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24. Sob o ritmo da maré

  Saiu do Coliseu com a mesma leveza de sempre, aquele riso mole que vinha antes da dor, a névoa como cachecol. As correntes de Atlantica o cuspiram para ruas que cheiravam a peixe grelhado e promessa de encrenca barata. O Inseto no ombro n?o parava um segundo, cutucando com as patinhas, como se apertasse bot?es invisíveis que ligavam o mundo.

  Ribeiro seguiu para o lugar que o curador indicara sem indicar: um pátio espremido entre duas docas antigas, onde a cidade treinava. N?o era uma academia no sentido seco da palavra, era um labirinto de correntes, plataformas de coral que oscilavam, redes que soltavam bolhas e obstáculos de vidro marinho. Tudo ali se movia num compasso que n?o era humano, era oceanico. Quem aprendia a lê-lo, ganhava vantagem. Quem n?o, era engolido pelo ritmo.

  — Bonito até.

  Disse Ribeiro, chutando uma pedra fosca.

  — Tenho for?a pra virar um navio. Só preciso aprender a me mexer sem parecer um.

  O "Inseto" chiou, rindo baixinho com aquele jeito irritante de quem está certo.

  Ribeiro come?ou pelo básico: corrida. Mas correr em Atlantica era o mesmo que dan?ar num campo de marés. A pista respirava. A água subia, empurrava, mudava de humor. Ele improvisava, usava impulso, jogava pepitas pra distrair, empurrava o ar pra criar sombra. Ganhava alguns metros, perdia o dobro. Escorregou numa alga, quase atropelou um velho vendedor de caracóis, e caiu de forma t?o espetacular que arrancou aplausos e um coro uníssono de “BAIXO!”.

  Era um tanque com gra?a. Pena que gra?a n?o bastava.

  Depois de duas horas se arrastando (e de três quedas dignas de relato), o curador apareceu. N?o chegou andando, dobrou o ar. A mesma presen?a do Coliseu, feita de luz dividida e silêncio. Ribeiro sentiu a névoa encolher, e ele mesmo tentou enfiar um sorriso corajoso no rosto.

  — "Volte mais tarde, Ribeiro"

  disse o curador, com voz que soava como conchas sendo raspadas.

  — "A velocidade que procuras n?o nasce da pressa. Nasce do compasso."

  — Compasso do quê?

  Ribeiro co?ou a nuca.

  — Das minhas pernas ou da fome de chegar na churrasqueira antes do jumbo?

  O curador esbo?ou algo entre riso e piscadela.

  — "Do movimento que vem antes da maré. Onde a água decide ceder. é ali que a velocidade se esconde."

  — Ent?o tenho que ouvir a água falar?

  Ribeiro arqueou a sobrancelha.

  — Tá bem, manda o que eu tenho que fazer.

  O curador n?o respondeu, apenas encostou um coral no ch?o. O som foi mínimo, mas o ar se reorganizou. Bolhas alinharam-se, uma medusa virou cortina, e o pátio respirou diferente.

  — "Sente?"

  disse o curador.

  — "N?o ouve. Sente. Você também tem isto, mas em outra forma..."

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  Ribeiro tentou. Fechou um olho, depois o outro. No come?o, era só ruído. Mas quando parou de querer controlar, come?ou a perceber. Entre as correntes, havia pequenas pausas, intervalos microscópicos, espa?os de decis?o. Era ali que o compasso vivia: entre uma bolha e a próxima, entre o impulso e o atraso.

  — O menino do selo...

  murmurou, abrindo um sorriso enviesado.

  — Ele já se move nesse ritmo, né? Nasceu assim ou aprendeu?

  O curador silenciou. Ribeiro preencheu o vazio com mais bobagem.

  — E o tal “cora??o do mar”?

  perguntou, arrotando o nome.

  — é o quê? Dá pra pegar? Martelar?

  O curador inclinou a cabe?a.

  — "O cora??o do mar n?o é mostrador de mapa. Nem objeto pra ser carregado. Uns dizem que é lugar; outros, som; há quem jure que é lembran?a. Quando a água dobra pra contar sua própria história, ele se abre. Podes encontrá-lo onde o mar decide n?o ser apenas água."

