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42. O floreto dos constructos

  O anúncio caiu como senten?a: “Construto Arcaico, vigésimo entre os de sua espécie. Oitomil pe?as.” A informa??o atravessou as arquibancadas e deixou um rastro frio. O público encolheu como se o ar tivesse afinado; houve quem mordeu o lábio, quem enfiou a m?o no bolso das apostas e quem simplesmente ergueu o rosto, incapaz de desviar os olhos.

  Quando o Lego entrou, n?o veio feito monstro, mas como uma promessa de reorganiza??o. A carapa?a reluzia com mapas indecifráveis; o núcleo no peito pulsava com luz de estrela sufocada. Cada junta chispeava um clique metálico, e o ch?o sob seus passos sussurrou possibilidades... Muralhas, colunas, laminas, enxames. N?o era apenas um adversário. Era um sistema.

  Capella atravessou a arena como quem atravessa um vórtice doméstico: sem pressa, rigorosa. O cajado das mil vidas pendia tranqüilo na m?o que mais tarde faria a diferen?a. N?o havia teatro em seu andar; havia cálculo. Antes de qualquer gesto, seus olhos, os Olhos de Ad?o, afastaram camadas de luz. O mundo, para ela, abriu-se em espectros: ultravioletas, infravermelhos, microdilata??es que tremiam como respira??es.

  A primeira investida do Lego n?o foi ataque. Foi método: o corpo se dissolveu em milhares de blocos que se reorganizaram no ar em colunas girantes, em laminas que dan?avam independentes, em carteis de protuberancias que mordiam o vento. O som do movimento era uma chuva de metal: click, click, click. A massa girou, virou parede, e ent?o serpentearam pequenas hordas de pe?as, tentando enquadrá-la.

  Capella n?o abriu o espa?o. Ainda n?o. Ela come?ou por pequenos cortes: baforadas de fenda, listras azuis que riscaram o ar e tocaram a superfície dos blocos. Nada de espetáculo, cortes curtos, precisos, que arrancavam conex?es e provocavam recomposi??es parciais. Onde a fenda passava, as pe?as emitiram faíscas e, por um instante, perderam o ritmo; minutos depois, o enxame as reintegrou. Cada golpe era ciência: era medir elasticidade, ver o tempo que uma junta levava para se reatar.

  A plateia fazia um som dividido entre espanto e análise: n?o era óbvio, era técnico. O Patr?o cruzou os dedos; apostadores riscaram cadernos; alguns praguejaram.

  O construto replicou com estratégia. Criou blocos maiores que pulsavam falso, falsas pe?as-m?e, artifícios para confundir sensores humanos ou olhos mágicos. Montou armadilhas de movimento caótico: redemoinhos que for?avam Capella a recalcular o mínimo gesto, tempestades de partículas que dan?avam em padr?es aleatórios. Atacar ao acaso significaria cortar o próprio caminho.

  Capella ent?o ativou integralmente os Olhos de Ad?o. à luz dos múltiplos espectros, o mundo mudou: pequenas varia??es de calor, um leve atrito eletromagnético, micro-dilata??es temporais, entre tudo isso, um padr?o distinto. No meio de milhares de blocos, um pequeno componente respirava com compasso diferente; expandia uma fra??o de centímetro, contraía, e fazia isso num compasso que lembrava latido de máquina. N?o era cor, n?o era brilho. Era comportamento.

  Ela sorriu, um gesto quase imperceptível; o sorriso de quem encontra a última pe?a de um quebra-cabe?a. Sabia o que precisava fazer, e sabia o pre?o.

  O plano era cruamente simples e mortal: abrir um microportal, estreito como a palma de uma m?o, para um plano onde a matéria queimada n?o deve se recompor, um universo de corros?o ativa, um espa?o cujo próprio tecido devora formas que n?o pertencem. Jogar a pe?a-m?e ali significava exterminar a sincroniza??o do Lego por completo. Mas abrir essa garganta implicava risco direto: qualquer erro poderia sugá-la uma fra??o, prender parte dela no vórtice, ou devolver para a arena detritos letais.

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  O gesto que iniciou o portal foi minúsculo. O cajado descreveu arcos t?o finos que, para a maioria, pareceram insignificantes. O ar ao redor da ferramenta enrugou-se; um fio azul-negro rompeu o mundo e tremulou como uma lamina de sombra. O microportal abriu, uma ferida curta no tecido do espa?o, tremendo e quente. Um cheiro de cristal queimado e chuva ácida trouxe um silêncio novo.

