"Tu fala como jumento ou como sábio. Vai estudar."
A névoa sibilou, irritada, uma sombra viva.
— "Ele te chamou de burro educado."
— Cale boca-te…
— Mas ele tá certo. Me sinto um animal lendo mapa ao contrário.
A Biblioteca Arcaica ficava umas quadras acima do Coliseu. Por fora: torre espiralada. Por dentro: espa?o que respirava. A runa neutra na porta tremia, dobrando o tempo com calma perigosa.
Assim que entrou, o mundo murchou de som.
Estantes subiam como costelas. Livros murmuravam mana. Tudo olhava Ribeiro como se perguntasse:
“Tu sabe ler, criatura?”
1 — Dez dias em dez horas
Ribeiro tocou um grimório e resmungou:
— Porra… cadê o tutorial?
A névoa estalou; ploc, um peda?o dela caiu no ch?o e tomou forma: um mini-ser de fuma?a negra, do tamanho de um rato, bra?os cruzados, olhos de brasa.
— "Oi."
— O que é isso? Um… inseto?
— "Sou eu animal, lembra n?o? ü"
— Por que saiu de lá?
— "Consegui escapar da zona que tu chama de cérebro."
Ribeiro pisou, reflexo. Nada.
— "Quanta intolerancia."
— Vai ti fude, inseto.
— "Você pisa. Mas eu é que sou burro?"
o inseto devolveu com calma.
E come?ou o estudo.
Levita??o (básica). A pedra subiu cinco centímetros e caiu.
— Que bosta.
— "Tu pede pro vento e chama de “talento”, jumento."
Bola de fogo. Explodiu bonito; metade do manto virou inexistente. Ribeiro olhou o buraco na roupa.
— …eu... Sou mana pura.
— "Parabéns, Sherlock."
Ele encontrou termos que voltavam: runa neutra, condensa??o, esqueleto de mana, tríades. Rabiscou, testou, quebrou regras.
Condensa??o de Mana, vers?o prática
Ribeiro aprendeu a comprimir a névoa num ponto: n?o era só magia, era extens?o do corpo. A condensa??o forma um núcleo denso de mana que se modela, laminas etéreas, pequenos escudos, ou um núcleo para alimentar invoca??es fracas. Para alguém comum, é gasto de vida; para Ribeiro, a névoa é o combustível e o esqueleto: o custo “n?o aparece” da forma usual, é o corpo reformando-se.
Nota: transferir consciência para um objeto com condensa??o funciona por instantes. Sem um esqueleto de mana real (o corpo dele), a consciência desbota. Roubo poderoso — mas instável.
Testes práticos:
Runa Neutra
Estabilizar: desenhou um anel de mana; o tempo dentro murchou por alguns segundos. Doeu no peito.
Faísca Astral: condensou uma lamina azul no punho; cortou um tomo. Cheiro de oz?nio. Pre?o: um pulso fraco, batimentos lentos.
Dez dias lá dentro. Dez horas fora.
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A runa neutra sorriu em silêncio.
2 — As Estrelas (tudo o que Ribeiro rabiscou)
No décimo dia encontrou um tomo com um céu dividido em dez.
As runas acenderam e ele leu, anotando com letra torta:
O criador dessas artes era o Deus Superior, Zenerity: o Deus das Estrelas.
O tomo dizia que, em um passado remoto, seus seguidores, uma ra?a que n?o era deste mundo, herdavam esses dons já no nascimento, como quem respira.
3 Pontas — Parar Ciclos: interrompe UM elemento de ciclo por vez (vida/morte/renascimento), se o ciclo tiver três elementos. Efeito cessa com a morte do usuário.
4 Pontas — Controle Elemental + Corpo Aprimorado: manipula qualquer elemento; +30% de defesa. N?o dá imunidade.
5 Pontas — For?a Expandida & Invoca??o: +50% em todos os status. Invoca e rasga véus para outras dimens?es do mesmo planeta. (Capella.)
6 Pontas — Divis?o & Cria??o: separa ou funde matéria; falha vira aberra??o.
7 Pontas — Voz que Muda o Mundo: palavras alteram a realidade; pre?o proporcional ao absurdo.
8 Pontas — Viagem Temporal: possess?o de outras eras; risco de perder-se.
9 Pontas — O Nome Divino: acumula nomes e for?as do divino; conceito em ato.
10 Pontas — O Inefável: além do divino; possuir distorce o véu por existir.
Ribeiro encarou a 5a. Pensou em Capella. Pensou em perigo.
— "A nove e a dez seriam divertidas"
o mini-inseto cutucou.
— "Se você quisesse explodir a realidade."
— Cala a boca, bicho estranho.
