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Capítulo 165 - Passos Entre Vitrais

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  O sal?o do trono estava mergulhado em um silêncio inquietante, quebrado apenas pelo som suave dos passos de Ana enquanto ela adentrava o espa?o grandioso. Natalya estava sentada despreocupadamente nos degraus que levavam ao trono. Seus dedos brincavam com um pequeno objeto metálico que refletia a luz dos vitrais.

  Apesar de se lembrar em detalhes daquela pessoa, Ana n?o p?de deixar de prender a respira??o ao se deparar novamente com aquele corpo. Sua pele escura contrastava belamente com o tom frio do metal polido, algo que ainda insinuava claramente sobre a existência da humanidade — um paradoxo visual. Dos ombros até as m?os, suas próteses mecanicas imitavam com perfei??o a forma desejada, mas havia algo de artificial em como os dedos se moviam, cada articula??o executando um trabalho sem falhas, sem o menor tremor ou hesita??o.

  Seu corpo estava coberto por ainda mais partes protéticas do que nas recorda??es da rainha, descendo pelo pesco?o até um ponto logo acima do umbigo, e um delicado padr?o de circuitos brilhava sutilmente sob a superfície, pulsando em um ritmo que parecia ecoar uma batida de cora??o.

  Suas tran?as ainda estavam presentes, bem presas no topo de sua cabe?a, mas duas das pontas caiam em ondas leves sob seu ombro, contrastando com o perfeito alinhamento do resto de sua figura. Seu par de óculos redondos repousava em seu nariz, e atrás das lentes, os olhos de Natalya eram como abismos insondáveis, observando tudo com uma intensidade que parecia penetrar até os pensamentos de quem ousasse encará-la.

  “Ela é mais do que uma obra-prima…”

  Enquanto refletia, Ana se aproximou sem perceber, e a mulher ergueu os olhos com um sorriso enigmático se formando quase que por instinto.

  — Dizem que o Deus da Guerra empunha uma arma negra… — a voz surgiu repentinamente, ecoando suavemente pelo sal?o. — Interessante, n?o acha? é um boato bem conhecido pelo mundo todo, talvez t?o difundido quanto o meu próprio.

  Ana parou a alguns passos de distancia, a lan?a-espada inclinada ao lado do corpo. Seus olhos percorreram o espa?o ao redor, avaliando cada canto, antes de fixar-se na figura à sua frente. Natalya inclinou a cabe?a, como se saboreasse o cuidado da recém-chegada. O objeto metálico girou entre seus dedos, antes de ser descartado sem cerim?nia no ch?o.

  — Quando estudei sobre essa estranha cidade, me surpreendi com as histórias da grande espada que a rainha carregava — com um movimento elegante, a Colecionadora se levantou. O som de suas botas contra o piso de pedra pareciam soar mais alto do que deveriam. Ela caminhou lentamente, como se estivesse em uma inspe??o casual, mas seus olhos brilhavam com uma excita??o perigosa. — “Apesar de sempre enrolada em panos, supostamente escondida, n?o é um segredo para ninguém que seu metal é t?o escuro quanto a noite”. Ouvi isso de todo mundo quando perguntei sobre o assunto.

  A rainha mascarada sorriu com as palavras soltas de Natalya, mas n?o se moveu. Com calma, arrumou o posicionamento da lan?a, apoiando a ponta no ch?o com um gesto que parecia casual, mas que n?o escondia o controle que tinha sobre a arma.

  — Acredita que por um momento pensei que você fosse a t?o falada encarna??o da guerra? — ela riu suavemente. — Eram tantas histórias… Mas aqui está você. Superou todas as minhas expectativas, sendo ainda melhor do que minhas suposi??es iniciais.

  Suas palavras eram acompanhadas por passos lentos que come?aram a rodear Ana. Ela caminhava devagar, como uma águia vigiando uma possível ca?a. Sua voz, ainda calma, tinha um toque de estranha anima??o que tornava cada frase inquietante.

