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22. A cidade esquecida por sua Deusa

  Andar em Atlantica era como caminhar dentro de um aquário que aprendeu a ter paciência. As ruas n?o eram ruas; eram correntes domesticadas que levavam de vitrine em vitrine, empurrando o que precisasse passar sem pressa. O coral crescia em fachadas, o vidro cantava com o atrito das bolhas, e a luz vinha cortada em lascas, como se as seis luas tivessem combinado uma só paleta de cores.

  Ribeiro avan?ou como quem chega numa festa onde n?o conhece ninguém, mas decidiu que seria o dono da churrasqueira mesmo assim. Tinha pepitas no bolso que brilhavam diferente embaixo d’água, achadas no ch?o, sem dono, t?o tentadoras quanto p?o quente. A névoa dentro dele puxou, curiosa; o Inseto, encolhido num canto do ombro, fez aquela carinha de quem tem fome de confus?o.

  — Cês moram aqui o tempo todo, é isso?

  perguntou alto, principalmente pra n?o ter que fazer cara de perdido.

  Uma figura se virou. Um aquarian, com veios luzentes subindo pelos bra?os como rios de luz, observou-o com estranheza e um certo fascínio científico.

  — “Vivemos... ”

  respondeu, medindo cada sílaba. Depois inclinou a cabe?a, genuinamente curioso.

  — “E... um macaco aqui?”

  A resposta veio limpa, sem pressa.

  — “E a cidade vive em nós.”

  Ribeiro ficou olhando, tentando achar uma compara??o aceitável.

  — Tipo condomínio, ent?o?

  tentou.

  — Sinal por aqui tem?

  As risadinhas foram pequenas, quase bolhas. Um velho vendedor ofereceu uma fruta translúcida, como se fosse um presente de boas-vindas.

  — “Troca”

  disse o velho, pegando as moedas no ar com tentáculos que n?o eram tentáculos mas poderiam muito bem ser.

  Ribeiro abriu a m?o e deixou as moedas caírem no ar denso, observando como flutuavam até a palma do homem. A troca foi t?o simples que ele riu.

  — P?, vida fácil, hein?

  murmurou, mordendo a fruta. Era doce, molhada, e deixou um cheiro de pedra molhada na boca.

  — Esse lugar é tipo o mercado lá de onde eu vim, só que sem o perrengue dos catadores, bom, meu pai chamava assim... Valeu aí tio :D

  Um grupo de jovens Aquarian passou, fazendo um ritual de sauda??o: dois fios de água surgiram das bocas deles e desenharam uma espiral no ar, tocando-se como um aperto de m?o. Ribeiro observou fascinado e quis imitar. Tentou juntar as palmas como sempre fazia em terra, quando cumprimentava a galera com um estalo.

  Sem querer, cuspiu uma bolha. A bolha foi redonda, ofensivamente humana. Bateu fraco no fio aquático e explodiu em confete de água.

  Silêncio. Depois, uma gargalhada que veio em cascata por entre a rua, calorosa como forno. Ribeiro p?s as m?os na nuca e sorriu constrangido.

  — Ah, valeu ?~?

  disse.

  — uhh... Foi a vers?o nativa do: “e aí, tudo bem?”

  fingiu.

  Um menino, curioso, nadou até ele e tocou a névoa que se condensava na manga do casaco que ele n?o precisava ter. A névoa recuou, latejando como se abrisse e fechasse uma porta. Ribeiro sentiu a rea??o dentro do peito, prote??o, tristeza, um atraso na memória, e respondeu com o que sabia fazer de melhor: charme atrapalhado.

  — Relaxa, parceiro. Eu t? aprendendo.

  E tentou puxar conversa como quem puxa conversa num ?nibus: direto ao ponto.

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  — Mano… já se perguntou o que vem depois da morte?

  Ele perguntou, olhando pro menino, tentando achar sentido.

  — A gente n?o sabe o que vem antes, nem o depois… só o meio...

  O menino olhou como se ele tivesse perguntado se os peixes faziam churrasco.

  — “é mais simples pra nós do que pra você, ser da superfície.”

  A voz do aquariano veio calma, arrastada, com o peso do mar.

  — “é lei. Vivemos com fim e retorno. Antes de tudo, nossas almas s?o costuradas pela Deusa da Vida e entregues à terra. Mas isso é raro, hoje. O mais comum é o toque da Senhora das Almas, maestra dos renascimentos. Ela cuida dos ciclos. Nunca acaba. O fim é só uma dobra do come?o.”

  Ribeiro franziu a testa por um segundo, depois riu. N?o por entender, mas porque esse era o jeito de ganhar tempo com aqueles seres e buscar confian?a, rir para mascarar a confus?o.

  — Ah, ent?o se eu tomar dois spoilers da vida, ganho replay? P?, quer dizer que se eu fizer cagada duas vezes, tenho desculpa?

  piscou, tentando transformar tudo em piada, mas nem ele mesmo sabia se tinha entendido.

  O menino olhou como se ele tivesse acabado de tentar ensinar matemática para um peixe, e o peixe entender nada.

  Ribeiro percebeu, por um instante, que havia um abismo entre o jeito que ele fala e o que realmente existe naquele mundo. Mas n?o se importou. Ele sempre navegou por abismos com estilo próprio, e a névoa dentro dele se ajustou: dan?ando, esticando-se, como se entendesse a confus?o do dono.