3 — O mini-bicho: a sombra que aprendeu a reclamar
N?o era outro ser: era fragmento da névoa fundidos nos resquícios do Inseto. Quando ela se comprimira, parte da consciência ficou petrificada ali, resquícios com vontade própria. Agora domesticado, o bicho falava, insultava, observava, mas faltava-lhe massa. Podia gesticular, emitir ordens curtas, mas magia duradoura? N?o.
Ribeiro anotou: névoa = esqueleto fluido. Comprimir cria ecos de consciência. Práticos, úteis; jamais completos.
— Tu fala demais.
Ribeiro disse.
— "Tu pisa muito."
Ele devolveu.
— "Equilíbrio... Hehe"
4 — Corpo-Esfera: experimento tolo, resultado doce
Por tédio e carinho, Ribeiro condensou mana em esfera translúcida, do tamanho de uma cabe?a, e ofereceu para o bicho. Ele entrou e ganhou voz firme por minutos. A esfera andou, tintilou, bateu numa estante; livros tossiram pó de mana.
Dura??o: minutos. Custo: Ribeiro sentiu um cansa?o estranho, troco direto de essência.
— "Tu me deu perna."
a névoa/bicho murmurou, com voz de vidro.
— N?o chama de perna, chama de esfera com atitude.
Ribeiro riu.
Guardou a esfera no bolso. N?o admitiria.
5 — Volta ao Coliseu
Ele saiu com o peito rachando de informa??o, e de perguntas.
Capella estava. Thua, também.
— Pronto. Estudei.
— "Quanto tempo?"
Capella perguntou
— Dez dias.
— "Mas... Se saiu só a algumas horas para lá fora"
Ela ergueu sobrancelha.
— é... Biblioteca bugada.
Ribeiro respirou fundo.
— Capella… tu conhece Zenerity?
Ela sorriu daquele jeito macio, quase musical.
— "CLAROOOO! Ele nos salvou! Tirou a fome! Nos guiou! Limpou nossos pecados! Aliás — onde ele tá? Você viu ele por aí???"
Ribeiro encarou o ch?o.
— …Ent?o.
Ele engoliu seco.
— A gente… tacou ele na cruz.
O silêncio caiu pesado.
Tipo chumbo espiritual.
Capella piscou uma vez. Depois outra. Bem devagar.
— "Desculpa. Como é?"
— E depois tacou fogo… (?′? ?.? ?.?? ?.? ?`?)
Ele suspirou.
— A humanidade achou que ele era impostor. Aí, mil anos depois, ele voltou… vers?o buffada, super luz, edi??o deluxe… e a gente expulsou de novo.
— E antes de ir, ele deixou uma profecia: destrui??o geral. Timer do apocalipse. N?o me pergunta como eu sei. Eu só sei. ;-;
Ela n?o sorriu. N?o reclamou.
Só ficou ali… absorvendo o desastre inteiro.
— "Vocês… s?o realmente eficientes em destruir quem salva vocês."
Ribeiro deu de ombros.
— Pois é. Se tem uma coisa que a gente faz bem… é burrice histórica.
A pausa disso tudo cortou mais que lamina.
6 — Humanos Puros
Ribeiro abriu o tomo numa página fragmentada:
— Humanos Puros. N?o têm tríades. Quando morrem, morrem. Sem renascimento, sem resquício.
— "Vazios? Espera... Se roubou este livro?"
Capella perguntou.
— Vazios… e perigosos. Alguém tentou dissecar um. E eu só peguei emprestado sem tempo de validade, relaxa, e sem avisar também :3.
Capella empalideceu. O vento soprou baixo, como um mundo que pediu desculpas e n?o tinha como entregar.
7 — Conclus?o nada épica (mas sugestiva)
— Enfim…
Ribeiro ergueu a m?o
— agora eu sei condensar mana, levitar e duas magias básicas.
— "Parabéns."
Capella: seca.
— "Bela de umas bostas, nunca use."
— Nem vou.
A névoa "deu um tapa" no ombro dele.
— "Conta da bola de fogo."
— Cala a boca, inseto.
— "INSULTO! EU NUNCA ME MISTURARIA COM AQUELA COISA"
Thua resmungou:
— "Pelo menos tu n?o é mais um jumento completo."
— Sou meio-jumento.
— "Aceito isso."
Ribeiro saiu com um segredo no bolso: uma esfera de mana, quieta, brilhando como se tivesse batimentos. Ele n?o admitiria que a olharia de vez em quando. Nem que sentia, por instantes, o peso de um corpo que n?o era só dele.
E o conhecimento? Arma e promessa. O mundo ia precisar desse tipo de loucura logo, muito antes do que todos imaginavam.

