O mundo ali n?o era feito pra conversa longa. Era feito pra morder, rasgar, enterrar e esquecer. As cabe?as pensavam pouco; os corpos faziam mais. Ribeiro seguia com um sorriso meio torto, um sorriso for?ado para calar o silêncio ensurdecedor do luto. Ele transformava a provoca??o em companhia, uma piada amarga para n?o desabar. Dentro dele havia algo que n?o pertencia: uma névoa densa, viscosa, que n?o escorria como água nem queimava como fogo. Deslizava sob a pele como se tivesse vontade própria, n?o um peso, mas um sussurro antigo, um conselho covarde vindo de quem já se foi. Quando ele respirava fundo, a névoa vibrava baixinho, e o mundo ao redor respondia: uma pena tremia no ar, um caranguejo recuava, um arbusto soltava um brilho súbito como se reconhecesse o familiar do passado. Ribeiro bateu no peito com a palma da m?o, como quem acorda um velho parceiro imaginário.
— ?, seu vaporzinho escroto
resmungou, voz áspera.
— Me avisa quando for hora de comer, tá? N?o quero engolir mais fantasma sem querer.
A névoa respondeu apenas com um leve arrepio no ombro, quase imperceptível. Curiosidade. E Ribeiro deu de ombros, retomou a trilha, os pés afundando numa areia fedendo a concha moída e carni?a. Ao redor, os moradores do litoral, escavadores de casco e olhos desconfiados, levantavam a cabe?a por reflexo, checavam o estranho com dentes e dedos, e voltavam às suas rotinas quando percebiam: aquele corpo ali n?o valia sangue. Junto a uma pedra lisa, coberta de limo que brilhava como um olho antigo, algo minúsculo o observava. Um inseto. Ou algo que um nome fácil chamaria assim. Quatro centímetros de ousadia. Corpo fino, membros que lembravam dedos em miniatura, cabe?a redonda com dois olhos como contas negras. Parecia um boneco esculpido por m?o distraída. Tremia de curiosidade, e fincava os pés na areia como quem tem uma miss?o pequena mas solene. Ribeiro sorriu mais torto ainda, um sorriso de canalha.
— E tu quem é, seu miudinho?
disparou, sem respeitar.
— Vem fazer gracinha ou procurar marisco na praia?
O inseto n?o respondeu com palavra. Deu três pulinhos, ajeitou-se como se fosse enfrentar o rei dos caranguejos, e bateu o peito num gesto t?o ridículo que fez Ribeiro gargalhar de verdade — um riso curto, febril, cheio de aranhas enclausuradas. A névoa dentro dele pareceu se animar, inclinando-se para perto do bichinho como gato que reconhece dono. Ribeiro estendeu o dedo. O inseto hesitou, depois saltou sem medo e pousou na sua palma. Leve como pena, o toque despertou nele um turbilh?o de imagens. Caverna úmida iluminada por feixes tortos de luz; uma mulher de riso raro e olhar distante; um martelo gasto com marcas profundas; móveis antigos que pareciam esconder-se nas sombras; trov?es distantes que vinham de dentro e faziam o ch?o tremer. Tudo misturado, confuso, como lembran?as jogadas de longe. Ele fez cara de quem n?o entendeu nada e sacudiu a cabe?a, resolvendo zombar do destino.
— Beleza ent?o. Se tu é um mini-sábio, vamos juntos nessa merda. Segura firme aí, que eu t? no comando dessa maré.
murmurou, meio pra si, meio para o inseto. O inseto deslizou mais pra perto, co?ou a cabe?a com um dos bra?os minúsculos como num gesto desafiador, ent?o ergueu a cabecinha e estalou o queixo, apontando para o interior da mata que subia como veia para o mundo desconhecido. A névoa confirmava com um arrepio gostoso: havia algo naquela dire??o, uma lembran?a profunda. Lá no alto da saliência rochosa que governava a praia por direito de for?a, o rei macaco observava tudo. Grande, cheio de cicatrizes e com uma coroa torta de conchas na cabe?a, tinha o olhar de quem decide se uma novidade é ca?a, troféu ou problema. Quando Ribeiro ergueu o dedo com o inseto encima, o velho rei arregalou os olhos, novidade podia significar vantagem. Ribeiro nem fez cerim?nia. Em vez de curvar-se, deu um salto leve na frente do rei, fez um gesto exibido mostrando o inseto nos dedos, e abriu o peito num sorriso de desafio.
— ? chefe de galho
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bradou, metendo o dedo na cara do rei com ironia
— olha o que eu achei! Mini-guerreiro, edi??o rara! Se quiser, te arrumo fama: rabo mais bonito, nome imortalizado pela costa... Paga em caranguejo.
