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Capítulo 1 - Sombras do Passado

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  O meu país está reduzido a um deserto de poeira e sangue – seco, árido, castanho e dourado. Sujo. Solid?o e medo. Guerra. E confus?o.

  Há uns anos, acordar nesta terra de planícies era sentir o sol a queimar amigavelmente a minha face, fazendo com que acordássemos com as faces rosadas. Os pássaros come?avam logo a disputa pela vida, pelo alimento e pelas fêmeas. E, através das janelas, entrava aquela luz suave e clara da manh? – para além do sol líquido – que nos fazia querer correr para fora da casa e rebolar nos campos verdes, inspirando o cheiro das árvores e ervas. Sem nos importarmos de manchar a roupa por mais linda e intrincada que fosse.

  O meu país tinha sido de um verde lindo, de árvores de fruto, de sombra e de sons como o da água a correr. Subtil, mas precioso. O nosso pequeno grande tesouro.

  Era isso que nos deixava maravilhadas enquanto olhávamos para tal dádiva. Era isso que nos fazia sonhar quando agarrávamos num bom livro e líamos com uma ma?? na m?o e as raposas aos nossos pés.

  No entanto, a realidade que existira há anos, passara gradualmente a estilha?os de memórias na mente desta terra, em mentes como a minha e a de Wandia. Recusamo-nos a esquecer o que deixamos para trás.

  Quando acordo, ainda de madrugada, tenho de ganhar coragem para voltar a enfrentar a verdade estilha?ante.

  Agora, erguendo-me, vejo o cenário que me acompanha já há muito tempo: Como ainda é cedo, n?o entra luz pela janela, mas o ar cheira a terra, poeira e fumo. N?o se ouvem pássaros a cantar e sei que, mais daqui a pouco, irei ouvir o som dos abutres, provavelmente a se alimentarem de mais um cadáver espalhado.

  às vezes, quando o vento soprava mais feroz, trazia consigo o cheiro a sangue, e o sabor metálico instalava?se na nossa boca.

  Há muito tempo foi quando engoli as minhas lágrimas. Recuso-me a chorar em frente a Wandia. Prometi às almas dos meus pais que seria forte por ela. N?o que precisasse realmente disso, pois Wandia n?o parecia muito preocupada com a sua condi??o, antes focada em todos os contos de fadas em que mergulhava a sua cabe?a diariamente, enchendo-me depois a mente com a história em que um dia, um príncipe encantado a viria buscar a ela e à mim, e se casarem.

  De acordo com os seus planos eu ia tornar-me sua conselheira.

  Por isso transformei os meus olhos num deserto e o meu cora??o numa jaula, de onde n?o sai nada a n?o ser fraternidade para com a minha irm? e rancor para os restantes. Melhor ainda: nada – mas nada – entra.

  Apenas a minha irm? me faz sorrir.

  à volta da casa que eu partilhava com a minha irm? mais nova, Wandia, há algumas árvores toscas e secas, que nos abrigam de uns quantos inimigos. Antes de murcharem, as árvores forneciam-nos sombra e frutos, nomeadamente figos e ameixas, que nós arrancávamos e comíamos. Havia também umas macieiras, mas foram as primeiras a sucumbir.

  O nosso pai costumava adubar as árvores connosco. A nossa m?e fazia compota. E tudo isso acabara.

  N?o que perdêssemos muito tempo a desejar sonhos já destruídos, mas o facto de termos conhecido o nosso mundo e termos visto este morrer era… devastador. Para dizer pouco do que nos ia na alma. Do que ainda nos vem.

  Eu e a minha irm? tínhamos um pouco de sorte, pois vivíamos numa casa que, à volta, estava cheia de silvados, urtigas e tojo.

  Como as invas?es tendiam a ser rápidas e com uma a??o esfomeada com intento de total destrui??o do que passava por baixo da vestimenta Deles, eles quase nunca conseguiam penetrar pelos picos. Mais preocupados em destruir tudo à sua frente e avan?ar, n?o se preocupavam com um monte de agulhas.

  E quando penetravam eu defendia a minha casa. Aprendera a construir explosivos improvisados com peda?os de metal e ferro afiados, pólvora e tubos, que escondia no silvado.

  Da última vez que fomos atacadas, os soldados tinham surgido com alicates e catanas para destruir a floresta??o. N?o tenho a mais pálida ideia de como descobriram, mas também n?o perdi tempo em alargar os meus já vastos horizontes de raiva. Lutei. E defendi. Porque é o que aprendi a fazer. E tal n?o é ferir nem matar por simples gosto.

  Aquilo que aprendi a fazer, foi sobreviver.

