O escuro volta.
Mas n?o como antes.
Agora é um escuro consciente.
Ele nota Ribeiro.
Ele espera Ribeiro.
E ele puxa.
N?o por for?a, por memória.
Ribeiro sente o ch?o sumir, mas n?o cai.
Ele simplesmente… deixa de ter ch?o.
O quarto se desfaz em camadas: a cama vira poeira, a cortina vira um fio de voz, o teto vira um tremor no fundo dos dentes. O Inseto, por um instante, é só um borr?o observando a geometria do espa?o desmoronar.
A porta n?o cai.
Ela cresce.
N?o madeira.
N?o sombra.
Algo entre trauma solidificado e arquitetura emocional.
Ela se abre inteira, n?o uma fresta, n?o um centímetro. Inteira.
E do outro lado…
N?o há “outro lado”.
Há profundo.
Há fundo.
Há o lugar no cérebro onde você n?o deveria entrar acordado.
Ribeiro sente a sensa??o de quando se percebe num sonho:
“Ah… Eu... n?o devia estar vendo isso...”
Mas... está.
A porta respira.
This book was originally published on Royal Road. Check it out there for the real experience.
Respira fundo.
Respira como alguém que segurou lágrimas por anos e agora n?o sabe mais parar.
Do fundo dela, uma voz surge.
N?o crian?a.
N?o adulta.
Uma voz perfeita demais pra pertencer a um humano.
— “Você voltou... torto.”
Ribeiro tenta responder.
Mas a verdade bate primeiro:
Ele conhece essa voz.
Ele n?o deveria.
Mas conhece.
— “Eu te fechei errado,”
ela continua.
— “N?o tive tempo… n?o tive instru??o… n?o tive ninguém pra me ensinar o que faz uma porta quando o que passam por ela n?o é gente, mas… dor.”
A forma na escurid?o muda.
Agora é uma sala.
Mas n?o uma sala normal.
é o quarto onde Ribeiro cresceu.
Só que sem o Ribeiro dentro.
Como se a memória lembrasse do lugar, mas n?o dele.
Uma cama pequena.
Um armário torto.
Um tapete que nunca foi limpo.
E, no meio de tudo isso…
A crian?a.
Pequena.
Sentada.
Abra?ando os próprios joelhos.
Com o mesmo rosto que o olho da porta mostrava:
Sem brilho.
Sem for?a.
Sem defesa.
Como um defeito de fábrica emocional.
O Inseto aparece atrás de Ribeiro com a naturalidade de quem caiu ali porque quis.
— “Olha que bonito,”
ele comenta, gentil demais pra ser sincero.
— “é você, antes mesmo de você inventar o medo.”
A crian?a ergue o rosto.
N?o chora.
N?o treme.
Ela só pergunta:
— “é agora que você me tira daqui?”
A pergunta n?o devia ser pesada.
Mas é.
Ela pesa mais que a sala inteira.
Pesa tanto que as paredes cedem e viram fuma?a.
Ribeiro sente o corpo reagir como quem está despertando dentro do próprio sonho:
os dedos ficam mais densos, a respira??o se materializa, o cora??o tenta decidir se bate mais rápido ou para de vez.
A porta, atrás dele, fecha um pouco, n?o por vontade, mas porque está com medo do que está prestes a acontecer.
A crian?a levanta.
Ela tem o mesmo olhar que ele tem hoje quando está prestes a destruir algo que o machucou demais.
Só que nela… é puro.
Cru.
Inalterado.
— “Se você me tocar,”
ela diz, sem emo??o,
— “Eu acordo.”
O Inseto sorri.
— “E aí, Ribeiro? Vai acordar seu próprio come?o?”
O sonho vibra.
O ar dobra.
As memórias respiram.
E Ribeiro, pela primeira vez desde que entrou no quarto, n?o sabe se dar um passo vai salvá-lo…
… ou abrir de vez o que o destruiu antes mesmo dele nascer inteiro.

