O riso de Ribeiro ainda se dissipava entre as árvores quando eles entraram pelo atalho que o inseto havia indicado. A luz do entardecer era um len?ol molhado. A névoa rastejava primeiro e depois se elevava, como se tivesse aprendido a escalar muros. Respirar ali era entrar num lugar onde o corpo se confundia: cada sopro fazia o peito trabalhar como se estivesse submerso, cada passo criava uma resistência branca que o empurrava para trás e, ao mesmo tempo, o ancorava ao presente. O inseto caminhava à sua frente, seu corpo negro apontava para tudo numa linguagem incompreensível que, para Ribeiro, soava mais segura e curiosa do que qualquer palavra """"humana"""". Por dentro dele, ou antes, como se fosse parte dele, a névoa que o acompanhava desde o come?o deixara de ser apenas ar: tornara-se companhia, moléstia, memória líquida. às vezes ele a sentia como um calor que pulava entre as costelas; outras vezes, como um dedo frio virando páginas invisíveis. Ele n?o sabia se aquilo era medo, saudade ou uma fome por desvendar aquilo que já sabia existir. A floresta abriu-se em silêncio. As árvores encharcadas inclinavam-se em arcos, suas raízes formando degraus escorregadios que lembravam uma espinha dorsal. O ar, esse mar suspenso, permitia andar como se nadasse: movimentos longos, bra?os flutuantes, passos que pediam calma. Por um instante era possível esquecer a gravidade; a névoa segurava os pés de Ribeiro, como se n?o quisesse deixá-lo partir. Quando as pedras da ruína apareceram, veio um silêncio reverente. Elas surgiram como dentes, como o esqueleto submerso de algum monstro. Blocos cobertos de limo e pequenos cristais de sal brilhavam sob a luz fraca; colunas quebradas pareciam sustentar um teto que ainda n?o caíra. O inseto pousou sobre uma laje, girou o corpo como quem faz uma promessa, e apontou, n?o com o dedo, mas com o gesto inteiro, para uma abertura no centro da constru??o. Ribeiro foi o primeiro a entrar. A névoa lá dentro tinha a densidade da água doce; suas partículas desenhavam trajetórias e, quando ele movia a m?o, o gesto deixava trilhas temporárias como se riscasse o vidro invisível do ar. O som fora da ruína era um rumor apagado; ali dentro, a quietude era t?o líquida que até seu próprio pulso soava como uma onda. As paredes estavam cobertas de imagens antigas. N?o eram simples pinturas: eram camadas sobre camadas, tinta sobre pigmento sobre sal, inscri??es raspadas e reescritas, como se cada gera??o tentasse apagar as anteriores e ao mesmo tempo preservá-las. Havia cenas que pareciam histórias de ninar, crian?as enroscadas em conchas ao redor de fogueiras feitas de ossos, m?es cantando para tit?s marinhos, mas também havia mapas, rostos com coroas de carapa?as e conchas, figuras que se estendiam em tentáculos até virarem estrelas em constela??es. Ribeiro aproximou-se de uma pintura que mostrava a ilha inteira vista do alto: linhas desenhadas como rios, manchas de mata fechada, pontos que, de perto, pareciam olhos. No centro, uma grande mancha quase negra; no topo dela, uma m?o gigantesca descascava o céu. Ao lado, estava escrita em letras que pareciam bordadas com a própria névoa ao redor uma palavra repetida em vários tra?os, n?o inteiramente legível, mas de algum modo familiar: canto / cantico / conta. A névoa em seu interior reagiu com um arrepio: aquela palavra era uma can??o que sua m?e talvez um dia sussurrara, um som sem som. Manuscritos estavam empilhados em nichos cavados nas pedras, enrolados como pergaminhos de pele de peixe. Quando Ribeiro desenrolou alguns, as palavras pareceram mover-se, n?o no papel, mas em sua mente. Eram relatos, desenhos de rituais, registros de dias em que a ilha havia “respirado” de forma diferente; havia anota??es sobre quando os tit?s voltavam a repousar no fundo e sobre como, em certas noites, os homens tinham o cuidado de n?o chamá-los pelo nome. Nas margens, m?os pequenas corrigiam m?os grandes em notas escritas: desenhos de crian?as tentando explicar monstros de olhos de concha. Uma pintura, porém, arrancou o ar de seus pulm?es como um soco. Retratava um homem rindo no meio de uma festa, dentes expostos em sorrisos vazios, mas brilhantes, acompanhando por uma pequena mancha negra em seu ombro. O homem segurava uma coroa de conchas e, ao redor dele, as pessoas o observavam com misto de medo e reverência. Era uma cena que ele juraria ter visto naquela tarde, o riso que saíra dele, o brilho das conchas, e foi ali que a linha entre história e presente se esticou até quase se romper. Ribeiro tocou a tinta. O contato era frio, deixando sobre a pele uma espécie de tatuagem temporária: uma mancha azul que pulsava no mesmo ritmo de sua respira??o. A névoa em seu interior murmurou, um som sentido mais no corpo do que na mente, e as vozes das imagens passaram a sussurrar nomes estranhamente familiares, cortes da memória. Folheando um manuscrito ainda mais antigo, ele encontrou um trecho escrito em caligrafia que lembrava uma cantiga:
Unauthorized usage: this tale is on Amazon without the author's consent. Report any sightings.
