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41. A pureza que rompe o véu

  A arquibancada ainda reverberava o que acabara de acontecer: o rastro de alguém que dobrava regras e fazia o ar hesitar. Ribeiro subiu os degraus com a calma de quem atravessa um sal?o sabendo que o mundo se abrirá para ele, e o mundo, por hábito, abriu. Pessoas se escancararam como se a presen?a dele reordenasse o espa?o: crian?as grudaram nas grades, apostadores ajeitaram contas com dedos trêmulos, um homem grande murmurou uma ora??o sem perceber.

  Ele sentiu primeiro, antes de ver: uma costura fora da cadência das inten??es humanas. Um ping, fino, que denunciava objeto com lei própria. N?o era técnica de arena; era m?o de espectador mexendo em ferramenta proibida. Ribeiro desceu entre as filas sem alarde. O homem que apertava o amuleto sorriu como quem tem trunfo, uma pedra escura, venosa, com um fio de luz dentro, pronta para transformar a plateia em instrumento.

  Ribeiro tocou a m?o dele. O sorriso quebrou em silêncio.

  A névoa que o acompanhava investigou o objeto e o engoliu. N?o houve explos?o; houve o som seco de algo que reconheceu inutilidade. O amuleto virou pó. O homem desabou, at?nito, pernas bambas, como alguém que foi devolvido à op??o de escolher entre viver ou ser lembrado apenas como catástrofe.

  — N?o é hora

  disse Ribeiro, empurrando o sujeito para a saída com a mesma naturalidade com que se limpa pó de um casaco.

  — Ainda tem espetáculo pra vender.

  O Patr?o prendeu a respira??o; a arena precisava recuperar o pulso. Ribeiro voltou ao assento, ajeitou o manto e deixou escapar um meio sorriso, licen?a tácita para a zoeira contida. Era aquele momento em que o perigo cedera lugar ao entretenimento, por ora.

  No centro, a luta come?ou.

  Thua Dios era presen?a tect?nica: teryts moldado em metal "ponta de agulha", cristais vibrando sob a pele como cordas tensas. Sua katana, feita da rara madeira de plumas de ouro, descansava na m?o; o colar de Van’Glas pendia ao peito, pronto para absorver o primeiro impacto sério. Do outro lado, Capella Vahn Adins parecia rasgar o pano do visível: olhos que multiplicavam comprimentos de onda, o cajado das 1000 vidas pronto para traduzir espa?o em inten??o.

  Ribeiro deu o primeiro suspiro de irreverência.

  — Bonito

  murmurou.

  — Parece casamento.

  A névoa riu baixinho.

  Ribeiro simplesmente sumiu.

  Reapareceu equilibrado em cima da lamina de Thua, pernas cruzadas como quem espera o próximo ?nibus. O peso mínimo, mas ainda assim real, fez o golem vacilar por uma fra??o. Ribeiro inclinou o corpo, empurrando a ponta da katana com o pé, como quem cutuca um amigo só pra ver a rea??o.

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  — Vai. Mostra pro povo que é mais que peito e brilho.

  Desapareceu de novo, como um borr?o úmido.

  A névoa se juntou sobre a arena e, num suspiro, ele pousou bem no topo da cabe?a de Capella, leve como poeira, balan?ando os pés no ar.

  — Rapaiz… cuidado com o véu

  disse quase num canto, como se desse um conselho íntimo no meio do caos.

  — N?o vai arrancar a sobrancelha... Hein.

  O sorriso dele parecia desenhado com vento frio.

  Capella reprimiu um sorriso e retomou a concentra??o. A plateia oscilou entre o riso contido e a tens?o; o Patr?o fechava as m?os por baixo da mesa, lembrando que cada segundo era aposta e conta a ajustar.

  A luta subiu de tom. Capella abriu uma fenda no ar que sugou vento e cuspiu fogo de outra dimens?o; criaturazinhas afiadíssimas e saltitantes emergiram, n?o para dilacerar, mas para desviar aten??o, for?ar movimentos. Thua ativou a maestria herdada do deus da guerra: linhas de ataque surgiram no campo de vis?o, tra?ados que descreviam vetores, frestas onde golpes encaixariam. Era como ver, em régua, as probabilidades do confronto.

  Thua avan?ou com a katana. Faíscas voaram. O colar de Van’Glas absorveu o primeiro corte, o artefato brilhou e converteu o impacto em silêncio. Houve um suspiro coletivo: o inventário cumprira sua fun??o.

  Capella, encontra?vel e precisa, calculou além do bruto. Com olhos que viam espectros, tra?ou uma linha pelo ar, uma fenda pensada para comprimir exatamente onde o cristal de Thua reluzia demais. Se a técnica encaixasse num crítico maior do que quinze, naquele ponto, a regenera??o poderia falhar; o núcleo, fonte da sua essência, correria risco de se expor. A informa??o piscou na cabe?a de Thua como advertência num painel: crit > 15 = perder tudo.

  O mundo contraiu-se naquele número. A fobia dele, um medo primitivo da ruína, da aniquila??o, encontrou-se com a matemática cruenta do combate. A katana desviou um palmo. O colar brilhou pronto para agir, mas havia consequência estrutural além do que podia simplesmente engolir. Thua procurou uma saída que preservasse honra e existência; n?o achou.

  Respirou, e a decis?o foi rápida e fria.

  — "N?o..."

  disse, a voz áspera como metal sendo retificado.

  — "N?o... é hora."

  Largou a katana. O som foi seco, quase íntimo, e a arquibancada reagiu como se alguém arrancasse uma página do livro. Capella interrompeu a técnica; as criaturas invocadas murcharam e se dispersaram. Thua ajoelhou-se, n?o por espetáculo, mas por cálculo: recuar para existir, recuar para talvez nascer outro dia com mais tempo e menos brilho perigoso.

  Ribeiro pousou ao lado, sem teatralidade. Olhou para Thua com aquela curiosidade calma que se reserva a máquinas que hesitam antes de quebrar.

  — Volta pra forja, grand?o

  disse ele, com voz baixa e sem deboche.

  — Conserta esse brilho. Prefiro te ver inteiro amanh?.

  A fala n?o humilhou; foi uma ordem condescendente, quase médica: conserte-se. Capella recolheu o cajado, os olhos ainda cintilando em múltiplos comprimentos, havia respeito por quem sabe quando recuar.

  A arquibancada explodiu em rea??es diversas: vaias de alguns, suspiros de alívio de outros, murmúrios que se tornaram ondas. O Patr?o bateu a m?o na testa; apostadores recalcularam probabilidades. Um punhado desmaiou, um outro gargalhou nervoso. O espetáculo terminara sem sangue, mas com uma picada de realidade que ninguém esqueceria.

  Ribeiro ergueu o manto, deixando o humor escorrer como óleo. A última frase foi seca, firme:

  — Chamem mais. Mas sem truques. Aqui é luta, n?o expediente para pe?as escondidas.

  E desapareceu antes que o eco completasse a curva.

  No rescaldo, ficou claro: onde Ribeiro pisava, o mundo recalculava suas regras. N?o por espetáculo, mas porque havia alguém disposto a dizer, com a??es e palavras curtas, até onde as coisas podiam ir.

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