O quarto cala.
Nem silêncio, cala.
Como se o próprio ar estivesse prendendo a respira??o para n?o se intrometer na cena.
Ribeiro encara a sombra-porta.
Ela continua ali: entreaberta, fina demais, torta demais, mas humana no jeito como treme.
O Inseto observa do teto, deitado como quem está folheando um livro interessante.
Os olhos n?o piscam.
— "Ent?o?"
ele diz, casual, como se estivesse comentando o clima.
— "Responda."
— "é falta de educa??o deixar uma porta falando sozinha."
Ribeiro tenta formar palavras.
A garganta dele ainda parece feita de areia molhada e fuma?a.
Mas a porta fala antes.
— "N?o precisa… "
A voz infantil se encolhe.
— "Você nunca responde mesmo."
Ribeiro dá um passo.
O ch?o do quarto range, n?o porque é velho, mas porque está irritado por ter sido pisado de novo depois de tanto tempo.
A sombra-porta se retrai um pouco, abrindo-se mais, um dedo de espa?o, nada além, e dentro… algo brilha.
N?o luz.
N?o olho.
Algo entre os dois: uma emo??o comprimida demais.
— "Eu segurava tudo."
a porta diz, num sussurro quase seco.
— "Eu segurava pra você n?o quebrar."
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— "Lembra?"
Ribeiro sente o peito pesar.
Ele n?o lembra.
Ou lembra demais e prefere fingir que n?o.
O Inseto ri baixo, arrastando a risada pelo teto.
— "Ele segurava, sim."
comenta, divertido.
— "Mas você nunca perguntou o pre?o."
A porta treme.
Treme tanto que a moldura range como se estivesse prestes a soltar farpas.
— "Eu segurava sua raiva… seu medo… as palavras que você nunca disse à noite…"
— "O riso que você inventou pra n?o gritar…"
A voz quebra.
é um som horrível, porque n?o devia quebrar:
crian?as n?o deveriam saber quebrar assim... Deviam?
— "E ninguém me fechou direito."
a porta continua, quase chorando.
— "Eu fiquei… aberta demais."
— "E você cresceu torto."
A cortina balan?a.
A cama afunda mais um pouco.
Ribeiro sente a garganta finalmente reagir, mas n?o com uma resposta, com a sensa??o intensa de que algo dentro dele quer sair, quer falar, quer chorar, quer rasgar, mas n?o sabe qual escolher.
O Inseto se move.
Devagar, lento demais, descendo do teto como um bicho que perdeu a paciência.
Ele caminha até a porta e a toca com uma garra.
O efeito é imediato.
A sombra-porta contrai o próprio corpo, como se tivesse levado um choque emocional.
— "Você é fraca."
diz o Inseto, com calma, quase com carinho.
— "Mas útil."
A porta solta um solu?o mudo.
Ribeiro avan?a um passo instintivo.
O Inseto percebe e ri.
— "Ah… ele ainda te protege?"
— "Que interessante."
Ele vira a cabe?a, literalmente vira, como se estivesse desparafusando o cranio.
— "Toque nela, Ribeiro"
diz.
— "Se quer respostas… toque."
A porta abre mais um centímetro.
O suficiente para revelar um olho, pequeno, apagado, exausto.
O olho que Ribeiro tinha quando era muito, muito mais novo.
— "Eu segurava tudo"
o olho sussurra.
— "Mas agora…"
A sombra-porta treme toda.
A madeira inexistente parece prestes a se rachar.
— "…agora eu acho que n?o consigo segurar mais."
O quarto vibra com essa frase.
Uma vibra??o profunda, angustiada, que vem das paredes, do ch?o, da memória inteira.
Ribeiro sente algo rasgar por dentro, n?o carne, n?o osso, mas um la?o muito antigo, que estava preso ali desde antes dele saber o que era medo.
A sombra-porta come?a a abrir sem controle.
N?o como uma porta física.
Como uma ferida.
Como um passado que n?o sabe como parar de vazar.
O Inseto recua um passo, interessado.
— "Aí está."
— "O que sobrou de você."
— "O que você empurrou pra trás da fresta… e esqueceu de fechar."
Ribeiro encara a porta abrindo.
O olho.
A voz.
A crian?a.
O riso-for?ado.
O medo guardado demais.
E ent?o.
A primeira lágrima cai.
N?o de Ribeiro.
Da porta.
E o som que ela faz é um estalo t?o profundo que o quarto inteiro apaga por um segundo.

