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16. Um mundo de bestas

  Houve um instante entre o fim e o come?o.

  Nenhuma lembran?a sobreviveu, apenas uma vontade antiga, líquida e silenciosa, que se recusava a desaparecer.

  Ent?o veio o som distante de um trov?o.

  A vibra??o atravessou o vazio.

  Pela primeira vez, o novo cora??o respondeu.

  Um sopro.

  Um ritmo.

  Vida.

  E, junto dela, o mundo despertou.

  O cume da montanha cortava o horizonte como uma lamina.

  A chuva caía em cordas grossas, riscando o ar com tra?os prateados.

  A casa de pedra e madeira, construída para desafiar o vento, gemia sob a fúria da tempestade.

  Ribeiro, com doze anos, corria pelo pátio enlameado.

  O frio mordia sua pele, mas ele sorria.

  Cada passo era cálculo: onde pisar, quando saltar, como girar o corpo antes que o solo cedesse.

  A tempestade o moldava tanto quanto o tempo.

  Dentro da casa, a m?e o observava.

  M?os firmes, cobertas de argila, moldavam um vaso sobre a madeira giratória.

  Entre um gesto e outro, ela o fitava, avaliando, medindo, amando.

  — “Equlibio, Ribeiro. Fo?a sem contlole é despedício.”

  A voz dela era firme, "furada", mas doce, como o cheiro da terra molhada.

  Perto dali, o pai ajustava um emaranhado de tubos e cordas, tentando coletar a água da chuva sem deixar a estrutura ceder.

  Um homem de mente incomum, que via padr?es no caos.

  O menino o observava com admira??o quase sagrada, imitando cada gesto, gravando o ritmo invisível que guiava as m?os do pai.

  The author's narrative has been misappropriated; report any instances of this story on Amazon.

  Os anos passaram.

  O corpo do garoto cresceu sob o peso das tempestades.

  Ribeiro aprendeu a correr contra o vento, a ouvir o murmúrio das pedras, a compreender a fúria do céu, a furar as correntezas dos oceanos.

  A m?e lhe ensinou precis?o e equilíbrio;

  o pai, engenho e paciência.

  Mas o que nenhum deles p?de ensinar foi o que fazer quando o mundo decide levar quem você ama.

  A m?e foi a primeira.

  Um dilúvio mais violento do que todos os anteriores a arrancou da montanha.

  O rio engoliu o som do nome dela, e o menino ficou só com o eco.

  Chorou até que o pranto se misturasse à chuva.

  Depois, aprendeu a sobreviver em silêncio.

  A dor virou lembran?a.

  A lembran?a, for?a.

  O pai tornou-se seu único farol.

  Humano por fora, mas de mente vastíssima.

  um homem que lia o vento, previa a maré, enxergava lógica no relampago.

  Juntos, construíram, observaram, resistiram.

  Mas até o intelecto mais brilhante tem limite diante do caos.

  Quando o último dilúvio veio, nada p?de detê-lo.

  O mar subiu. Engoliu o vale.

  O pai, obstinado, saiu para enfrentar as águas.

  Ribeiro esperou.

  Esperou até o horizonte desaparecer.

  Dias depois, encontrou-o em uma ca?ada por peixes, frio, marcado pelas feridas que o oceano n?o causaria.

  O silêncio que se seguiu n?o era apenas luto.

  Era a súbita compreens?o de que o mundo n?o se curva a ninguém, nem para uma mente inventora.

  O mundo parou.

  A maré diminuiu.

  A chuva se tornou um sussurro sobre a água sobre sua cabe?a.

  O tempo pareceu hesitar.

  E ent?o ele viu.

  Entre ondas gigantescas e trov?es que retumbavam no céu,

  uma forma colossal rompeu o oceano: o Leviathan.

  O monstro que o pai perseguira por toda a vida.

  a própria tempestade feita de metal e poder.

  O ar vibrou.

  A água se torceu.

  O medo quase arrancou a coragem de Ribeiro.

  Ele sentiu cada gota de chuva sobre a água como um torpedo.

  O cora??o martelava no peito.

  As m?os cerradas.

  Os pés cravados no solo aquático.

  Mas, sob o terror, algo despertou.

  Um lampejo.

  Uma memória sem dono.

  Um instinto que gritava: fique de pé.

  Era a vontade pura de continuar

  a mesma centelha que um dia atravessara mundos.

  Ribeiro ergueu os olhos.

  O Leviathan o fitava, imenso, incompreensível.

  E, sem palavras, sem lembran?as, ele compreendeu:

  aquele era apenas o primeiro passo.

  O mundo era vasto.

  Brutal.

  Magnífico.

  E a tempestade, de alguma forma, o chamava pelo nome.

  Porque até uma fagulha, se recusar a morrer,

  pode incendiar o impossível.

  


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