  O vendedor, que até ent?o estava vazando sabedoria como líquen, franziu algo que parecia uma sobrancelha.

  — "N?o é desculpa..."

  disse sério.

  — "é responsabilidade."

  Bateu um peso ali. Ribeiro sentiu a névoa fechar-se de leve: as bordas ficaram mais coerentes, como papel molhado passando a assumir forma. Por um segundo ele acreditou que tinha entendido; por outro, percebeu que era só mais uma tradu??o torta. Ele sempre achava que entendia até o mundo lhe mostrar que n?o.

  Seguindo adiante, entrou num bazar onde vendiam lembran?as de correntes, conchas esculpidas, líquidos presos em ampolas que tocavam memórias. Um sujeito robusto, com placas de madrepérola nas costas, chamou-o pra pechinchar.

  — "O que tem aí, "celebridade"?"

  perguntou, rindo.

  — Tenho fome, tenho mais... 1 pepita, e tenho um vocabulário selecionado pra confundir quem precise.

  Ribeiro piscou.

  — Me dá um pouco do que vocês chamam de “ceia de reuni?o”, aquela ideia de juntar e comer muito?

  O vendedor sorriu e lhe ofereceu um peda?o de algo que cheirava a carv?o e canela, era um p?o fermentado de algas, sabor que lembrava assado e chuva. Ribeiro mordeu sem cerim?nia. A névoa dentro dele se esticou em filetes que rodopiaram em volta do alimento, comprovando uma pequena vitória: o corpo respondia bem à cidade.

  — Como vocês celebram?

  ele perguntou, entre uma mastigada e outra.

  — Tipo Natal? Só que sem Zenerity e com velhote entregando presente às pessoas num barco?

  (— essa é clássica no lugar de onde meu pai veio... A pai... Por que você ficou t?o fixado na aquele peixe colossal...)

  A névoa pulsou levemente, quase em riso, quase em reprova??o. O Inseto no ombro encolheu, como se dissesse: “vai com calma, projeto de humano, você tá misturando tudo de novo”.

  Logo ent?o, uma mulher ao lado, cujos cabelos eram fita de maré, arqueou a cabe?a. Explicar costumes pra Ribeiro era como explicar Natal a um macaco com telemarketing: potencialmente catastrófico.

  — "Celebramos o "Renovo""

  disse ela.

  — "N?o é um velhote, nem apenas festa. é lembrar dos ciclos: quem foi, quem volta, quem esperou. Tem ceia, sim. Tem ofício. N?o é sobre um dia de brinquedo, é sobre reconhecer quem dá e quem recebe."

  Ribeiro fez a cara que todo brasileiro faz quando alguém tenta explicar regras do transito, acha que faz sentido, mas algo emperra lá no fundo.

  — Entendi. Tipo… churrasco com filosofia.

  Ele sorriu, tentando domar a estranheza.

  — Legal. Meio viagem, mas tem raz?o.

  Vendeu a imagem e acreditou nela. A névoa sorriu com ele; o Inseto, mais ousado, inflou um pouco no ombro e apontou com uma perna minúscula para um grupo reunido mais adiante. Havia um rumor passando como corrente: vozes baixas, um gesto, um símbolo que Ribeiro reconheceu sem saber como, o mesmo selo bordado no pergaminho que ele prendia ainda ao peito.

  Algo na vitrine tremeu e um homem de olhar duro prendeu o símbolo por um segundo. N?o falou. Mas a rua inteira, por um átimo, ficou mais densa. A névoa no peito de Ribeiro apertou, formando um nó.

  — "E aí, o que foi?"

  cochichou o vendedor, percebendo a mudan?a.

  — Nada,

  Ribeiro respondeu, fingindo normalidade, mas o sorriso foi raso.

  — Só… a cidade tem olhos... Muitos olhos...

  O vendedor sorriu, sem julgar.

  — "Todas as cidades têm."

  Ribeiro deixou o bazar com o est?mago cheio e uma sensa??o nova: a de estar visto por um lugar que n?o brincava de ser mar. Ao longe, onde a rua se abria em uma pra?a feita de vidro e corais, uma pequena prociss?o passava, aquarianos levando algo coberto, como quem leva história ao altar.

  O Inseto cutucou o ombro dele e, com uma voz fina que só Ribeiro ouviu, disse uma única frase, seca como lamina:

  — "Procure quem tem fome."

  Ribeiro olhou para o rosto do inseto e, por um segundo, sentiu que o mundo n?o estava apenas observando. Estava cobrando.

  Ele respirou, a névoa se alinhou, pronta por enquanto, e seguiu para o centro. A cidade tinha respostas, e também armadilhas. E havia uma promessa no ar: onde há celebra??o, às vezes também há segredo.

  No meio da pra?a, alguém deixou cair uma folha de papel selada com o mesmo símbolo do pergaminho. A folha girou na corrente e pousou aos pés dele.

  Ribeiro agachou-se, pegou o papel, leu o selo. O cora??o do mar n?o era mais só nome em história; era uma pista que respirava diante dos pés dele.

  E a cidade olhou de volta.

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