“Quando a ilha for can??o, n?o durma. Quando o homem que ri vier, dê-lhe p?o e água; n?o o deixe olhar para o mar. Porque ele chama o que há debaixo com as palavras que s?o feitas para ninar.”
Ao lado, a mesma m?o desenhara a figura com a coroa de conchas. Havia riscos de sangue, secos, de um vermelho desbotado como se pincelados pelo medo, e, num canto inferior, um rabisco de uma crian?a arrancando uma pena do céu. Ribeiro sentiu o est?mago contrair. Rir antes de enlouquecer. A frase, naquele momento, deixou de ser mera pergunta e tocou algo concreto: uma trava que ele só perceberia examinando cada detalhe. Lembrou-se do rei observando de longe, a dúvida em seu rosto coberto por conchas; lembrou-se do javali que vira, do riso que desaparecera na névoa. Tudo convergia ali como fios soltos de uma tape?aria que, até ent?o, ele imaginava ser apenas decora??o. O inseto, paciente, tocou outro fragmento com os cotocos, que seriam suas m?os, e Ribeiro percebeu que as imagens n?o apenas contavam histórias, mas as encantavam. As pinturas haviam sido feitas com pigmentos que reagiam à umidade do ar, ali naquele bioma em que o ar era quase água, os desenhos ganhavam vida novamente. Pequenos tra?os desbotados ganharam relevo; imagens apagadas voltaram a respirar. Uma figura na parede pareceu virar-se, como querendo falar. Entre os manuscritos, havia um pergaminho estreito, amarrado com fio de concha. Quando o desenrolou, suas m?os tremiam. No topo, em tra?os quase infantis, estava escrito algo que fez a névoa interior de Ribeiro recuar, como se tivesse levado um susto:
“O homem que ri n?o é o fim da história, mas o eco de quem a come?ou.”
Ribeiro riu, um riso contido, sem a insolência de antes, mais como uma resposta silenciosa. A névoa em seu peito ondulou como um mar aceitando uma pedra. Ali, nas sombras úmidas da ruína, cheia de lembran?as, a sensa??o de que algo antigo o esperava crescia como uma maré que sobe sem aviso. Ele fechou o pergaminho, sentiu seu peso nas m?os e, pela primeira vez desde que havia deixado a selva, olhou para trás, n?o para ver se o rei seguia, mas para medir qu?o distante estava o riso que vira se tornar quase um juramento. O inseto pousou em seu ombro e, por um instante, fitou-o diretamente, como perguntando se ele ainda era o mesmo. Ribeiro deixou que a névoa o acompanhasse até a saída da sala. As imagens continuavam a reativar-se atrás dele, arquivando e desarquivando histórias que pareciam indiferentes ao tempo """""humano""""". Lá fora, a floresta seguia com o mesmo rumor úmido; a luz do entardecer espessara-se novamente, como promessa renovada. Antes de dobrar a última curva, Ribeiro ergueu o pergaminho estreito e leu baixinho três palavras que a tinta parecia insistir para que ele ouvisse: “N?o acorde o fundo.” A frase caiu entre eles como senten?a, e sem que soubesse exatamente por quê, a névoa em seu peito apertou-se, n?o por medo, mas com uma estranha expectativa. Ele sabia que ali, naquele lugar em que o ar podia ser nadado e as histórias se transformavam em mapas nas paredes, algo estava nascendo de novo. Algo que talvez explicasse por que as noites tinham can??es e por que, às vezes, rir era a forma mais rápida de chamar o que dormia nas profundezas. Ao saírem, a ruína ficou atrás deles, respirando lentamente, e Ribeiro carregava consigo uma mancha azul na pele e um pergaminho que pesava mais do que parecia. A noite caía densa; a ilha, como se tivesse ouvido o eco daquele antigo riso, moveu-se de leve. E, em algum ponto onde a água do ar era mais espessa, uma pequena onda percorreu a superfície invisível, como se algo lá no fundo tivesse escutado, e respondido.

