A arquibancada ainda reverberava o que acabara de acontecer: o rastro de alguém que dobrava regras e fazia o ar hesitar. Ribeiro subiu os degraus com a calma de quem atravessa um sal?o sabendo que o mundo se abrirá para ele, e o mundo, por hábito, abriu. Pessoas se escancararam como se a presen?a dele reordenasse o espa?o: crian?as grudaram nas grades, apostadores ajeitaram contas com dedos trêmulos, um homem grande murmurou uma ora??o sem perceber.
Ele sentiu primeiro, antes de ver: uma costura fora da cadência das inten??es humanas. Um ping, fino, que denunciava objeto com lei própria. N?o era técnica de arena; era m?o de espectador mexendo em ferramenta proibida. Ribeiro desceu entre as filas sem alarde. O homem que apertava o amuleto sorriu como quem tem trunfo, uma pedra escura, venosa, com um fio de luz dentro, pronta para transformar a plateia em instrumento.
Ribeiro tocou a m?o dele. O sorriso quebrou em silêncio.
A névoa que o acompanhava investigou o objeto e o engoliu. N?o houve explos?o; houve o som seco de algo que reconheceu inutilidade. O amuleto virou pó. O homem desabou, at?nito, pernas bambas, como alguém que foi devolvido à op??o de escolher entre viver ou ser lembrado apenas como catástrofe.
— N?o é hora
disse Ribeiro, empurrando o sujeito para a saída com a mesma naturalidade com que se limpa pó de um casaco.
— Ainda tem espetáculo pra vender.
O Patr?o prendeu a respira??o; a arena precisava recuperar o pulso. Ribeiro voltou ao assento, ajeitou o manto e deixou escapar um meio sorriso, licen?a tácita para a zoeira contida. Era aquele momento em que o perigo cedera lugar ao entretenimento, por ora.
No centro, a luta come?ou.
Thua Dios era presen?a tect?nica: teryts moldado em metal "ponta de agulha", cristais vibrando sob a pele como cordas tensas. Sua katana, feita da rara madeira de plumas de ouro, descansava na m?o; o colar de Van’Glas pendia ao peito, pronto para absorver o primeiro impacto sério. Do outro lado, Capella Vahn Adins parecia rasgar o pano do visível: olhos que multiplicavam comprimentos de onda, o cajado das 1000 vidas pronto para traduzir espa?o em inten??o.
Ribeiro deu o primeiro suspiro de irreverência.
— Bonito
murmurou.
— Parece casamento.
A névoa riu baixinho.
Ribeiro simplesmente sumiu.
Reapareceu equilibrado em cima da lamina de Thua, pernas cruzadas como quem espera o próximo ?nibus. O peso mínimo, mas ainda assim real, fez o golem vacilar por uma fra??o. Ribeiro inclinou o corpo, empurrando a ponta da katana com o pé, como quem cutuca um amigo só pra ver a rea??o.
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— Vai. Mostra pro povo que é mais que peito e brilho.
Desapareceu de novo, como um borr?o úmido.
A névoa se juntou sobre a arena e, num suspiro, ele pousou bem no topo da cabe?a de Capella, leve como poeira, balan?ando os pés no ar.
— Rapaiz… cuidado com o véu
disse quase num canto, como se desse um conselho íntimo no meio do caos.
— N?o vai arrancar a sobrancelha... Hein.
O sorriso dele parecia desenhado com vento frio.
Capella reprimiu um sorriso e retomou a concentra??o. A plateia oscilou entre o riso contido e a tens?o; o Patr?o fechava as m?os por baixo da mesa, lembrando que cada segundo era aposta e conta a ajustar.
A luta subiu de tom. Capella abriu uma fenda no ar que sugou vento e cuspiu fogo de outra dimens?o; criaturazinhas afiadíssimas e saltitantes emergiram, n?o para dilacerar, mas para desviar aten??o, for?ar movimentos. Thua ativou a maestria herdada do deus da guerra: linhas de ataque surgiram no campo de vis?o, tra?ados que descreviam vetores, frestas onde golpes encaixariam. Era como ver, em régua, as probabilidades do confronto.
Thua avan?ou com a katana. Faíscas voaram. O colar de Van’Glas absorveu o primeiro corte, o artefato brilhou e converteu o impacto em silêncio. Houve um suspiro coletivo: o inventário cumprira sua fun??o.
Capella, encontra?vel e precisa, calculou além do bruto. Com olhos que viam espectros, tra?ou uma linha pelo ar, uma fenda pensada para comprimir exatamente onde o cristal de Thua reluzia demais. Se a técnica encaixasse num crítico maior do que quinze, naquele ponto, a regenera??o poderia falhar; o núcleo, fonte da sua essência, correria risco de se expor. A informa??o piscou na cabe?a de Thua como advertência num painel: crit > 15 = perder tudo.
O mundo contraiu-se naquele número. A fobia dele, um medo primitivo da ruína, da aniquila??o, encontrou-se com a matemática cruenta do combate. A katana desviou um palmo. O colar brilhou pronto para agir, mas havia consequência estrutural além do que podia simplesmente engolir. Thua procurou uma saída que preservasse honra e existência; n?o achou.
Respirou, e a decis?o foi rápida e fria.
— "N?o..."
disse, a voz áspera como metal sendo retificado.
— "N?o... é hora."
Largou a katana. O som foi seco, quase íntimo, e a arquibancada reagiu como se alguém arrancasse uma página do livro. Capella interrompeu a técnica; as criaturas invocadas murcharam e se dispersaram. Thua ajoelhou-se, n?o por espetáculo, mas por cálculo: recuar para existir, recuar para talvez nascer outro dia com mais tempo e menos brilho perigoso.
Ribeiro pousou ao lado, sem teatralidade. Olhou para Thua com aquela curiosidade calma que se reserva a máquinas que hesitam antes de quebrar.
— Volta pra forja, grand?o
disse ele, com voz baixa e sem deboche.
— Conserta esse brilho. Prefiro te ver inteiro amanh?.
A fala n?o humilhou; foi uma ordem condescendente, quase médica: conserte-se. Capella recolheu o cajado, os olhos ainda cintilando em múltiplos comprimentos, havia respeito por quem sabe quando recuar.
A arquibancada explodiu em rea??es diversas: vaias de alguns, suspiros de alívio de outros, murmúrios que se tornaram ondas. O Patr?o bateu a m?o na testa; apostadores recalcularam probabilidades. Um punhado desmaiou, um outro gargalhou nervoso. O espetáculo terminara sem sangue, mas com uma picada de realidade que ninguém esqueceria.
Ribeiro ergueu o manto, deixando o humor escorrer como óleo. A última frase foi seca, firme:
— Chamem mais. Mas sem truques. Aqui é luta, n?o expediente para pe?as escondidas.
E desapareceu antes que o eco completasse a curva.
No rescaldo, ficou claro: onde Ribeiro pisava, o mundo recalculava suas regras. N?o por espetáculo, mas porque havia alguém disposto a dizer, com a??es e palavras curtas, até onde as coisas podiam ir.

