home

search

Capítulo 2 - Enquanto a Morte não me Alcançar.

  2

  Retirei o segundo balde de dentro do po?o, puxando a corda vigorosamente, retesando os músculos dos meus bra?os doridos.

  Retirei a corda do apoio dos baldes para as m?os e coloquei o balde no ch?o. Peguei num pouco da água, bebi-a e lavei a cara, refrescando-me do calor abrasador.

  Há pouco, consegui ouvir gritos e sons de luta, como espadas a tinir e explos?es. O que significa que tenho de me despachar, pois os inimigos est?o perto.

  Por vezes, quando ou?o berros e explos?es, sinto um calafrio. Como é que foi possível pessoas chegarem a este ponto, destruindo n?o só lares, mas os outros e a si mesmos. Eu também tenho receio de explos?es, e temo o fogo. Noutros dias, quando um vento quente rebenta, alastra-se rapidamente. O combate torna-se mais difícil e as nossas vidas ficam ainda mais em perigo.

  Foi assustador estar em casa e prometer a Wandia que iria ficar tudo bem, enquanto víamos chamas de quatro a cinco metros de altura ao longe.

  Come?o a regressar a casa, tentando fazer o mínimo de barulho ao passar por zonas que s?o mais perigosas.

  O meu pé embate num pau espetado para cima no ch?o. Ia já a meio do caminho. Os baldes tombam e a única coisa em que consigo pensar fazer é atirar-me a eles, levantando-os.

  Ergo-me também, aborrecida comigo mesma pela queda ridícula que fez com que um dos baldes ficasse a meio. Espremo o melhor que consigo as minhas roupas húmidas e pego novamente nos baldes. N?o posso voltar atrás, pois já estive fora de casa pelo menos uns quarenta e cinco minutos, e Wandia, tal como eu, deve estar cheia de fome.

  Dou um passo adiante e ou?o um ranger.

  Olho para o ch?o — mas só há palha seca e algumas amoras espezinhadas.

  Umas quantas manchas de sangue aqui e ali, e muita, muita poeira. Pouso os baldes. Olho para os lados e também para o céu, n?o fosse alguém cair-me em cima.

  Eu já devia ter-me preparado mais cedo. De certeza que alguém ouviu os baldes e o som da água. Muitos guerreiros, fossem dos nossos ou inimigos, têm o hábito de roubar os baldes de água que os habitantes locais sobreviventes enchem. é uma grande perda de tempo enchê-los no po?o. E o tempo para todos é um dom que n?o nos atrevemos a desperdi?ar.

  Houve uma vez em que, a meio da tarde, eu e a minha irm? fomos assaltadas. Entraram de rompante dez homens dos nossos. Destruíram a nossa porta de madeira e correram a pegar os seis baldes que tínhamos cheios de água em casa. Eu estava no andar de cima, a tomar banho. Desci tarde demais para impedi-los de tocar na Wandia. Quando finalmente desci, n?o se ouvia uma mosca, e a minha irm? encontrava-se desmaiada com a face direita roxa e uma queimadura no peito.

  Nesse dia, encontrava-se à beira da morte, e só com muita for?a de vontade da parte dela, e pomadas e chás, é que ela recuperou.

  Um segundo som, traz-me de volta ao presente. Percebo, neste preciso momento que, ou luto ou corro para casa, para proteger a minha irm? melhor do que a última vez.

  Acabo por n?o poder decidir. De um segundo para o outro, dois homens saltam para a minha frente empunhando espadas cerradas e manchadas de sangue. Est?o ambos com péssimo aspeto, como habitualmente. Têm a cara coberta de sangue e as m?os cheias de terra. Têm a cabe?a rapada para prevenir piolhos — quase como se fossem prisioneiros. No entanto, já se notam alguns fios a crescerem.

  Têm o dobro do meu tamanho — ou pelo menos é assim que me parecem ser.

  Inspiro fundo.

