O som mudou.
Antes, era apenas o rugido do oceano, um ruído grave, antigo, que pressionava as costelas e fazia o peito acreditar que ainda havia ar lá dentro.
Agora, algo respirava dentro dele, um ritmo estranho, que n?o vinha de fora nem de dentro, mas de uma casa que n?o tinha dono havia eras.
Ribeiro afundava em silêncio. As bolhas que subiam levavam consigo imagens, peda?os de rostos, m?os fazendo coisas que ele n?o reconhecia, uma luz que piscava como feridas à distancia.
N?o sentia panico. N?o sentia sufoco. O corpo obedecia ao mar como se já soubesse o caminho de volta.
A água ao redor tornou-se transparente como vidro. O fundo se dobrou e, por um instante, a gravidade pareceu mudar de ideia: o reflexo de Ribeiro come?ou a se mover com atraso, como uma grava??o antiga, e ent?o houve uma dobra maior, um rasgo calmo no tecido líquido, e uma sala surgiu onde n?o deveria haver nada.
Havia uma mesa. N?o havia ch?o visível, apenas um céu espelhado acima e abaixo. E nesse espelho, ela estava sentada: imóvel como um signo.
Diante dele, Aqua.
N?o uma mulher do mar, mas algo entre a noite e o cosmos. A pele dela era breu pontilhado de luzes, azuladas e violetas, constela??es vivas gravadas na carne. Os cabelos brancos flutuavam, leves, como neblina lunar. No centro da testa, um losango de cristal escuro reluzia. Ao redor do corpo flutuavam espinhos negros, curvos, feitos de sombra sólida. No peito, o símbolo circular, metade olho, metade eclipse, pulsava com um ritmo próprio.
Ela sorriu.
— “Venha cá, pobre alma assolada pelo fogo.”
A voz atravessou Ribeiro por completo. N?o era som; era vibra??o nos ossos, nas juntas, nas lembran?as que ele nem sabia possuir. O oxigênio já havia acabado há quase cinquenta minutos. Ele sorriu com ironia:
— Beleza, vamos ver o que é agora.
Ela inclinou a cabe?a, curiosa, como se toda a noite tivesse vida própria.
— “Tu ardes, mas n?o queimas...”
— “A chama em ti n?o é do sol; é da ruína.”
Houve um instante mais denso, seco. A frase n?o era aviso, era senten?a.
Ribeiro soltou um riso mudo.
— “Ruína”? Que original...
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pensou, flutuando.
— Vou anotar pra usar no meu próximo jantar, senhorita.
Venyra n?o se importou com a ironia; se interessava por o que aquela "caixinha" tinha dentro
Uma fissura abriu-se no líquido à sua volta, e um martelo carmesim emergiu, girando lento, silencioso, batendo em ritmo que lembrava um cora??o já morto. O objeto vinha como um veredito, pesado e antigo.
— “Shade morreu no fogo”
disse ela, voz como filtro de gelo.
— “Porem, a sombra dela n?o morreu. Achou abrigo em mim, na calmaria. E agora respira em ti.”
O nome trouxe algo antigo, como cinzas guardadas em um velho armário. Ribeiro sentiu um toque fraco, íntimo, uma faísca de reconhecimento que n?o era exatamente calma nem dor.
— Shade...? Que nome estranho , e uma piada mo?a?
— Bom... Maldi??o, heran?a ou promo??o?
A pergunta soou t?o nervosa por um segundo, e ele mesmo percebeu. A ironia tentou cobrir o medo; a máscara tremeu.
— “N?o há diferen?a quando o mundo é feito de ciclos”
respondeu Venyra, com a naturalidade de quem comenta chuva.
Ela pousou os dedos no ar entre eles. Onde o toque aconteceu, o espelho líquido dobrou e mostrou retratos de si mesmo: crian?a, adolescente, cicatrizes esquecidas, olhos que n?o eram seus. Uma galeria de um único ser em múltiplas vidas.
— “Olhe pra ti”
disse ela.
— “Qual deles é verdadeiro meu filho?”
— Sei lá
respondeu Ribeiro.
— Tu que és sábia: escolhe. Já que entende mais de mim do que eu (???■?-?■?).
Ele tentou rir outra vez, e a risada quebrou o clima. Venyra segurou por um momento a insistência, como quem tenta extrair um segredo de uma casca fechada. Ribeiro devolveu a quebra com outro trope?o de humor, pequeno, humano demais para um neandertal, e aquilo o salvou dali por segundos.
O martelo brilhou uma última vez, raspando a consciência de Ribeiro com promessa e poder.
E ent?o, como se o mundo decidisse ser honesto, o cenário se desfez: mesa, Venyra, martelo e reflexos, tudo fragmentado de volta ao oceano. A chama dentro dele borbulhava diferente; algo mudara, ainda sem nome.
Ribeiro emergiu à superfície, cuspindo sal e história ao mesmo tempo. O céu parecia comum, cinza, temperado com a luz de sempre, e ainda assim havia um novo rumor nas ondas, mesmo com uma besta desgra?ada lá.
Ele tocou a própria pele: sentiu calor íntimo, besta, como se ali residisse uma brasa disfar?ada de sangue.
Uma onda pequena tremeluziu, cumprimentando-o como quem reconhece alguém por nome. Ribeiro ergueu o rosto e olhou o horizonte. Por um instante esperou ver a sombra colossal deslizando rente à água, mas o espa?o vazio falou mais alto: o Leviathan n?o estava. A superfície guardava apenas o tra?o de onde houvera passado, uma ruga na pele do mar, um silêncio que pesava.
Ribeiro riu, um som curto, meio engasgo, meio alívio, e no riso havia outra coisa: a pequena tristeza de quem perde um perigo que também era promessa de sentido após a perda. Consciente de que algo dentro dele havia acordado, e de que o que passou por ali partiria sem explica??es, ele murmurou para o vento:
— Tá, ent?o. Vamos ver até onde essa “heran?a” é inconveniente.
A maré respondeu com um abra?o frio e satisfeito. E lá embaixo, no muito fundo que ninguém mais veria, ficou um olho antigo que havia observado tudo e, agora, fechava-se.

