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20. A canção do afogado

  A ilha respirava em ciclos profundos, como quem dorme e exala um longo suspiro. Mas havia suspiros que viravam marés: vinham velozes, puxando tudo consigo, e logo voltavam a se esconder. Ribeiro sentiu o ar se esticar na pele quando a chuva, que antes era apenas um som relaxante, ergueu-se, como se milh?es de dedos estivessem alisando o céu. O som era grave e contínuo, abafando até seus próprios pensamentos. A névoa ao seu redor se adensava, aprendendo a chover em si mesma, e o inseto que o guiava agarrou-se em seu ombro, como se sussurrasse: “Corre.” N?o foi surpresa total, já houvera sinais: o mar se zangara mais cedo, vagas batiam umas nas outras antes da hora, peixes subiam aos rasos em desespero. No mundo, o ciclo vivia de lembran?as antigas: a cada três dias o Leviathan lá embaixo, soltava a sua respira??o trovejante, liberando águas que a terra n?o havia pedido. Para quem conhecia a rotina, era um teste; para quem a subestimava, era senten?a. Ribeiro correu sem realmente saber como, esbarrando nas paredes do templo. A névoa, que até ent?o lhe servia de companhia íntima, agora grudava como gordura no rosto, fechava as fendas da memória e se tornava passado e presente ao mesmo tempo, as partículas, molhadas demais, arrastavam lembran?as que n?o eram dele: risos antigos, can??es sem nome, uma promessa de sal. Passos que antes pareciam flutuar agora afundavam; as raízes-socorro das árvores tornaram-se m?os que o puxavam para baixo. As ruínas, que antes haviam sussurrado histórias, viraram um labirinto de espinhos. Ribeiro buscou abrigo onde as pedras faziam saliência, onde colunas quebradas ainda desenhavam arcos como barcos vazios. Encontrou fendas entre lajes, fugiu por corredores drenados de luz, e em cada canto a água crescia como se viesse de dentro das pedras, como se a própria memória antiga exsudasse mar. A primeira onda que o atingiu foi uma palma extensa, uma m?o invisível cobrindo-o por inteiro. O som da chuva virou tambor; o mundo, um tamborilar onde tilintavam conchas. Ribeiro prendeu a respira??o e correu contra o ímpeto da corrente que queria enrolá-lo feito linha. Mas a ilha comp?e castigos precisos: num segundo, a passagem que julgava livre cedeu, uma laje deslizou, um bloco girou. Ele foi prensado. N?o houve um primeiro grito digno de conto. Houve uma sequência de sentidos que se apagavam e acendiam como lampadas ruidosas. A névoa foi empurrada para dentro de si, apertando-lhe o peito até que sua música se tornasse latido. Entre duas rochas, onde antes havia espa?o para um corpo respirar histórias, agora havia apenas um bolso que se preenchia com água. As pedras cerraram-se como mandíbulas e o mundo cantou sua can??o de três em três dias. Ribeiro sentiu o frio primeiro nas m?os, n?o o frio de perder calor, mas o frio de algo que o observava com paciência. A água entrou como quem espera permiss?o: cheia de sal antigo, cheia de voz. O ar ia ficando menos presente; cada puxada era uma dívida de espuma. No último suspiro antes do fundo, a névoa dentro dele evaporou como certeza que se perde. A mente, já trêmula de tudo que vira, come?ou a rachar em vozes. Ele falou. As palavras saíam mordidas, brincavam com sílabas como se tivessem dentes. Tinha ali algo de riso: n?o o riso insolente da estrada, mas um riso que rubrica a sanidade com tinta espessa, como verniz derramado sobre vidro rachado. Falava como quem faz gra?a sobre ruínas, soltando frases como moedas velhas. “ó,” murmurou, “olha só, a ilha deu banho...” E achou gra?a do próprio tom, como se o riso pudesse negociar o afogamento. Foi ent?o que a água deixou de ser só água. No fundo daquele bolso entre pedras, onde a luz n?o chegava e as inscri??es nas paredes se dissolviam em algas, uma presen?a mais antiga que o mar subiu lentamente. N?o veio como onda, veio como reconhecimento: a superfície se curvou, as bolhas alinharam-se em pequenos alfabetos, e uma voz memorável, se a voz fosse líquida e maternal... E ent?o, tocou a cabe?a de Ribeiro por dentro.

  — "Pequeno rio... Ribeiro, a quanto tempo..."