  — N?o tem como eu n?o reconhecer essa “pequena” faca — disse ela, parando brevemente para encarar a lamina negra. — Sonhei com ela por tantas noites, tremendo de medo que nunca entrasse na minha cole??o... Mas o destino sorriu para mim. Como você saiu do lar da Serpente, garota?

  A rainha bufou com a pergunta, balan?ando a lan?a descontraidamente.

  — N?o é como se eu já n?o soubesse que minha espada me denunciaria, mas você n?o consegue ler o clima?

  A invasora estreitou os olhos, como se tentasse entender para onde Ana estava direcionando o diálogo com aquele comentário.

  — Eu t? usando a porra de uma máscara à toa? — continuou, o sarcasmo transbordando em cada palavra. — A gente devia sair no soco primeiro, aí você acertaria minha cara com um golpe certeiro, o disfarce quebraria e você falaria “Oh, meu Deus, ent?o era você esse tempo todo!”. Esse é o clichê obrigatório!

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  Os olhos de Natalya seguiram encarando a mulher à sua frente com uma express?o que misturava confus?o e fascínio. Sua cabe?a inclinou-se levemente para o lado, focada em decifrar o que estava ouvindo.

  — Parece que o boato sobre a insanidade da rainha de Insídia n?o era falso, afinal… E devo dizer que Annabelle também n?o foi a melhor escolha de nome se sua inten??o era se escon…

  Ana balan?ou a m?o, interrompendo as palavras de Natalya. Come?ou a rir baixinho, o som reverberando pelo sal?o, antes de endireitar a postura.

  — Você estragou tudo! — rugiu de repente, antes de parecer se acalmar. — Bem, pelo menos as coisas v?o ser mais rápidas assim.

  Ela soltou a ponta da lamina do ch?o, produzindo um rastro de faíscas que dan?aram pelo piso de pedra, iluminando brevemente o espa?o ao redor. Girou a arma com precis?o, apontando-a para mulher a sua frente, sua postura relaxada contrastando com a imponência que parecia pulsar de sua própria pele.

  — Enfim, se “lar da Serpente” significa o Abismo, eu usei a porta pra sair. Deixa de ser burra.

  Natalya arqueou as sobrancelhas, claramente se divertindo.

  — “Abismo” é um nome ignorante — sua risada ecoou pelo sal?o, t?o alta quanto a que já se espalhava pelo ar, um som que parecia tanto um deboche quanto um aviso. — E talvez também tenha sido ignorancia sua ter saído de lá…

  Ana manteve-se em silêncio, mas o leve franzir de sobrancelhas indicava que ela n?o havia gostado do tom.

  — Que seja — Natalya continuou, ajeitando os óculos no rosto casualmente. — Quem diria que, além de voltar, você surgiria com alguns novos tesouros interessantes para mim.

  Ana ponderou brevemente sobre as palavras ditas, o silêncio entre elas ficando mais pesado. Balan?ou levemente o bra?o onde a armadura organica estava acoplada, lembrando-se das palavras do inimigo que a atacou do lado de fora, e ent?o deu de ombros, mudando abruptamente o rumo da conversa.

  — Anos atrás, por que você n?o ofereceu dinheiro pela minha arma, igual uma pessoa normal? Foi uma puta sacanagem nos atacar do nada.

  O sorriso da Colecionadora vacilou por um breve momento.

  — Pensei seriamente nisso, para ser franca... Mas aqueles desgra?ados… as… vozes… aquelas malditas ordens…

  Por um breve instante, os olhos da rainha mercenária exilada, mesmo escondidos atrás das lentes escuras, pareceram arregalar-se, como se ela tivesse dito mais do que pretendia. Ana, percebendo o movimento, franziu mais uma vez o cenho, apertando o cabo de sua lan?a com mais for?a.

  — Ordens? Vozes?

  — N?o é nada que alguém como você precise saber em detalhes — a Colecionadora deu um passo à frente. — Apenas… Essa arma vai contra as regras desse mundo. Você vai contra as regras desse mundo. Ambos devem ir para as minhas prateleiras.