O rei macaco rosnou, cheio de desconfian?a. A tens?o ficava tensa como corda de arco: bastava estalar os dedos pra virar briga. Mas ent?o o inseto estalou de novo, indicando o caminho interno, e algo mudou no ar. O rei, na sabedoria primitiva que só os antigos têm, entendeu o gesto: novidade que aponta caminho pode trazer vantagem futura. Ele sacudiu as conchas na cabe?a, ficou firme como pedra, e deu um passo atrás, sinal claro: “vai lá, e traga algo pra mim”. Ribeiro fez uma reverência exagerada, debochada, e segurou o inseto entre polegar e indicador como se fosse um prêmio de gincana. Olhou para a névoa sobre a pele, combinando silenciosamente um truque com seu parceiro invisível.
— Ent?o vamos.
murmurou baixinho, quase pra si.
— Tu, eu e essa fuma?a doida. Se encontrarmos tesouro, você vira herói; se for armadilha, a gente ri no fim.
Os outros na praia aceitaram de sempre: com desinteresse, como se soubessem que a história do mundo continuava, quer ele fosse ou n?o. Ribeiro virou as costas para o rei e partiu pela trilha de pedras, passos largos, quase flutuando, a névoa ondulando sob a pele e o inseto ajeitando-se na palma como dono daquela caminhada. A trilha entrou no mato cerrado. O cheiro mudou, agora havia húmus, folhas apodrecendo, carne que fedia lentamente para virar casca. Dos arbustos vieram sons: um rosnado baixo, um chiado que podia ser aviso. Ribeiro parou, ouviu. Depois estalou os dedos, fez um teatrinho pro inseto e riu baixo, satisfeito, como quem conta piada particular.
— Porra
murmurou, num sussurro sarcástico
— que comece o teatrinho...
E ent?o come?ou. Porque onde Ribeiro passava, o mundo primitivo tinha de contar sua história. A névoa tentou acompanhá-lo, deslizando junto; o inseto grudou-se firme; e atrás deles, longe na pedra, o rei macaco esfregou as m?os, curioso pelo que aquele bando louco traria de volta. N?o muito adiante, algo se remexeu entre as árvores. Um ronco abafado. Ribeiro parou devagar, arquejou os ombros em alarme fingido, os olhos brilhando de antecipa??o. Silencioso como sombra, ele se aproximou. No meio da clareira, um pequeno javali farejava entre as folhas caídas. Pelagem marrom-acinzentada, preto de terra e sangue velho. Ao notar a presen?a do intruso, o animal levantou a cabe?a, olhos arregalados. Foi rápido como raio: Ribeiro investiu. Num só movimento, ele agarrou o pesco?o do bicho com uma m?o e na outra, pegou uma pedra no ch?o e come?ou a bater em sua cabe?a. O grito do porco cortou a mata, sangue quente jorrando das garras do homem. Ribeiro riu alto, um riso que misturava prazer e insanidade. O inseto ainda fitava o boi, como se já entendesse a gra?a macabra da cena.
— Que gracinha, hein?
Ribeiro exclamou, arregalando os olhos como se ele próprio fosse plateia de horror.
— Você tá sangrando bonito, seu porquinho de presas altas. Parece até um belo ensinamento do meu papai… HA!
Ele se inclinou mais perto, a cabe?a do javali amassada, uma quantidade de sangue saia junto.
— Você grita como se estivesse em desespero, porra. Morre praga, morre!
O porco deu os últimos espasmos, ent?o caiu inerte. O ar cheirou forte a ferrugem e carne queimada. Ribeiro levantou-se, enxugou a pedra agora vermelha numa folhagem rasteira e jogou o corpo inerte pra um lado.
— Ah, muito bem, circo tá quente
disse, limpando as costas suadas na palma da m?o.
— Plateia aplaudindo, e o truque foi bom, né?
murmurou para o inseto.
— Valeu pelo espetáculo, pequeno.
A nevoa em seu peito vibrava agora de satisfa??o, pulsando suave. Ribeiro riu baixinho, acompanhado apenas pelo sussurro dos mosquitos. Olhou de soslaio para o animal morto.
— Pronto, chefe
murmurou, olhando pra trilha.
— Tá aí a prova que ele quer. Se é que ainda importa.
N?o deu mais aten??o ao javali. Virou o rosto pro caminho que o inseto apontara. A trilha subia em ziguezague, coberta de raízes e folhas secas. Ele retomou a marcha, passos firmes, o cora??o ainda acelerado. à medida que seguiam adiante, o mundo primitivo voltava ao normal, ajeitando as pe?as pra nova história. Ribeiro falava pra ninguém, tirado, debochado, assustador, suas palavras sumiam no silêncio cerrado da floresta, encontrando riso nas sombras. Atrás dele, o rei ainda observava ao longe (como diabos um animal consegue ver t?o longe ;-;?). No rosto dele, um misto de dúvida e admira??o: até onde um homem pode rir antes de enlouquecer de vez? A coroa de conchas brilhou por último sob a luz do entardecer, enquanto Ribeiro e seus companheiros improváveis sumiam entre as árvores, misturando-se à névoa e à loucura da selva.
[Capítulo 18 em breve… ]
N?o sei muito o que colocar aqui... Boa noite povo, durmam bem, ou bom dia, boa tarde, espero que seu dia seja maravilhoso ??