  – Precisamos dos teus baldes. Seria uma pena se n?o nos desses luta. Deves saber que n?o somos o inimigo e morreríamos de vergonha se te tivéssemos de ferir. — O mais alto fala. Falta-lhe uma m?o. Este homem deve ter a mesma idade que eu, se n?o mais novo. Mas parece que o destino n?o vê idades quando escolhe as suas vítimas.

  Com cada palavra que lhe salta da boca, cada suspiro fica-me preso. Está t?o seca a sua voz. T?o seca como se tivesse comido uma tigela de areia à colherada.

  – Se quiserem posso-vos dar um, mas é urgente que fique com o outro — digo, numa voz bastante simpática e esperan?osamente conciliadora. Eles cospem para o ch?o, rindo um para o outro, exibindo uns dentes horrorosamente castanhos e sujos de sangue.

  – Querida, acho que ainda n?o percebeste que estamos em guerra, e enquanto assim permanecermos, é ordem do rei, os residentes darem todos os recursos que puderem aos soldados.

  – Estás a falar do rei que n?o se vê há dias, mas que se mete na alcova com a mulher que n?o é a dele sempre que pode? Esse rei de que muitos falam… de facto tem uma voz presente no seu “amado povo” – grito. Eles coram de fúria e depois dizem quase que em uníssono, como se tivessem preparado as palavras:

  – Estamos a perder o nosso tempo contigo. Passa-nos os baldes! – O homem do lado esquerdo brande a arma e com isso, atira uns salpicos de sangue para a minha cara.

  Sacudo o meu cabelo. N?o posso de maneira nenhuma deixá-los sair com os dois baldes. Eu e a minha irm? gastamos pelo menos em quatro dias os dois baldes, o que me obriga a ir pelo menos duas ou três vezes por semana ao po?o. E já acontece com regularidade ter de faltar, ora por causa do tempo, ora por causa da energia que me resta.

  Com um grito, um homem corre para mim. Mas em vez de me espetar logo a espada no abdómen, salta girando sobre si mesmo, dando-me um pontapé no maxilar. Ou quase. Ele está a deixar-se guiar pela fúria.

  Numa luta devemos deixar que a nossa raiva saia do nosso corpo pela nossa respira??o. Pois se isso n?o acontecer, será a morte que estaremos a provocar. N?o deixo tal acontecer-me.

  Baixo-me. Antes que ele estique o bra?o para a frente e me fira, eu curvo-me um pouco mais e agarro-lhe o tornozelo. O pux?o que lhe dou provoca a queda do meu oponente. Este grunhe enquanto se agarra à anca, que feriu na queda desastrosa.

  Support the creativity of authors by visiting the original site for this novel and more.

  Este grunhe de frustra??o e, enquanto o outro se esgueira para trás de mim achando que n?o o estou a ver, atira a espada para a frente, numa última tentativa de me matar. Eu dou um salto atrás, ficando perigosamente perto do segundo homem, e sacando do meu chicote com um estalido que corta o ar, agarro na espada que vem em dire??o a mim. Isto tudo feito em dois segundos.

  Rodo o pulso com a m?o que segura o chicote enrolado na espada A corda da arma vira-se acima da minha cabe?a, arrastando a espada com ela. N?o vi, mas senti o sangue a salpicar-me a nuca e ouvi um grunhido e o som da lamina a cortar algo. Viro-me, salto para trás e piso a cara do homem que atirei ao ch?o. Ouve-se um estalido doentio. Quando desvio o meu olhar — apenas por cinco milissegundos — vejo que o nariz está partido, o osso retorcido para dentro. Espetado na carne interna. O soldado perde os sentidos meros segundos depois.

  O homem que se colocou atrás de mim tem agora o sangue a turvar-lhe a vista, e um corte profundo na testa. Passa a manga pela testa praguejando. Apoia-se momentaneamente no tronco carbonizado de uma árvore, provavelmente vendo estrelas. Aproveito esse deslize. Agarro na espada o mais rápido que posso, cada articula??o a esticar-se. Rapidamente, formo um plano na minha cabe?a: n?o posso dar-me ao luxo de continuar aqui a lutar, com Wandia em casa desprotegida.

  Tenho de sair daqui agora.

