Ribeiro acordou com a sensa??o de que o mundo havia espirrado dentro dele.
N?o havia calor, o calor ficara do lado de fora, apenas uma press?o constante, como se suas memórias tivessem gargantas e tentassem sair.
Abriu os olhos para uma camara de pedra que n?o devia existir: arcos t?o amplos que engoliam a vista, pilares negros retorcidos como artérias fossilizadas, e um teto t?o alto que parecia dissolver-se numa névoa sólida.
A pedra ali n?o era pedra, era tempo petrificado, eras comprimidas até virarem relato.
O ch?o sob suas m?os era uma única laje translúcida, marcada por rachaduras que n?o vinham do desgaste, mas de queimaduras, "letras"(?) incineradas.
As inscri??es n?o formavam frases completas: apenas fragmentos que doíam de ler, nomes, datas, estalos de catástrofes.
O ar tinha gosto de cinza antiga e de metal.
No ombro, o "Inseto" estalou. N?o em alerta, mas curioso, como se soubesse que, ali, as regras eram outras.
Ent?o a voz surgiu.
Sólida. Sem o tremor espectral de antes.
N?o veio da garganta de ninguém, mas da própria camara, das pedras, das letras, do ar.
A forma foi se costurando no espa?o: um rosto de idades e sexos alternados, um corpo que oscilava entre brasa e carne, um casaco branco que respirava como pele viva.
Havia uma coerência nova naquele ser, ordenada, arrogante, divina.
— "Você está dentro de mim."
disse ele.
As inscri??es do ch?o vibraram com a frase.
Ribeiro tentou se erguer, mas o corpo obedecia tarde, como se a fadiga fosse sua nova lei.
— Como… onde eu t??
murmurou.
O ser sorriu, um sorriso que queimava sem ferir.
— "Bem-vindo ao meu selo. Ao meu domínio. Ao meu espelho."
Ele apontou, e o espa?o respondeu: uma fenda abriu-se no ar como se rasgassem um véu antigo.
De dentro, brotou uma cena viva, uma cidade reduzida a um ponto de luz, repetindo em ciclo, um incêndio.
Casas, ruas, uma torre tombando e virando pó fértil.
O ponto pulsava, crescia, encolhia, como um mundo sendo espremido entre dedos.
— Isso cabe… nisso?
sussurrou Ribeiro, at?nito.
— "Cabe."
disse o ser, caminhando. A camara se curvava à sua passagem.
—"é uma área infinita contida num gr?o. Densidade da minha energia, selada para manter forma."
Aquilo era um espelho que n?o reflete imagens, mas instancias.
— "Uma vastid?o comprimida numa minúcia que guarda tudo que fui e serei."
O nó no est?mago de Ribeiro apertou.
— Você… disse que matou o semideus.
A lembran?a voltou como faísca: o riso febril, os trapos ardendo.
— Foi você quem…?
O ser ergueu o queixo.
— "Eu o matei."
O semideus era um nó de calor e medo, humano o bastante para se prender a coisas pequenas: cidades, alian?as, dívidas.
— "Quando o destruíste, quando o arranquei do mundo, sua essência ficou à deriva."
— "O fogo buscou um novo corpo."
— "E eu, puro, sem a sujeira da carne, tomei o passo seguinte."
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— "A essência energética precisa de um centro. Eu fui esse centro."
— "Matando o semideus, tomei o domínio. Tornei-me algo mais..."
— Ent?o você é… deus?
perguntou Ribeiro, sem saber se era medo ou ironia.
— "Deus, se quiseres chamar assim."
respondeu ele, com a autoridade de uma lei.
— "Quando um ser abate um deus, n?o há tragédia automática: há transferência."
— "O domínio pode aceitar, rejeitar ou ser moldado."
— "O semideus era febril, pyro, mortal, chamas com gosto de calor."
— "Eu era o oposto: uma vontade que n?o se corrompe."
— "O manto me aceitou. Mas... Os títulos n?o s?o cadeiras vazias."
— "O que te liga ao fogo define o que podes comandar."
— "Herdas chamas, sentimentos que queimam, lembran?as que ardem."
— "Tudo tem limites. Tudo cobra pre?o."
Ribeiro engoliu. Pensamentos demais, notícias demais.
A palavra “m?e”, que o ser proferira antes, voltou como um eco estranho.
— Você me chamou de m?e…
disse, baixo.
A criatura sorriu com algo parecido a ternura.
— "Porque nasci do teu calor. A era que te forjou me criou também."
— "O ventre que te deu forma também me moldou."
— "Você, Ribeiro, foi uma fagulha que compartilhou matéria comigo a muito tempo atrás."
— "és minha origem, e talvez, minha ruína."
O Inseto no ombro estalou, tenso.
O espelho abriu-se outra vez, agora mostrando memórias.
Imagens que n?o pertenciam a Ribeiro, depois outras que pertenciam demais:
m?os com um anel pulsante, pele com escamas luminosas, fragmentos de uma vida que parecia ter se rasgado no tempo.
