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28. O Espelho de deus

  Ribeiro acordou com a sensa??o de que o mundo havia espirrado dentro dele.

  N?o havia calor, o calor ficara do lado de fora, apenas uma press?o constante, como se suas memórias tivessem gargantas e tentassem sair.

  Abriu os olhos para uma camara de pedra que n?o devia existir: arcos t?o amplos que engoliam a vista, pilares negros retorcidos como artérias fossilizadas, e um teto t?o alto que parecia dissolver-se numa névoa sólida.

  A pedra ali n?o era pedra, era tempo petrificado, eras comprimidas até virarem relato.

  O ch?o sob suas m?os era uma única laje translúcida, marcada por rachaduras que n?o vinham do desgaste, mas de queimaduras, "letras"(?) incineradas.

  As inscri??es n?o formavam frases completas: apenas fragmentos que doíam de ler, nomes, datas, estalos de catástrofes.

  O ar tinha gosto de cinza antiga e de metal.

  No ombro, o "Inseto" estalou. N?o em alerta, mas curioso, como se soubesse que, ali, as regras eram outras.

  Ent?o a voz surgiu.

  Sólida. Sem o tremor espectral de antes.

  N?o veio da garganta de ninguém, mas da própria camara, das pedras, das letras, do ar.

  A forma foi se costurando no espa?o: um rosto de idades e sexos alternados, um corpo que oscilava entre brasa e carne, um casaco branco que respirava como pele viva.

  Havia uma coerência nova naquele ser, ordenada, arrogante, divina.

  — "Você está dentro de mim."

  disse ele.

  As inscri??es do ch?o vibraram com a frase.

  Ribeiro tentou se erguer, mas o corpo obedecia tarde, como se a fadiga fosse sua nova lei.

  — Como… onde eu t??

  murmurou.

  O ser sorriu, um sorriso que queimava sem ferir.

  — "Bem-vindo ao meu selo. Ao meu domínio. Ao meu espelho."

  Ele apontou, e o espa?o respondeu: uma fenda abriu-se no ar como se rasgassem um véu antigo.

  De dentro, brotou uma cena viva, uma cidade reduzida a um ponto de luz, repetindo em ciclo, um incêndio.

  Casas, ruas, uma torre tombando e virando pó fértil.

  O ponto pulsava, crescia, encolhia, como um mundo sendo espremido entre dedos.

  — Isso cabe… nisso?

  sussurrou Ribeiro, at?nito.

  — "Cabe."

  disse o ser, caminhando. A camara se curvava à sua passagem.

  —"é uma área infinita contida num gr?o. Densidade da minha energia, selada para manter forma."

  Aquilo era um espelho que n?o reflete imagens, mas instancias.

  — "Uma vastid?o comprimida numa minúcia que guarda tudo que fui e serei."

  O nó no est?mago de Ribeiro apertou.

  — Você… disse que matou o semideus.

  A lembran?a voltou como faísca: o riso febril, os trapos ardendo.

  — Foi você quem…?

  O ser ergueu o queixo.

  — "Eu o matei."

  O semideus era um nó de calor e medo, humano o bastante para se prender a coisas pequenas: cidades, alian?as, dívidas.

  — "Quando o destruíste, quando o arranquei do mundo, sua essência ficou à deriva."

  — "O fogo buscou um novo corpo."

  — "E eu, puro, sem a sujeira da carne, tomei o passo seguinte."

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  — "A essência energética precisa de um centro. Eu fui esse centro."

  — "Matando o semideus, tomei o domínio. Tornei-me algo mais..."

  — Ent?o você é… deus?

  perguntou Ribeiro, sem saber se era medo ou ironia.

  — "Deus, se quiseres chamar assim."

  respondeu ele, com a autoridade de uma lei.

  — "Quando um ser abate um deus, n?o há tragédia automática: há transferência."

  — "O domínio pode aceitar, rejeitar ou ser moldado."

  — "O semideus era febril, pyro, mortal, chamas com gosto de calor."

  — "Eu era o oposto: uma vontade que n?o se corrompe."

  — "O manto me aceitou. Mas... Os títulos n?o s?o cadeiras vazias."

  — "O que te liga ao fogo define o que podes comandar."

  — "Herdas chamas, sentimentos que queimam, lembran?as que ardem."

  — "Tudo tem limites. Tudo cobra pre?o."

  Ribeiro engoliu. Pensamentos demais, notícias demais.

  A palavra “m?e”, que o ser proferira antes, voltou como um eco estranho.

  — Você me chamou de m?e…

  disse, baixo.

  A criatura sorriu com algo parecido a ternura.

  — "Porque nasci do teu calor. A era que te forjou me criou também."

  — "O ventre que te deu forma também me moldou."

  — "Você, Ribeiro, foi uma fagulha que compartilhou matéria comigo a muito tempo atrás."

  — "és minha origem, e talvez, minha ruína."

  O Inseto no ombro estalou, tenso.

  O espelho abriu-se outra vez, agora mostrando memórias.

  Imagens que n?o pertenciam a Ribeiro, depois outras que pertenciam demais:

  m?os com um anel pulsante, pele com escamas luminosas, fragmentos de uma vida que parecia ter se rasgado no tempo.