  Salto para a frente e o homem encostado à árvore vê-me e dá-me um pontapé. Mesmo baixando-me e rolando pelo ch?o numa cambalhota, levo um segundo pontapé no maxilar, e este enche-me a boca de sangue. Arrepio-me de dor, mas n?o deixo que isso me distraia. Levanto-me de um salto e dou uma chicotada na cara do homem. Este grita de dor tapando a cara com o bra?o, apertando o rasg?o que lhe vai do topo da cabe?a ao pesco?o. O sangue escorre-lhe e pinga-lhe para a roupa.

  Procuro no seu corpo e no seu vestuário por algo que provoque fogo. Ao pé do sítio onde embainha a espada vejo um pau fino envolto em resina seca. é o que muitos soldados usam em vez dos fósforos, pois é mais prático levar um do que uma caixa que caísse pelo caminho.

  Agarro nele e esfrego-o com for?a no tronco da árvore. Afasto-me a correr o mais rápido que posso, já come?ando a ver estrelas por causa do jejum e do sangue que enche rapidamente a minha boca, e acendo uma das minhas dinamites. Atiro-a para perto dos dois homens e, pegando nos baldes, corro que nem maluca para longe deles na dire??o da minha casa.

  As minhas botas pisam o ch?o arenoso e queimado violentamente, deixando marcas de saltos por onde passo.

  Corre. Corre como se a morte estivesse atrás de ti. Corre, Najhe!

  Ou?o o som da explos?o.

  Cerro os olhos com for?a — tarde demais. Apercebo-me o qu?o perigosamente perto estou da explos?o. N?o consegui correr tanto quanto queria por causa da porcaria dos baldes. Sou projetada para a frente com um grito. Uma dor torturante sobe-me pela perna acima.

  Cubro os baldes com o meu corpo mantendo-os de pé sem se entornarem com o meu peito.

  Fico assim, deitada no ch?o de olhos cerrados por uns longos segundos. Sinto a pele da minha perna esquerda queimada, mas talvez ela n?o esteja realmente tostada. Talvez seja só a pele a arder de uns rasp?es.

  Por fim levanto-me. Tenho no??o de que, devido à minha queda e ao calor da explos?o, estou ferida. Mas ao menos os baldes ainda têm metade da água. Esse pequeno ponto positivo é o suficiente para me ajudar a ignorar a dor na pele que me queima.

  Wandia aguenta o dobro disto todos os dias, sua estúpida.

  Quando chego a casa, pouso os baldes, coloco água a aquecer e subo escada acima o mais rápido que os meus ferimentos me permitem. Levo um copo de água comigo, pois aposto que Wandia me pedirá um.

  Quando chego ao topo, bastante ofegante, vejo a minha irm? sentada em cima da cama com um sorriso tolo no rosto. Oh… Como adorava aquele sorriso. Sempre que sorria daquela maneira, significava que tinha sonhado com algo que a deixara feliz. Provavelmente com o príncipe encantado que ela dizia que a iria buscar a mim e a ela — embora eu suspeite que fosse só a ela, claro.

  O seu sorriso aberto deixava-a sempre corada, e o seu pequeno nariz arrebitado ficava vermelho também. Os seus olhos brilhavam como dois diamantes… e por eles eu era capaz de destruir reinos só para poder vê-los brilhar.

  – Najhe! O que é que te aconteceu? – E pronto. Lá se vai o sorriso. Ela faz men??o de se levantar e sair da cama para vir ao meu encontro puxando as cobertas para trás. Mas o mínimo gesto dela para mim é muito. Estendo-lhe uma m?o contornando a mobília e ofere?o-lhe o copo de água. Sorrio-lhe e beijo-lhe a bochecha antes que ela leve os lábios ao copo.

  – N?o precisas de te preocupar. N?o é nada e já quase n?o dói. Dormiste bem? – Ela acena que sim evitando o meu olhar. Suspiro. Já a conhe?o. Sempre que ela evita o meu olhar enquanto fala é porque está a mentir.

  – Wandia… magoaste-te durante o sono?

