home

search

25. O eco do estourar

  Saiu do pátio com a sensa??o molhada de quem aprendeu algo sem entender tudo, aquele tipo de saber que gruda no corpo e pede outro dia de ensaio.

  A noite em Atlantica cheirava a assado e promessa velha. As luas cortavam o céu em fatias, e as correntes empurravam as pessoas como quem tenta organizar um baile mal ensaiado.

  Ribeiro andava com seu peito inflado, quente e desenhado sob a roupa, o Inseto no ombro abanando as antenas como um treinador invisível.

  — Ent?o eu preciso achar o menino, né?

  murmurou, mais pra distrair a névoa do que por esperar resposta.

  — Ponto de dobra. Criador da técnica bizarra. Fácil. Onde é que escondem as crian?as gênias hoje em dia, hein?

  O Inseto chiou em tom de deboche. Ribeiro sorriu; o inseto era o único que aguentava o nível dele de piada interna sem pedir reembolso.

  Come?ou pelo óbvio: a pra?a central, onde se vendia memória em peda?os, picolé de musgo e rumor por quilo. Perguntou a vendedores, barqueiros, velhos que costuravam redes e ao menino dos fósforos que n?o pegavam fogo.

  As respostas vinham em fragmentos: “vi um garoto com o selo visível na pra?a do mercado”, “um menino correndo estranho perto dos moinhos aquiferos”, “talvez junto ao respiradouro velho, onde as bolhas fazem música”.

  Eram pistas ralas, mas ralas bastam quando se tem fome.

  No caminho, topou com uma parede grafitada com o mesmo símbolo do selo do garoto, n?o igual, mas uma vers?o de rua: um tra?o torto que lembrava um peixe tentando dan?ar tango.

  Alguém ria, alguém cuspia, alguém vendia versos num papel amassado. Atlantica sempre respondia com arte e lixo, às vezes na mesma frase.

  Seguiu o rastro até o respiradouro velho, entre o cais e a carvoaria, onde o som das bolhas formava uma orquestra desafinada.

  Havia sapatos velhos, amuletos de vidro e uma placa enferrujada: “N?o ofere?a seu brilho a estranhos.”

  Sentiu antes de ver: um compasso diferente no ar, pequeno e certeiro.

  N?o era o do curador, era mais rápido, mais seco mesmo na água.

  Ent?o viu o menino.

  Menor do que imaginara, corpo de quem ainda coleciona ossos de brinquedo, olhos de quem já guardou muita fome. O selo costurado num cachecol.

  Movia-se entre as bolhas com leveza irritante, n?o perfeita, mas perigosa. Cada passo parecia uma conversa com o espa?o; cada desvio, uma piada mal contada.

  Ali estava o “criador”.

  Ribeiro se aproximou com a naturalidade de quem vai pedir um pastel.

  The narrative has been illicitly obtained; should you discover it on Amazon, report the violation.

  — E aí, pequeno furac?o...

  disse, num meio termo entre riso e teste.

  — Você é o tal ponto de dobra?

  O menino olhou de canto. Sorriu por dentro, como quem guarda o segredo pra mais tarde.

  — "Ponto de dobra é palavra grande"

  respondeu.

  — "Eu só fa?o a água trabalhar comigo. N?o sou inventor. Só n?o gosto de perder."

  Ribeiro gostou: resposta direta, com uma pitada de desafio.

  — E como é que você fez isso?

  perguntou, tentando soar mais aprendiz que curioso.

  — "Como se faz uma faca afiada? "

  o menino devolveu.

  — "Pedra, tempo, e às vezes sorte."

  Soprou como guizo preso num fio. As bolhas próximas alinharam-se como se obedecessem ao som.

  Ribeiro tentou imitar. Saiu barulho de homem engasgado.

  O Inseto gargalhou, porque inseto acha gra?a de tudo que é humano e """"humano"""""

  — Me mostra

  pediu Ribeiro, rindo.

  O menino o observou, sério.

  — "Espera o espa?o"

  disse.

  — "N?o empurra. Deixa a bolha murchar e usa a suc??o. N?o é for?a, é oportunidade."

  Pausou.

  — "Porém, diferente daquela cópia... eu posso criá-las."

  Era o que o curador dissera, destilado. Só que... Com menos arrogancia...

  Ribeiro tentou. O primeiro movimento foi trapalh?o; a água o empurrou de volta.

  O segundo, quase certo: esperou a implos?o da bolha, enfiou o pé no vazio, e o corpo deslizou. Um salto limpo, curto, uma dobra no tempo.

  O Inseto chiou em aprova??o.

  O menino assentiu, respeitoso, n?o pela for?a, mas pela paciência.

  — "Tá aprendendo. Mas cuidado com o vento. Ele ajuda… e também corta."

  A palavra “corta” fez seu peito esquentar e doer.

  Ribeiro co?ou a garganta, pensou, e perguntou:

  — Quem te ensinou? E também... meu peito anda doendo. N?o sei por quê...

  O menino inclinou a cabe?a, como quem escuta o próprio eco antes de responder.

  — "Primeiro: ninguém. Brinquei com coisas quebradas e achei o ritmo."

  — "às vezes alguém passa e ensina uma coisinha. às vezes o mar se cansa e me explica."

  — "Segundo: isso é natural em todos os seres."

  — "Vê esta marca no meu peito?"

  Apontou.

  — "Você tem uma também, mas n?o igual. Todos têm. Você apenas n?o a reconheceu."

  — "Mas esta… é minha pris?o."

  Ribeiro n?o achou resposta à altura. Contou uma história boba de churrasco pra preencher o silêncio.

  — Ent?o... Está pris?o...

  perguntou depois.

  — é daí que vem o seu jeitinho?

  O menino tocou o tecido e sorriu com dor.

  — Veio de longe. N?o é chave. é problema.

  A resposta n?o trouxe solu??o, só mais perguntas.

  Mas trouxe uma coisa: o menino deixou cair uma pequena escama, gravada com um sulco estranho.

  Ribeiro pegou. Tinha sal, peso e o formato de uma lágrima.

  Antes de sumir entre as bolhas, o menino disse:

  — "Se quiser me ver de novo, para de prever tudo. Vai com fome, n?o com certeza."

  Ribeiro ficou com a escama na m?o e a vontade no peito.

  O Inseto o cutucou, impaciente: hora de ir.

  Ele riu, sorriso de quem ganhou um convite e ainda n?o sabe se aceita.

  A escama estalou no bolso, soltando cheiro de chuva antiga.

  Ribeiro guardou-a como quem guarda promessa.

  Atlantica continuou a respirar.

  O menino sumira, mas deixara um rastro de compasso.

  Ribeiro entendeu: o caminho n?o era procurar, era aprender a ser achado.

  E por algum motivo, essa ideia o deixou feliz e com fome.

  Olhou o céu mosaico e murmurou:

  — Beleza. Da próxima, eu trago o churras...

  O Inseto chiou um som que parecia sorriso.

  E Ribeiro seguiu pelas correntes, com agora, o selo no peito, parecendo mais um mapa que uma chave, ou fechadura, e o mundo inteiro, um convite.

  


Recommended Popular Novels