinha.

  Como se alguém tivesse sentado ali, alguém pequeno, magro, com medo demais para falar, com riso demais para pedir ajuda.

  A cortina balan?a, embora n?o haja vento.

  O Inseto inclina a cabe?a para o canto escuro.

  Seu corpo inteiro se alonga, ficando mais fino, mais impossível.

  — "Ele está esperando "

  sussurra, divertido.

  — "N?o por mim."

  — "Por você."

  Ribeiro n?o consegue respirar por um segundo.

  O canto escuro se mexe.

  Como uma boca abrindo.

  E uma risada, aquela risada fina, aquela risada que ele aprendeu a usar como armadura, preenche o quarto, lenta, quase doce.

  Mas infantil.

  Porém quebrada.

  — "Você demorou… Ribeiro…"

  O Inseto dá um passo para trás, abrindo espa?o.

  — "Vai lá."

  — "Encontre o que sobrou de você."

  — "Antes que outra coisa encontre primeiro."

  Ribeiro se aproxima do canto.

  A risada fica mais baixa.

  Mais triste.

  Mais dele.

  Quando a sombra finalmente se revela, n?o é uma figura.

  é um contorno.

  Como uma porta entreaberta, mas em forma de gente.

  Uma porta feita de riso e cansa?o.

  Uma porta que esperou anos.

  — "Você… "

  a voz infantil falha

  — "…voltou?"

  Ribeiro n?o sabe se deve responder.

  A sombra da porta abre só um pouco mais.

  Lá dentro, dá para ver apenas olhos cansados.

  Dois.

  Ou mais.

  Ou nenhum.

  Mas eles o reconhecem.

  O quarto inteiro prende o f?lego.

  E ent?o, finalmente, a porta-figura, a Crian?a-Riso, o "Ele", diz:

  — "Eu só queria saber se agora… dói menos."

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