  O Lego percebeu. Em seguida, suas pe?as fizeram o que sabiam: multiplicaram imita??es, comprimiram-se, e empurraram um volume massivo de fragmentos na dire??o do portal, tentando encher o corte com ruído. O campo virou redemoinho: fragmentos voavam, espirais de metal queriam cortar a abertura, e as falsas pe?as latejavam com brilho enganoso.

  O primeiro erro veio como rea??o natural: detritos foram cuspidos de volta pelo portal. Uma faísca de plasma beijou o ombro de Capella. A dor veio como ferro abrasando carne, n?o mortal, mas suficiente para roubar a calma de qualquer alma que n?o fosse afeita à beira da extin??o. A arquibancada prendeu a respira??o; alguém vomitou; um velho sussurrou uma prece.

  Ela n?o hesitou. Em vez de recuar, ergueu a outra m?o e p?s-na no compasso que sentira pelo Olho: um toque cirúrgico naquela pe?a ínfima que se comportava diferente. Pousou o dedo. A pe?a era menor que um polegar, quente de frequências estranhas, e tremia como núcleo. O contato foi imediato e brutal: o microportal ingeriu a matéria, primeiro sussurro, depois suc??o, e a pe?a desapareceu, sugada como se um dedo do próprio universo puxasse o fio da coisa. O portal murchou e fechou de golpe, como se a própria ferida se curasse ao devolver o que n?o devia existir ali.

  Sem núcleo, a sincronia que alimentava o conjunto estourou. O que era orquestra virou estática. As oito mil partes perderam o compasso; o movimento coletivo se desfez num colapso metálico. A massa caiu, fragmentos caíram e rolaram, blocos que antes obedeciam a um compasso lógico agora estavam soltos, inertes. O construto n?o explodiu em luz gloriosa; desabou em som seco, quase doméstico, como brinquedos sendo derrubados de uma prateleira.

  Por três batidas de cora??o, ninguém respirou. Depois, a arena explodiu: aplausos, gritos, alguém chorando de alívio, outro praguejando de raiva. Capella ficou de joelhos, apoiada no cajado, o corpo tremente. A pequena cicatriz dimensional no ombro ardia como ferro quente em pele. O pre?o havia sido caro, uma parte do mundo cortada e costurada de novo com sangue e suor.

  Os médicos correram (que raro...). O Patr?o gritou instru??es, já calculando repercuss?es. Do público, veio uma mistura de admira??o e temor: haviam presenciado uma solu??o que poucos ousariam tentar. Capella limpou os lábios com a parte de trás da m?o; seus olhos, ainda espelhando espectros, voltaram ao plano imediato: a arena, o ch?o, o pó.

  Ela sabia o que havia feito. Sabia também do que pagara. O corte deixou uma marca n?o apenas no corpo, mas na praxe dela, um lembrete de que manipular o tecido dos mundos tem custos. E, conforme erguia-se com lentid?o, apoiando-se no cajado que agora tremia menos, pensou no próximo passo: se ela vencera um monstro forjado por eras, a quest?o que ardia mais que a ferida era outra, quem, além do público, observara aquilo com olhos que mediam possibilidades e perigos?

  A resposta n?o importava naquele instante. A vitória soava suficiente. A plateia fazia-se ruído de tempestade; especula??es cresceriam pela noite adentro. Capella respirou fundo, absorvendo a aten??o, transformando o pre?o em fatos: a faca que rompeu o véu fora devolvida a seu descanso, por hora, e o mundo recalibrava o que considerava possível.

  Quando os médicos a levaram para avalia??o, as conversas na arquibancada n?o cessaram. Alguma palavra se repetia em sussurros: “Nem... fudendo.... Ela fez o impossível! '-'” E alguém, mais calmo, completou: “Mas isso sempre cobra algo...”

  A arena recolheu os fragmentos do construto, e a poeira do confronto ficou flutuando como memória. Capella, deitada numa maca, fechou os olhos por um segundo, n?o por cansa?o, mas para medir a dor, a vitória, o pre?o e o que vinha depois. Em algum lugar além das arquibancadas, a cidade respirava com ela, mudada, porque vira uma guerra que rasgara o espa?o por um segundo e voltara inteira, mais frágil e mais cheia de possíveis.

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