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15. Uma nova chance

  O frio ali n?o era simples ausência de calor, era ausência de vontade.

  N?o se movia, n?o sussurrava, n?o desejava existir.

  Era um espa?o t?o imóvel que até o ruído havia desistido. Cada passo de Shade estalava como vidro antigo sob press?o, quebrando o próprio silêncio. Qualquer gesto em excesso seria desfeito antes de acontecer.

  Ela avan?ava pelo terreno congelado, cada respira??o medindo ou ar sólido.

  O céu azul-claro parecia distante, e o horizonte gelado a pressionava como se cada peda?o do mundo tentasse empurrá-la para trás.

  As fagulhas de Kairn flutuavam na mente dela, pequenas instru??es que chegavam como sopros, nunca completas, nunca claras.

  A Sombra abra?ava cada tend?o, guiava músculos, transformava matéria em lamina; a voz simples lembrava-a de respirar, de lembrar, de n?o se perder.

  Dentro dela, quatro fios brilhavam.

  Quatro lumes, quatro vozes, almas entrela?adas que, juntas, transformavam-na em arma.

  No início, havia sincronia:

  uma alma media distancia e puxava os quadris;

  outra afinava o ritmo do pulso;

  a terceira moldava a inten??o, pequena e cirúrgica;

  a quarta sustentou a fome, mantendo-a de pé diante do medo.

  O corpo respondia como uma orquestra regida por quem conhecia cada nota.

  O vento gelado trouxe algo diferente. Um peso no ar, quase líquido, que n?o chega ao frio morto.

  No horizonte, sombras e luzes se fundiam em um azul-neon profundo.

  Havia presen?a, viva, antiga, esmagadora. N?o era apenas energia: era consciência selada, pulsando, medindo, atenta à intrusa que se aproximava.

  Ent?o, lentamente, a forma se delineou.

  Um corpo humanoide, mas distorcido pelo poder: chamas contidas como veias de lava, bra?os longos que terminavam em garras sutis de fogo azul.

  O selo pulsava em seu peito, como um cora??o aprisionado, e a magnitude da chama neon fazia Shade recuar um passo.

  Ela sabia: ali era alguém que poderia dissolver cidades inteiras com um gesto.

  O semideus (que o capítulo anterior apenas mencionava) agora se mostrava: monumento vivo de poder contido, e mesmo selado, exalava amea?a e história.

  Shade engoliu o frio que n?o queimava, mas drenava vontade, e por um instante, sentiu uma fagulha tênue do calor de Kairn pulsar no bra?o, lembrando-a de que n?o caminhava sozinha.

  As vozes internas se ajustaram, tentando compartilhar a press?o do momento.

  A Sombra esticou-se, firme, pronta para guiar, antecipando movimentos antes mesmo que a mente pudesse formar planos.

  Kairn aparece como fagulha, briga, mas insistente, dando instru??es curtas e desesperadas.

  Ela respirou fundo, mediu o espa?o entre ela e o ser selado, e deu o primeiro passo em dire??o ao destino.

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  O frio denso do território pressionava cada músculo, cada fio de vontade.

  A orquestra interna come?ava a vacilar, pequenas hesita??es, dúvidas, medos que se infiltravam entre as quatro almas.

  E ainda assim, havia determina??o.

  O confronto real estava prestes a come?ar...

  O corpo de Shade tremia sob um frio que n?o queimava, apenas drenava vontade. Cada passo custava esfor?o descomunal; cada respira??o era sopro de lembran?a. As quatro almas naquela cascata lutaram em uníssono: uma sustentava o corpo, outra preservava memória e propósito, a terceira calculava movimentos, a quarta alimentava a fome de sobrevivência. Juntas, eram uma orquestra contra o impossível.

  O selo azul-neon pulsava, pesado, medindo, absorvendo. Shade avan?ou. A lamina de Sombra cortou o ar com um silvo sombrio. O selo respondeu, onda invisível atravessou músculos e tend?es, apagando fagulhas internas. Ela cambaleou, mas a vontade ainda persistia, translúcida, líquida, teimosa.

  — “N?o lute contra o que n?o entende, nyxari defeituoso.”

  A voz do semideus atravessou o espa?o, firme, quase cruel. Cada palavra perfurava coragem e carne.