— Isso é minha memória?
perguntou ele, trêmulo.
— "Parcialmente."
disse o ser.
— "Selos pegam matéria viva emprestada."
— "Algumas imagens s?o minhas, outras, ecos de mundos que toquei."
— "Tua cicatriz estava entre elas."
— "Perdeste algo que me foi útil: uma escama que cantava."
— "Ela agora está aqui."
O ser ergueu a m?o; o ponto de luz ferveu e saltou até sua palma, abrindo um buraco de silêncio no ar.
Ribeiro sentiu algo puxar dentro do peito.
O anel, a prote??o, tudo parecia leve demais.
O Inseto chiou, tentando alcan?ar a luz, mas o ser foi mais rápido: absorveu o floco.
A camara gemeu.
— Por que pegou?
Ribeiro mal tinha voz.
— "Porque selos precisam de matéria."
— "Porque tua escama estabiliza espa?o."
— "Porque, se vou ser deus, n?o quero falhas."
— "E porque..."
disse, feroz
— "n?o sou grato por migalhas."
— "Coleto o que refor?a minha narrativa."
Ribeiro tentou se erguer, movido pela raiva.
O ser aproximou-se. As letras do ch?o acenderam como olhos.
— "N?o corra"
disse ele.
— "N?o vim devorar rostos. Fa?o acordos."
— "Tu és parte de mim. Tens valor :3."
— "Posso te devolver o que tirei. Posso te dar conhecimento."
— "Em troca… algo que já carregas."
Ribeiro engoliu seco.
— O quê?
— "Um nome. Um juramento."
sorriu o ser.
— "Dá-me isso, e te devolvo a prote??o que perdeste"
— "Te mostro o que é queimar, controlar, governar."
— "Ou recusa, e aprende pelo sofrimento. Escolha."
Ribeiro sentiu a oferta pousar em si como veneno doce.
O espelho mostrava tronos de fogo, cidades ajoelhadas, trai??es, facas, glória.
Pensou no mundo ardido, no que perdeu, no rosto que o chamara de m?e.
— N?o quero ser servo.
disse, firme.
— N?o quero ser usado.
O ser inclinou a cabe?a, curioso.
— "N?o pe?o servid?o. Pe?o reconhecimento."
— "Aceita o fio que nos liga, e talvez, por isso, eu te permita moldar teu calor."
— "és ruína e origem. Aprende o ofício ou morre por irrelevancia."
— "E-S-C-O-L-H-A simples :3"
O silêncio que veio era físico.
O selo tremeu, à espera.
Ribeiro fechou os olhos. Sentiu suas falhas, o vazio, a raiva, e algo mais: uma promessa antiga, um destino.
Levantou a m?o.
O ser fez o mesmo.
Quando os dedos se tocaram, a camara explodiu em vis?es, lugares desconhecidos mas familiares, poucas vozes que o chamavam por nomes esquecidos, chamas que apagavam lembran?as e devolviam novas.
O Inseto gritou; por um instante, tudo se alinhou.
Algo entrou e saiu, uma troca t?o pequena quanto um suspiro, t?o vasta quanto uma era.
O ser recuou, satisfeito.
— "Decidiste. Ainda n?o sei se foste tu... ou eu."
disse, sorrindo.
— "Mas a roda gira. O espelho observa. O selo guarda."
— "E eu, que nasci à tua imagem, espero as consequências como quem espera o chá."
Ribeiro abriu os olhos.
A camara parecia menor, mais íntima.
Lá fora, o planeta de vidro ardia.
Ali dentro, um deus recém-nascido recolhia suas cartas.
— Ent?o… o que eu ganhei?
perguntou Ribeiro.
— "Conhecimento."
disse o ser.
— "E risco. E portas. E inimigos que surgem quando se fala alto demais."
— "E a verdade: o fogo n?o queima por maldade, queima por necessidade de viver"
— "Aprenda a nomeá-lo, Ribeiro."
— "E nunca o chame de m?e… se n?o quer que ele pe?a heran?a."
As colunas suspiraram.
O selo fechou-se, reduzido a um ponto de luz batendo como cora??o.
A escama em seu corpo vibrou.
O Inseto ajeitou-se, atento.
Lá fora, uma voz gritou, talvez vento, talvez aviso.
O ser olhou para a fenda e, pela primeira vez, pareceu preocupado.
— "Vai."
disse, quase gentil.
— "Descobre o que te dei. Ou abandona."
— "Mas lembra: quando mexes com o espelho de um deus… ele reflete."
— "Nem sempre em quem tu és."
Ribeiro se ergueu, sentindo o peso da promessa assentar sob as costelas.
N?o era sangue, era responsabilidade.
N?o era calor, era destino.
Ao sair, as palavras ecoaram:
“Feito à minha imagem, como deus.”
Do lado de fora, o planeta de vidro rugia
lembrando que, em algum lugar, o fogo havia encontrado voz nova.
Ribeiro caminhou.
O Inseto estalou.
O mundo voltou a girar.
E dentro de um gr?o, um deus observava.

