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23. Gran coliseu

  Quando "Inseto" falou “procure quem tem fome”, a frase foi absorvida pela cidade como se fosse algo dito à mesa, simples, necessária e com pontas afiadas. Logo, ribeiro pronunciou a mesma frase, como se o "inseto" o controlasse.

  Logo, levaram-no.

  N?o com violência, Atlantica n?o precisava, mas com o empurr?o suave das correntes que apontavam.

  O Coliseu ficava numa reentrancia onde a luz das luas se partia em mil facetas.

  N?o era um único anfiteatro, mas uma dobra no corpo da cidade, feita de correntes cristalizadas, placas de coral polidas e cortinas de medusas que tremulavam como bandeiras.

  O ar ali tinha gosto de sal e de expectativa; cada respira??o parecia uma aposta.

  Na entrada, inscri??es n?o-diziam regras, diziam acordos:

  Aqui se luta até o limite.

  Aqui a morte é adiada, n?o abolida.

  Aqui há um que recoloca o sopro, cuide do que pede.

  Ribeiro riu quando leu.

  — lugar estranho, pera, eu n?o deveria estar ca?ando o cora??o do mar...? OPA, UM CAVALO MARINHO, OLHA ESSA ARTE CARA, PUTA QUE PARIO ヾ?(?*?’?O?’?*?)?/

  Riu logo após, porque era o melhor remédio que tinha.

  A névoa no peito afinou, curiosa; o Inseto no ombro mexeu as patinhas, ansioso, como se soubesse que ali haveria confus?o com direito a bandeira de promo??o.

  — Ent?o é ali que tem o curador?

  perguntou.

  — “Ali”,

  respondeu uma voz aquariana, seca como algas ao vento

  — “é onde se prova o corpo. E o cora??o.”

  Os assentos eram de conchas e vidro; o público pendia das correntes, uma massa que brilhava.

  No centro, a arena respirava, um círculo de areia que se movia, soltando pequenas bolhas que subiam com apostas sussurradas.

  Havia gritos, havia ritual, e algo mais antigo que tudo: a sensa??o de que lutar ali n?o era vencer outro, mas responder a algo que vivia sob tudo.

  O velho árbitro, de colar feito com dentes de peixe, anunciou:

  — "Usa o que tiver. Ferramenta, mente, truque do mercado. "

  Apontou para os lutadores.

  — "Só n?o se mate. A cura espera. Quem perder será curado. Mas o que a cura n?o alcan?a é teu próprio buraco."

  Ribeiro sorriu.

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  Pra ele, “usar o que tiver” sempre foi sin?nimo de improvisar.

  Tinha pepitas no bolso, ginga, piada ruim, se isso bastasse, venceria.

  As lutas come?aram como velhos roteiros de feira: nomes, bravatas, quedas ensaiadas.

  Ribeiro passou por dois adversários que eram mais volume que arte; um tentou esmagar-lhe o bom humor, outro, prender-lhe o f?lego.

  Ele ganhou.

  N?o com honra, com jeitinho """"humano""""".

  O público adorava o audacioso que se virava com palavras.

  Na quartas, o jogo apertou.

  Ribeiro puxou de tudo: manobra de distra??o (um cuspe de bolha que arrancou risadas), uma corrida de bra?os que mais lembrava nado torto, e um golpe final mais sorte que técnica.

  Venceu por pouco, ofegante e feliz, com a névoa se enrolando nele como troféu pegajoso.

  A semifinal trouxe um garoto de estatura baixa.

  O menino era tudo o que Ribeiro n?o era: economia de movimento, olhar curvo como lamina, uma presen?a que cortava as ondas sem deixar espuma.

  Tinha o selo bordado no peito, o mesmo que ele vira na pra?a.

  Coincidência? N?o parecia.

  Quando a luta come?ou, o menino já estava onde a água se encontrava consigo mesma.

  Movia-se como quem conversa com o mar, e o mar obedece.

  Ribeiro tentou acompanhar com improviso, charme, truques de rua, mas a água n?o perdoa quem hesita.

  No terceiro encontro, o menino o derrubou sem violência: um toque, um giro, e o neandertal caiu com dignidade esmigalhada.

  A areia beijou-lhe o rosto.

  O silêncio que seguiu pesou mais que a derrota.

  Ribeiro riu antes da dor.

  O Inseto berrou um som agudo que só ele ouviu direito.

  — “Você perdeu.”

  Ribeiro respirou, sentiu a névoa vacilar, e depois alinhar-se, serena.

  — Perdi? T? só estudando o que está ocorrendo.

  O menino n?o respondeu.

  Recolheu o suor do ch?o com reverência e foi embora.

  Nos olhos dele, Ribeiro reconheceu algo, n?o ódio, nem amizade, mas o reconhecimento de uma fome parecida.

  Ent?o, o Coliseu prendeu o f?lego.

  O curador veio.

  N?o entre aplausos, mas em silêncio: flutuando, como uma cortina que decide pousar.

  Era simples e impossível pele que rebatia luz, m?os que pareciam mapas de veias de água.

  Talvez tivesse olhos; talvez Ribeiro n?o fosse digno de vê-los.

  O toque foi leve.

  A dor se desfez como se o mar tomasse de volta o que havia emprestado.

  Carne refez-se, costuras sumiram, e um cheiro de chuva encheu o ar.

  O público exalou, aliviado.

  — “A cura devolve o sopro,”

  disse o curador, voz antiga e jovem ao mesmo tempo.

  — “Mas n?o alcan?a a fome que insiste no peito."

  Ribeiro sentiu algo mais que físico ser tocado.

  Uma vontade de rir e chorar ao mesmo tempo, que ele guardaria pra depois.

  O curador inclinou a cabe?a, olhou o selo preso ao seu peito e falou, como quem joga uma pedra num lago:

  — “O que busca quem traz esse símbolo n?o é carne. é dobra de história. Vá treinar. Volte quando tua fome tiver nome.”

  O menino passou por ele sem palavra, um relampago contido.

  E nessa faísca Ribeiro entendeu: n?o era sobre for?a, nem jeitinho.

  Era sobre saber qual parte do corpo se move antes da água pensar.

  Na saída, as correntes os levaram de volta.

  Ribeiro caminhava menor e maior ao mesmo tempo.

  A névoa murmurava, satisfeita; o Inseto resmungava, orgulhoso.

  — “Você perdeu.”

  — Perdi hoje. Amanh? treino para o agora.

  E sorriu.

  Dessa vez, o riso tinha peso de promessa.

  O Coliseu ficou ali, brilhando como uma cicatriz bonita no corpo da cidade.

  Atlantica guardou o acontecido como quem coleciona fome antiga.

  E Ribeiro, no meio da multid?o que se dissolvia, já sentia o desejo de retorno fermentar.

  Ele iria voltar.

  Porque havia algo no menino, e algo no selo, que transformava o simples desejo de vencer em obriga??o:

  vencer aquilo que ainda vivia dentro dele.

  E quando se mexe uma obriga??o, a vida responde.

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