  Shade reuniu as últimas fagulhas de Kairn, moldando outra lamina. A Sombra se contorce, dividindo energia, protegendo membros e tend?es enquanto Kairn tremia, lan?ando fagulhas desesperadas. Cada custa defesava sangue, memória, fragmentos de si mesma.

  O semideus n?o precisou tocar. Um gesto mínimo apagou o calor que a mantinha de pé. Ela caiu de joelhos, erguendo a m?o fraca, impulso inútil contra a maré impossível.

  — “N-N?O… POR FAVOR… só mais uma chance…”

  O sussurro ecoou, quebradi?o, no vazio gelado. Mas a vontade ainda dan?ava, líquida, tentando agarrar a vida que escapava. Shade sincronizou as quatro almas, atacou com resultados cirúrgicos, cada golpe de Sombra, cada fagulha de Kairn, cada fibra do corpo em uníssono. Mas o selo era muro, tempestade, avalanche de chamas neons. Ela era chamada tentando soprar contra o impossível.

  O ch?o estalou. Faíscas voaram. ó, você vibra. Cada ataque falha antes de tocar o alvo; cada impacto retornou em ondas de dor. Ela cambaleou, respirando com dificuldade, frio, suor e sangue misturado. Cada estalo lembrava: ela n?o resistiria por muito tempo.

  O corpo cedeu. A última lamina se dispersou em fuma?a. Kairn se apagou. A Sombra se recolheu, deixando apenas memória do que havia sido.

  A vontade de Shade surgiu uma última vez, translúcida, líquida, teimosa. Tentou puxar a vida, gritar promessas, segurar tudo o que era seu, mas n?o havia corpo para recebê-la.

  — “N?O… N?O PODE… POR FAVOR… MAIS UMA CHANCE!”

  O rugido ecológico ou, invisível, ineficaz. O gelo do território envolveu cada resquício de movimento. O selo pulsou azul-neon, imutável, indiferente.

  No silêncio absoluto, restou apenas um sopro: resistência líquida, fugaz, impossível de apagar. Um fio de vida que tentei desafiar o impossível e falhou.

  Shade morreu ali. Mas a vontade dela persistiu, solta, fluida, viajando pelo espa?o gelado. Um eco de quem ousou tocar limites que ninguém mais veria. No azul-neon do selo, n?o restou apenas lembran?a. Restou o estalo de uma chama que queria mais que a própria vida, dan?ando contra o impossível até o último instante.

  Shade se despertou em um lugar de beleza impossível. Luzes suaves dan?avam pelo ar, núcleos que n?o pertenciam ao mundo, aromas que além disso guardavam histórias de eras esquecidas.

  à sua frente, um ser emanava presen?a absoluta, só poderia ser um ser superior. Ela tentou falar, mas nada saiu. Nenhuma voz. Nenhum som. Um silêncio profundo que a fez perceber algo perturbador: n?o havia vozes dentro dela. Onde estavam Kairn e a Sombra? O que aconteceu?

  A confus?o tomou por instantes, mas ela deixou as perguntas de lado quando o ser se mudou e tocou no assunto que parecia central: ela.

  — “Deseja voltar?”

  a pergunta n?o foi ouvida com os ouvidos, mas sentida, direta na mente.

  De alguma forma, Shade específicas. Um entendimento silencioso, absoluto, sem necessidade de palavras.

  O ser avan?ou. Um gesto delicado, quase carinhoso. O dedo médio tocou o que seria sua testa.

  Num piscar de olhos, tudo que era lembran?a se esvaiu. Desapareceu, como se nunca tivesse existido. N?o houve dor, n?o houve choque, apenas vazio, silencioso e absoluto.

  O ser n?o terminou ali. Inclinando o indicador dedo, perfurou o que seria sua cabe?a, e ent?o Shade despertou novamente.

  Agora estava em um ber?o, envolto em calor e cheiro de vida recém-nascida. Um ser peludo, amamente-o com cuidado. O mundo era outro. Ela era outra.

  E, no fundo, algo insistia, um fio de consciência, translúcido e inquieto, lembrando que a história n?o havia acabado, só estava come?ando...

  Ou... Tudo isso foi um mero sonho?

  


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