  A resposta veio fina, brilhando como poeira de concha. Ribeiro franziu o nariz, gostava mais de dire??es com setas. Mas ao invés de reclamar, soltou uma piada.

  — Ent?o: n?o sei onde, nem quando, mas é bonito. Tá valendo...

  Respirou fundo.

  — Me ensina, pelo menos, a n?o parecer uma baleia com pressa? Plsssssssss

  — "Mostra-me como n?o parecer uma baleia"

  disse o curador, indo até a pista.

  — "E aprende a ler o espa?o entre bolhas."

  O curador demonstrou. Movia-se pouco, mas o pouco era suficiente. Onde passava, as correntes faziam pausa, o tempo se dobrava. Era o tipo de gesto que só parecia fácil porque já era domínio. Ribeiro tentou copiar, e fracassou com louvor. Correu quando devia parar, freou quando devia saltar, derrubou uma placa, libertou um peixe que saiu voando feito bal?o molhado. O Inseto chiou t?o alto que duas gaivotas fugiram.

  Mas algo mudou. Ele parou de lutar contra o ritmo e come?ou a esperar o momento certo. Como um cozinheiro que entende o corte antes de mexer a faca. Quando percebeu o intervalo entre duas bolhas vindas de um respiradouro, avan?ou com leveza. E atravessou o trecho inteiro sem for?ar. O corpo entendeu o tempo.

  — Ah, ent?o é isso!

  comemorou.

  — O segredo era fingir que sou menos forte!

  — "O segredo é saber quando usar a for?a e quando tomar emprestado o movimento ao redor"

  respondeu o curador.

  — "Um golpe no compasso vale por dez sem rumo."

  Depois, o curador prop?s um desafio: uma corda de bolhas. Cada um segurava uma ponta, e o objetivo era cruzar o pátio antes que as bolhas estourassem. Um teste de tempo, n?o de músculo.

  Ribeiro respirou, sentindo a névoa se alinhar. A mesma fome do Coliseu, agora com propósito. Quando a corda rompeu, ele esperou. E no instante certo, entre a implos?o de uma bolha e o nascimento da próxima, saltou. O movimento foi pequeno, o suficiente. Um giro torto, um impulso limpo, e a chegada.

  Os poucos que assistiam aplaudiram. Ribeiro sorriu, meio envergonhado, meio orgulhoso.

  O curador o observou com calma.

  — "Quando o cora??o do mar se mostra, n?o é pra ser agarrado"

  — "é pra ser compreendido. Quem o encontra primeiro descobre outra sede. E o selo n?o é chave: é convite."

  Ribeiro riu, um riso que trazia mais entendimento que humor. As coisas que ele buscava n?o vinham em linha reta. A fome precisava de nome. às vezes “vontade”, às vezes “curiosidade”. Naquele instante, com o corpo molhado de suor salgado, parecia “encontro”.

  — Ent?o eu treino até descobrir que nome é esse...

  — E se o corpo reclamar, mando o Inseto negociar.

  O "Inseto" fez um som que parecia concordancia, e o curador, pela primeira vez, mostrou aprova??o.

  — Volta quando teu compasso for t?o claro quanto a areia sob teus pés.

  Tocou o selo invisível no peito de Ribeiro.

  — E procura o menino. Ele é um ponto de dobra. E o criador desta técnica bizarra.

  Ribeiro apertou o peito. O calor da carne n?o dava resposta, lembrava. Saiu do pátio n?o mais rápido, mas com ritmo. E ritmo, ele sabia, era o come?o de qualquer milagre.

  No caminho de volta, driblou vendedores, desviou de correntes, e quase entrou numa briga por causa de uma mulher que jurava que uma sombra roubara seu porkinho. Riu disso tudo. Porque treino era treino, compasso era compasso, mas a vida continuava empurrando tudo pro riso.

  Quando a noite caiu e as luas quebraram em reflexos sobre o vidro do mar, Ribeiro olhou o horizonte e murmurou, baixinho:

  — Cora??o do mar, hein? Eu vou te achar. Ou te irritar até responder.

  O Inseto se ajeitou no ombro. Ribeiro caminhou. E Atlantica, com suas correntes e risadas, embalou o passo novo, meio desajeitado, meio promissor.

  Havia fome com nome por vir.

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