  – N?o. Porque pensas isso? – Devolve-me o copo e depois levanta-se da cama. Escondendo a perna esquerda atrás da direita anda desengon?adamente até ao armário.

  – Porque acabaste de esconder a tua perna esquerda atrás da direita e estás a evitar o meu olhar. N?o percebes que de cada vez que adias o teu tratamento, enfraqueces um pouco mais a tua saúde? Quem sai prejudicada és tu! – Aproximo-me dela e, antes que ela me impe?a, seguro com determina??o a perna esquerda, mas do?ura. Ela cambaleia e coloca ambas as m?os sobre os meus ombros. Consigo sentir a sua respira??o suave no meu pesco?o.

  – A sério que n?o é nada. Está a arder um pouco, mas vivo bem com isso - murmura. E observo o arranh?o que tem na barriga da perna. Provavelmente foi feito com as unhas do pé direito. Tem um pouco de sangue, mas podia ter sido bem pior. Olho para cima, encarando-a. Ela está com um sorriso parvo, como se me quisesse dizer “fui apanhada mas lembra-te que sou uma boa menina”. Rio-me e pego nela ao colo, em bra?os, deixando-a em cima da cama, toda revolvida e engelhada. Depois, pego na sua almofada e coloco-a presa na janela para a arejar do suor todo.

  Raramente encontro os len?óis e fronhas secos. A doen?a deixa a pele da minha irm? brilhante com os óleos corporais. Viro-me para ela e vejo-a a fitar os seus pés pequeninos e cheios de finas cicatrizes. Balan?a-os infantilmente, e sei pelos seus olhos que a sua mente já está a divagar para reinos longínquos.

  – Najhe? – pergunta a minha irm?, na sua voz doce como mel – Achas que, quando a guerra terminar, poderemos ganhar asas e voar?

  Vou buscar a pomada, tentando ao mesmo tempo processar a pergunta dela. Wandia sempre falou um pouco por fantasias e enigmas que retirava dos livros que ambas liam, e ficava bastante satisfeita quando lhe respondia da mesma maneira. Mas agora a sua pergunta foi um pouco abrangente e eu, distraída em curá-la respondi:

  – Quando a guerra terminar, se for preciso chamo um drag?o para ficares com ele – digo divertida.

  Abro o frasco onde se encontra a pomada e espalho uma pequena por??o pastosa no seu arranh?o, colocando uma ligadura muito pequena em cima. A pasta secará e fará com que a ligadura fique no lugar.

  – N?o percebeste a pergunta, pois n?o? – Olho para cima e vejo desilus?o nos seus olhos. Pigarreio e decido-me a ficar calada e a terminar de curar-lhe o arranh?o. Ela n?o abre a boca mais nenhuma vez.

  Por fim ela pede-me que a carregue para o andar debaixo. Fa?o-o em três segundos.

  Pouso-a com cuidado no ch?o, colocando os seus pés primeiro em cima das minhas botas, para ela n?o se raspar toda. Ela vai buscar o livro dela (aquele que ela já leu sete vezes) e acomoda-se num assento.

  – Se quiseres, mais tarde, quando estiver aqui em baixo, podes ir apanhar amoras, mas lembra-te de me pedir para te ligar as m?os primeiro. – Vejo-a sentada a olhar para o livro em vez de o abrir, ou a abanar os pés de alegria por poder ir apanhar amoras – Wandia?

  Ela levanta de repente a cabe?a e ri-se:

  - Desculpa… Estava a recapitular tudo o que li da última vez.

  Eu sou quem desanima e rabuja o tempo todo, sem raz?es para tal. Wandia é quem tem mais raz?o em desistir… Ainda assim é ela quem dá sempre a última gargalhada.

  Ganhar asas e voar… Mas voar para onde? Todos os lugares, todos os territórios existentes carregavam sangue e dor, um mel acre, venenoso e cruel? Apenas Najhe sabia… Mas Najhe… oh… Najhe. Ela desconhecia os perigos. Os perigos de partir, e os de ficar.

Recommended Popular Novels