  A fala foi uma maré. Pronunciada sem pressa, sem surpresa, com a paciência de quem conhece quem engole. Quando a água tocou seu ouvido, n?o era só som, era sabor de lembran?a. Ele pensou em sua m?e, em cantigas e em conchas, e mesmo assim sabia que n?o era humana. Era Aqua, a deusa que me salvou na última vez. N?o era a divindade distante das histórias de missa, nem a sogra curiosa do mar: Aqua vinha antiga, com a calma de quem tem todos os arquivos do sal. Apareceu como forma que n?o precisava de corpo, uma geometria de luz submersa, olhos feitos agora de vórtices e falou numa língua que era quase música. Sua presen?a era tranquila como o mar noturno sob as seis luas. Sua mente estava quebrada. As costuras deixavam escapar piadas, metáforas mordentes, ecos de um homem que aprendera a rir para n?o chorar. Ribeiro respondeu com a entona??o de um palha?o em teatro vazio: cadenciada, cortante, mas sem crueldade na inten??o. Era o "coringa" das palavras, brincava com o desastre, mas ainda havia nele uma retid?o torta que punha p?o na mesa de quem precisava.

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  — Achei que ia só molhar o cabelo hoje, que surpresa!

  disse ele, com a boca cheia d’água, e sorriu de boca fechada. Aqua moveu-se sem se mover (explica??o: ela usou muito sab?o nos pés ??). A água ao redor deles dan?ava, formando correntes sinuosas e recorda??es de tit?s que se retorciam no fundo. O ser n?o precisava dobrar o mundo para falar; era o mundo dobrando-se por si. Sua voz era promessa que n?o negava nem garantia.

  — "A ilha respira"

  disse ela.

  — "O Leviathan solta sua carta novamente. Há sangue nas ondas de quem chama muito alto. Você trouxe o riso para a água. Por isso vim."

  Ribeiro sentiu o peso do pergaminho nos pensamentos, as palavras “N?o acorde o fundo” como um punho dentro do peito. Por um instante, a piada interna que lhe ocorria amoleceu; a fome por entender aquilo que o puxava tornou-se mais afiada. Tentou lembrar do homem na pintura, do sorriso com coroa de conchas, a mancha azul na pele queimava como um selo. Aqua falou de trocas como quem explica geografia, sem pressa, com o compasso de uma maré. Ofereceu possibilidades com precis?o de médico: adapta??o, transforma??o, sobrevivência.

  — "Posso te dar [...]"

  disse ela

  — "a adapta??o que a água exige. Posso vestir-lhe guelras sem tirar-lhe o que és. Poderá respirar onde antes se afogava, mover-se na maré como peixe em memória, sentir o pulsar das correntes antigas. Mas troco com precis?o de mar: quero o antigo. Um item que sua espécie chama de mito, que pulsa no amago do mundo, o Cora??o do Mar."

  Aquelas palavras tiveram o peso de conchas rachadas. O Cora??o do Mar, raramente nomeado, soava como algo que n?o devia andar por m?os humanas, arrancado da própria carapa?a do Leviathan. Ribeiro ouviu a oferta e, por um instante, as rochas apertaram novamente, como se a ilha quisesse ouvir a resposta. A voz saiu reta, entre o humor e a febre:

  — E se eu trouxer, você promete que eu n?o vire peixe?

  disse, em tom de tro?a. Aqua riu, um som de mar contra pedra, e n?o era garantia fácil.

  — "Prometo o que a água pode prometer: adapta??o. Prometo que as correntes te aceitar?o. Prometo que n?o serás tomado pela sede de ambi??o. Mas n?o prometo que mantenhas tudo o que achas teu."

  Ribeiro sentiu, pela primeira vez naquela noite de sopros e fechamentos, que cada resposta vinha com uma margem de perda. A oferta era bonita: vida em água e terra em troca de um cora??o de mar; o pre?o, uma viagem cobrada em arp?es de memória. A névoa interna dele inflou, recuou e, por fim, com a cadência de quem faz acordo com o destino, Ribeiro prometeu, n?o em palavras claras, pois a água já as confundia, mas num gesto submerso que fechou os olhos como quem sela um pacto.

  — Tr-trato...

  murmurou ele, com a boca cheia de sal e de riso.

  — "Trato. Mas saiba: eu sempre cobro juros."

  Aqua inclinou-se como quem escuta um som afastado. A água ao redor deles silenciou. A ilha, cumprida em seu ciclo, puxou de volta o que n?o necessitava e deixou o resto para o próprio destino. Ribeiro sentiu as rochas afrouxarem, abrindo um espa?o muito pequeno por onde o ar entrou como respiradouro de salva-vidas. N?o era salva??o; era a promessa de mais. Quando a corrente finalmente o expulsou das fendas e o cuspiu na superfície, fora do templo, as seis luas pendiam no céu, pálidas como conchas. A névoa que cobria seu peito já n?o era apenas tristeza, era mapa. O peso do pergaminho que carregava parecia menos opressivo, e dentro dele a palavra sussurrada soava agora como um chamado: Cora??o do Mar. Ribeiro, com a boca ainda cheia d’água, olhou para a ilha que jazia como um ser adormecido entre tosses, e sorriu outra vez, com aquele riso que era faca e cobertor. A voz dentro dele, agora com as guelras prometidas, aquietou-se para planejar a busca. O acordo fora feito; a dívida nascera num só f?lego.

  — Vamos vez até onde eu vou com isto... Hehehe...

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