A água já engolira quase tudo. O dilúvio, impiedoso, varrera o que chamavam de terra e deixou apenas o eco do que fora mundo. Restara um pico, uma rocha esguia, um dedo de pedra erguido contra as seis luas, e sobre ela Ribeiro pousou com a calma dos que aprenderam a cair e, depois, a subir.
De lá, olhou a ilha inteira submersa como um corpo deitado. O templo onde quase morrera cuspia bolhas sem pressa. As correntes haviam transformado a terra num len?ol líquido. E o rei? A pergunta lhe costurava o pensamento desde que a água o engolira. N?o por dever, mas por necessidade: o rei sabia coisas que as lendas molhadas perderam ao secar.
Ribeiro mergulhou. As guelras abriam e fechavam como um novo relógio, lento, conhecido, preciso. Nadou por entre juncos submersos e pilares que tremiam como velas. O palácio do rei jazia semi-enterrado; a tape?aria escorrera em algas. O trono existia apenas como vulto coberto. N?o havia sinal do monarca. Havia, apenas, rastros, linhas de bolha que se aprofundavam, como pegadas que preferem o fundo.
Ele gritou. O som saiu dissolvido, rachando como concha antiga. Ninguém respondeu. Em vez disso, a névoa que sempre o acompanhara enroscou-se no seu rosto como um velho len?o: familiar e ácido. Ribeiro sentiu um alívio estranho, como se reencontra-se um amigo cínico que nunca foi confiável, mas aparecia quando o mundo se partia.
— Névoa?
chamou, sem rodeios.
A névoa n?o era só vapor; era memória transformada em ar. Respondeu com seu costumeiro misto de tro?a e advertência, mas menos oracular do que antes, mais conversa de vento que conversa de templo.
— "Você quer o rei ou quer a fila do trono, pequeno rio?"
Ribeiro deixou escapar um riso curto, molhado de sal.
— Quero saber onde está o Cora??o do Mar. E onde o rei some quando as marés puxam as pernas da casa.
A névoa adensou-se. As vozes que viviam nela, crian?as, navios, suspiros antigos, alinharam-se até formarem algo mais cuidadoso; havia agora uma textura de aten??o entre os cacos.
— "As respostas n?o ficam onde se perguntam. Ficam onde se esquece de procurar."
As palavras vieram em ondas, simples como um conselho antigo.
— "Procure a cidade que se finge de morta. Onde o primeiro farol calou, ela abre a boca quando as correntes pedem f?lego."
Ribeiro mastigou a pista como quem prova uma erva amarga. A linha lembrava as histórias que o pai contara... Atlantica! A cidade que os velhos chamavam de lenda. Padr?es do mundo do pai repetiam-se aqui; era confuso, mas agora n?o era hora de filosofar. Hora era seguir.
Unauthorized usage: this narrative is on Amazon without the author's consent. Report any sightings.
— E onde fica essa cidade?
perguntou, direto.
A névoa sorriu com os olhos molhados do mar e devolveu um mapa em verso:
— "Siga correntes que n?o tocam a superfície. Quando o céu for espelho e a lua estiver dobrada, nade onde as árvores lembram peixes. Lá estar?o passos n?o dados e lanternas esquecidas. A cidade espera por quem tem guelras, e culpa."
A instru??o era enigma com ponto de partida. Ribeiro assentiu em silêncio; "obrigado, névoa" pensou, por sempre falar como se fosse preciso adivinhar.
Ao sair do palácio, as águas ao redor pareciam cumprimentá-lo com algo entre curiosidade e desdém. Cardumes passavam sobre copas de árvores que agora eram jardins de algas. Sardas de luz tremeluziam entre galhos submersos. Ribeiro agarrou um pequeno cardume com as m?os e sentiu o peixe escorregar: frio, vivo, sal no dente.
Comeu cru. A carne deslizou na língua como quem volta ao básico e descobre que o básico n?o trai. Mastigou devagar, já n?o precisava subir a todo minuto por ar. A vantagem era crua e simples: num planeta que se inunda até o pesco?o das montanhas mais altas, quem respira fora d'água morre primeiro. Ele sorriu, curto, como quem fecha uma conta.
Enquanto nadava, conversou consigo. Lembrou brigas pequenas, dívidas de vida e promessas que eram mais piada do que compromisso. A conversa era companhia. O mundo virou um tabuleiro de correntes que empurravam e puxavam seus limites. Em certo ponto, algo que n?o devia estar ali piscou no canto do campo de vis?o: primeiro o "Inseto", depois sombra, forma, e por fim, voz.
— "Olá, portador."
A frase saiu do reflexo do inseto que fora sua sombra; agora a proje??o dele crescera, esticada, deslocada, sombra com vontade própria. Houve um instante em que Ribeiro pensou ser alucina??o: o riso escorrendo de uma cabe?a que n?o sabe estar só.
— OXI, CAPETA????
escapou dele, mais reflexo do que filosofia. A sombra n?o respondeu; tremeu como se o próprio mar tivesse rido e, ent?o, desfez-se em pontos de luz que voltaram a ser peixe e diminuísse até Inseto.
Ribeiro riu sozinho, sem que o riso alcan?asse orgulho, um riso de quem conversa com fragmentos da mente e aceita que, naquela estranheza, há vantagens.
Seguiu. Mil metros, dez mil impulsos que pareciam comprimidos em décadas. às vezes a água o embalava como ber?o; outras, as turbulências lhe arranhavam a pele como portas de ferro. Perdera a no??o do tempo. Perdera até a no??o do espa?o. Tudo virou progress?o: corrigir a rota, poupar energia, sentir as correntes como mapas.
E ent?o, no azul espesso, uma luz distante se acendeu, n?o o brilho bioluminescente das col?nias, mas um farol com inten??o. Primeiro ponto; depois mancha; depois arquitetura: arcos que n?o deviam pertencer ao mar raso, colunas de coral esculpidas em formas quase ancestral, cúpulas de vidro onde as seis luas se dobravam em fragmentos.
A Atlantica n?o chegou de repente. Veio-se formando como lembran?a: um sonho que o esperava desde a infancia, familiar de um modo impossível, reconhecer o rosto de um parente que nunca se viu. Havia bandeiras de algas, mastros presos em silêncio, inscri??es que se moviam quando olhadas de canto. O ar entre as ruas submersas parecia guardar segredos antigos em suspens?o.
Ribeiro abrandou o nado. Contou as batidas das guelras como se fossem um compasso novo. Cada detalhe puxava memórias do pai, histórias de fogueiras que agora eram pedras molhadas. Ele soube, com aquela certeza que vem de instinto e de heran?a, que ali poderia estar o Cora??o do Mar. Ou ent?o um espelho preparado por alguma divindade para provar covardia.
Fez-se pequeno e nadou até a luz.
E quando ela o tocou
a certeza, a promessa e o medo, tudo deixou de ser agora.
Fim do 21° capítulo, o que achou? Estou curioso

