A poeira ainda n?o decidira onde cair. Flutuava por inércia, como se o ar estivesse indeciso em retomar a rotina comum depois do estrondo de ontem. Capella dormitava de olhos meio fechados numa maca improvisada; o bra?o enfaixado, o corte dimensional ardendo como lembran?a. Mesmo assim, os Olhos de Ad?o n?o desligavam por completo: brilhos minguados dan?avam por trás das pálpebras, como memórias teimosas.
Ribeiro entrou devagar. A névoa recolheu-se por um segundo antes de o soltar no canto da sala. Ele trouxe nas mangas o jeito de quem carrega notícia e vontade de zoar ao mesmo tempo.
— Tá vendo?
murmurou, pousando o pé na borda do estrado com a leveza de quem testa se o mundo ainda responde.
— A cidade tá fervendo. Todo mundo dizendo que tu rachou o tecido do mundo só pra salvar a audiência.
Capella virou a cabe?a com lentid?o. Um meio sorriso veio, seco.
— "Salvei. N?o fiz teatro."
A porta rangeu. Thua entrou sem pedir licen?a — o mesmo que, minutos antes, escolhera baixar a lamina e ceder à lógica de existir. O corpo ainda tinha pequenas faíscas de metal no encaixe das juntas; o colar de Van’Glas pendia calmo, carregando poeira do campo de batalha. O olhar dele vinha pesado: n?o era só o peso do golpe, era o de quem ouvira algo que n?o cabe em explica??es simples.
— "Já ouviram falar de… platinadas?"
perguntou Thua, e n?o parecia uma aula: parecia um aviso.
Ribeiro piscou rápido.
— "Platinadas? Cara… achei que isso era só nome bonito de alguma coisa rara. Tipo “pote premium”. Ou uma droga, tipo... "Já ouviram falar de... Verdinha?""
Thua n?o sorriu. Sentou-se devagar, como se qualquer movimento pudesse reabrir algo invisível.
— "N?o é brincadeira. Vocês conhecem as douradas. As histórias, pelo menos. O que apareceu ontem tinha aquela presen?a… só que pior. As douradas ecoam. A platina… devolve. Julga."
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Capella franziu as sobrancelhas.
— “"Devolve”? Explica."
Ele passou a m?o no peito, como quem ainda sente arranh?es que n?o deixam marca.
— "N?o sei explicar como vocês querem. N?o é mecanismo. é… um sentido no mundo que mede inten??o. Quando aquilo tocou o constructo, n?o foi resposta mecanica. Foi como se o espa?o pedisse justificativa. A pe?a-m?e reagiu como quem reconhece crime."
Ribeiro riu baixo, desconfortável:
— Tu tá dizendo que árvore julga? Tipo… chega lá, olha pra pessoa e dá nota?
— "N?o é nota"
disse Thua, firme.
— "é ordem. E n?o é algo que se estuda. Eu senti. Quando Capella abriu o microportal, aquilo… mediu. Mediu nós dois. E eu recuei porque percebi que avan?ar ia for?ar uma resposta que n?o temos como segurar."
Capella respirou fundo.
— "Tá. Mas tu fala como se a gente tivesse manual disso. “Ordem”, “julga”, “mede”… ninguém aqui foi introduzido a esse vocabulário. Estamos às cegas."
Thua ergueu a m?o em um gesto lento.
— "Eu também. Só tenho experiência. E uma no??o clara: algumas respostas puxam perguntas que n?o queremos que encontrem a gente."
Ribeiro levantou a m?o num gesto meio humorado, meio nervoso:
— Ent?o resumo da ópera: n?o tocar, n?o fotografar, n?o levar de lembran?a… certo? E posso cobrar foto, pelo menos?
Capella nem abriu o olho completamente.
— "N?o. Nem foto."
A névoa de Ribeiro estremeceu em irrita??o curta.
O silêncio que veio depois foi espesso. A sala respirou junto com eles. E Thua olhou para a janela, a luz da tarde cortando seu rosto de metal como se o mundo o tivesse marcado.
— "Eu voltei porque escolhi voltar"
disse ele.
— "N?o é ca?a. é encontro. Ou puni??o. Quando a coisa te escolhe, o mundo rearranja o caminho. O que era seguro ontem vira muralha viva hoje. Por estratégia, por prudência… n?o sejamos nós os primeiros idiotas a cutucar isso."
Capella assentiu, a m?o apertando o cajado.
— Ent?o que n?o sejamos nós. Por cálculo. Por respeito. E por sobrevivência.
Ribeiro soltou um riso minúsculo:
— Beleza. N?o toco em nada.
Thua levantou-se devagar. Antes de sair, olhou para Capella com um peso honesto.
— "Tu foste longe ontem. Quase rasgou o véu de vez."
Ela fechou os olhos por um instante. A dor do corte reacendeu, mas a memória veio antes: a pluma, o julgamento, a escolha.
— "Quase.."
respondeu.
— "E quase nunca é suficiente..."
Quando Thua saiu, a sala retomou sua micro-rotina de vozes e passos. A cidade falaria naquela noite, e em muitas outras, sobre “platinadas”. Um rumor que cheirava a perigo e ambi??o. Capella apoiou a m?o no cajado, sentiu a madeira quente, e pensou nas árvores que n?o se deve perturbar.
Lá fora, a névoa de Ribeiro lembrou a cidade: há coisas sagradas por direito próprio. E haveria outros que, por descuido ou ganancia, aprenderiam isso do jeito mais velho, pele cortada, corrida, e às vezes… o fim.
Fim do capítulo.