  — Isso é minha memória?

  perguntou ele, trêmulo.

  — "Parcialmente."

  disse o ser.

  — "Selos pegam matéria viva emprestada."

  — "Algumas imagens s?o minhas, outras, ecos de mundos que toquei."

  — "Tua cicatriz estava entre elas."

  — "Perdeste algo que me foi útil: uma escama que cantava."

  — "Ela agora está aqui."

  O ser ergueu a m?o; o ponto de luz ferveu e saltou até sua palma, abrindo um buraco de silêncio no ar.

  Ribeiro sentiu algo puxar dentro do peito.

  O anel, a prote??o, tudo parecia leve demais.

  O Inseto chiou, tentando alcan?ar a luz, mas o ser foi mais rápido: absorveu o floco.

  A camara gemeu.

  — Por que pegou?

  Ribeiro mal tinha voz.

  — "Porque selos precisam de matéria."

  — "Porque tua escama estabiliza espa?o."

  — "Porque, se vou ser deus, n?o quero falhas."

  — "E porque..."

  disse, feroz

  — "n?o sou grato por migalhas."

  — "Coleto o que refor?a minha narrativa."

  Ribeiro tentou se erguer, movido pela raiva.

  O ser aproximou-se. As letras do ch?o acenderam como olhos.

  — "N?o corra"

  disse ele.

  — "N?o vim devorar rostos. Fa?o acordos."

  — "Tu és parte de mim. Tens valor :3."

  — "Posso te devolver o que tirei. Posso te dar conhecimento."

  — "Em troca… algo que já carregas."

  Ribeiro engoliu seco.

  — O quê?

  — "Um nome. Um juramento."

  sorriu o ser.

  — "Dá-me isso, e te devolvo a prote??o que perdeste"

  — "Te mostro o que é queimar, controlar, governar."

  — "Ou recusa, e aprende pelo sofrimento. Escolha."

  Ribeiro sentiu a oferta pousar em si como veneno doce.

  O espelho mostrava tronos de fogo, cidades ajoelhadas, trai??es, facas, glória.

  Pensou no mundo ardido, no que perdeu, no rosto que o chamara de m?e.

  — N?o quero ser servo.

  disse, firme.

  — N?o quero ser usado.

  O ser inclinou a cabe?a, curioso.

  — "N?o pe?o servid?o. Pe?o reconhecimento."

  — "Aceita o fio que nos liga, e talvez, por isso, eu te permita moldar teu calor."

  — "és ruína e origem. Aprende o ofício ou morre por irrelevancia."

  — "E-S-C-O-L-H-A simples :3"

  O silêncio que veio era físico.

  O selo tremeu, à espera.

  Ribeiro fechou os olhos. Sentiu suas falhas, o vazio, a raiva, e algo mais: uma promessa antiga, um destino.

  Levantou a m?o.

  O ser fez o mesmo.

  Quando os dedos se tocaram, a camara explodiu em vis?es, lugares desconhecidos mas familiares, poucas vozes que o chamavam por nomes esquecidos, chamas que apagavam lembran?as e devolviam novas.

  O Inseto gritou; por um instante, tudo se alinhou.

  Algo entrou e saiu, uma troca t?o pequena quanto um suspiro, t?o vasta quanto uma era.

  O ser recuou, satisfeito.

  — "Decidiste. Ainda n?o sei se foste tu... ou eu."

  disse, sorrindo.

  — "Mas a roda gira. O espelho observa. O selo guarda."

  — "E eu, que nasci à tua imagem, espero as consequências como quem espera o chá."

  Ribeiro abriu os olhos.

  A camara parecia menor, mais íntima.

  Lá fora, o planeta de vidro ardia.

  Ali dentro, um deus recém-nascido recolhia suas cartas.

  — Ent?o… o que eu ganhei?

  perguntou Ribeiro.

  — "Conhecimento."

  disse o ser.

  — "E risco. E portas. E inimigos que surgem quando se fala alto demais."

  — "E a verdade: o fogo n?o queima por maldade, queima por necessidade de viver"

  — "Aprenda a nomeá-lo, Ribeiro."

  — "E nunca o chame de m?e… se n?o quer que ele pe?a heran?a."

  As colunas suspiraram.

  O selo fechou-se, reduzido a um ponto de luz batendo como cora??o.

  A escama em seu corpo vibrou.

  O Inseto ajeitou-se, atento.

  Lá fora, uma voz gritou, talvez vento, talvez aviso.

  O ser olhou para a fenda e, pela primeira vez, pareceu preocupado.

  — "Vai."

  disse, quase gentil.

  — "Descobre o que te dei. Ou abandona."

  — "Mas lembra: quando mexes com o espelho de um deus… ele reflete."

  — "Nem sempre em quem tu és."

  Ribeiro se ergueu, sentindo o peso da promessa assentar sob as costelas.

  N?o era sangue, era responsabilidade.

  N?o era calor, era destino.

  Ao sair, as palavras ecoaram:

  “Feito à minha imagem, como deus.”

  Do lado de fora, o planeta de vidro rugia

  lembrando que, em algum lugar, o fogo havia encontrado voz nova.

  Ribeiro caminhou.

  O Inseto estalou.

  O mundo voltou a girar.

  E dentro de um gr?o, um deus observava.

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