  A frase pairou no ar como uma senten?a, pesada e cruel. Por um instante, Ana sentiu algo que n?o era comum nela — dúvida. N?o por medo, mas pelo que aquelas palavras implicavam.

  “Regras desse mundo, hein…”

  N?o sabia exatamente ao que ela se referia, mas ao mesmo tempo, n?o precisava de uma explica??o. Podia sentir dentro de si que a Colecionadora n?o estava mentindo.

  De alguma forma, ela tinha certeza disso.

  Foi ent?o que, mesmo desconcentrada, notou que o ambiente estava mudando N?o era um som ou movimento, mas uma press?o sufocante que parecia emanar de Natalya. O ar parecia mais denso, como se cada respira??o fosse um esfor?o consciente. Um calafrio subiu pela sua espinha enquanto seus sentidos gritavam em alerta: aquilo era pura inten??o de matar, concentrada e palpável, como uma faca pressionada contra sua garganta.

  "Matar."

  A palavra reverberou na mente de Ana, e, de canto de olho, ela encarou sua lamina por um segundo. Repentinamente uma ideia come?ou a tomar forma em sua mente, como uma faísca incendiando uma fogueira.

  "Vozes... Talvez existam mais coisas como você, minha amiga?"

  Um grande sorriso nasceu em sua boca, expondo todos os seus quarenta dentes. Ele se manteve firme por apenas um piscar de olhos, e logo se tornou uma gargalhada, quebrando o peso do momento em que se encontrava.

  — Talvez, no fim, eu n?o seja esquizofrênica — murmurou de forma quase inaudível, enquanto passava os dedos levemente pela empunhadura da arma em um gesto carinhoso. — Isso é... reconfortante — sua voz tinha um tom quase afetivo, mas os olhos brilhavam com algo entre excita??o e loucura. Era como se, naquele instante, ela aceitasse que sua conex?o com a arma fosse algo mais profundo do que jamais ousara admitir.

  Assim, sem dar tempo para Natalya reagir ou fazer o primeiro movimento, Ana avan?ou.

  Seus pés bateram contra o ch?o com for?a, cada passo ecoando pelo sal?o como um tambor de guerra. A lan?a-espada cortava o ar com um brilho trai?oeiro, absorvendo as cores que flutuavam pelo ar, enquanto Ana mirava diretamente no centro do peito de sua oponente.

  Natalya sorriu, mas era um sorriso frio, sem humor. Com um clique quase inaudível, duas laminas curvas se estenderam de seus bra?os. Eram diferentes de qualquer arma comum, brilhando com uma luz opaca que se diferia levemente do brilho metálico visto em seu próprio corpo.

  Seus olhos dan?aram pela rainha a sua frente, capturando o brilho nos sorridentes olhos da rainha mascarada, podia notar claramente que aquela pessoa já havia ido além da insanidade. Ela deu um passo para trás, um movimento quase imperceptível, mas suficiente para demonstrar que algo nela reconhecia o perigo real. Ainda assim, logo retomou o controle, ajustando os óculos com um gesto casual que disfar?ava o pequeno instante de vulnerabilidade.

  — Vamos ver se continua decepcionante, Ana — assim como sua oponente, após seu curto sussurro, deu um passo à frente com um movimento poderoso, mas coberto por uma calma perturbadora.

  As luzes dos vitrais, antes vibrantes, agora pareciam dan?ar de maneira errática, como se o próprio ambiente estivesse em sintonia com o confronto.

  O sal?o do trono, outrora prova de glória e poder, tornou-se, num piscar de olhos, o palco onde laminas entoavam a sinfonia da inevitável queda de uma for?a inexorável. A realidade pareceu hesitar, como se o mundo inteiro prendesse a respira??o.

  E ent?o, o som metálico de armas colidindo ecoou, marcando o início de um duelo que n?o terminaria sem sangue.

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