  Um direito que todos temos, mas que por mais que as pessoas saibam isso, tendem a ignorar.

  Lutaram também, mas o instinto dentro de mim acendia os cabos de arame e em três segundos os seus corpos eram arremessados para trás numa nuvem de sangue e fragmentos de ossos. Tapava os olhos enquanto isso acontecia. N?o sou capaz de ver como mato pessoas.

  Como os picos come?avam a arder, eu atirava areia para lá, e assim, o nosso esconderijo continuava protegido. Um casulo onde a mente de Wandia podia continuar a sonhar.

  A luta que travávamos todos os dias, (e ainda hoje) fosse física ou psicológica n?o seria o suficiente para travar um exército.

  Mas, logo depois, o exército desaparecera devido à ESMIGANTIA, dando-me mais tempo para pensar no futuro. E fazendo recuar os nossos terrores, cessando imediatamente os fogos e ataques que frequentemente nos aterrorizavam.

  A minha casa é feita de pedra com telhado de madeira e feno e tem dois andares bastante modestos. A porta de entrada é feita de metal, eu própria a construí com a ajuda do único ferreiro restante na nossa zona para que fosse mais difícil arrombarem-na. Eram as nossas dobradi?as da seguran?a.

  Mais tarde, o ferreiro faleceu com ESMIGANTIA.

  O andar de baixo tem um pequeno balc?o gasto com uma panela e um fog?o a lenha bastante sujo. Por mais ferrugento que o fog?o esteja, n?o posso deixar de fechar os olhos e ver a minha m?e tirar um bolo acabado de fazer de lá de dentro.

  Com isto, é a divis?o mais quente, n?o só por causa da lenha queimada, mas também pelas recorda??es.

  Temos uma despensa equipada com o essencial: manteiga, ovos, ma??s, pólvora e uma pomada feita por mim para a pele de Wandia. Lá, temos também um pouco de querosene para que possamos acender um lampi?o.

  Eu fa?o a pomada todas as semanas, com ervas e leite de amêndoa, que uso só para este percal?o por ser caro. Também ver um mercador cá vir é como uma miragem. Os do nosso país já n?o respiram, e os estrangeiros s?o suficientemente inteligentes em n?o colocar os seus pés nas nossas bandas.

  Sendo honestas, nada disto é preternatural, pois nós até conseguimos ser um pouco mais privilegiadas do que pessoas da nossa aldeia que já morreram.

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  N?o temos tapetes, o que faz com que tenhamos normalmente os pés bastante sujos, pois o ch?o é a terra e eu n?o uso os sapatos dentro de casa para n?o os gastar. O ch?o é um borr?o de argila, areia e terra.

  Nos cantos da nossa casa vivem os nossos pequenos refúgios: estantes decoradas com todos os tipos de livros, grossos e finos, pequenos e grandes. Lindos e t?o perfeitos. Eu e a minha irm? sabemos ler, um pequeno privilégio dado pelo nosso pai que fora um cronista antes de se casar e se mudar para cá. Ensinara-nos a escrever, e essa, era de longe, das memórias mais acolhedoras de ser?es em família. A minha m?e bordava, o meu pai escrevia, e nós líamos aos seus pés.

  Depois há, mais no canto, do lado direito uma escada feita de troncos finos de árvores, que eu tive de remodelar, pois uns quantos caem por vezes.

  No andar de cima há uma bacia para o banho, uma bacia para as nossas necessidades, o nosso guarda-roupa modesto, e uma cama de casal, que fora dos nossos pais.

  Vendi a minha cama e a da minha irm? para conseguir comprar roupa, edredons novos e alguns medicamentos para ela. Pode parecer fútil, mas despedir-me de objetos nos quais muito saltei com a minha irm?, e nos quais muitas vezes adormeci a ouvir histórias, n?o foi fácil.

  Há uma pequena janela que está rachada. Um pequeno lembrete que as memórias n?o s?o tudo, e o presente enche cada poro destas paredes.

  Vendi tudo o que n?o precisamos, como as jóias de conchas da minha m?e, os seus pentes, o cachimbo do nosso pai e o seu cavaquinho. Mas n?o fui capaz de me desfazer dos livros. S?o demasiado preciosos e alimentam as fantasias que Wandia usava para escapar à realidade com sonhos fúteis, mas que para ela, s?o a coisa mais importante no mundo a seguir a mim. Ou talvez eu me tenha em grande conta.

  Mas acima de tudo, aqueles livros n?o s?o apenas as histórias que carregam. S?o as folhas perfumadas pela nossa m?e. S?o as capas desgastadas pelos dedos do meu pai. E s?o as histórias inaladas por mim e por todos os animais que as ouviram. Porque eu fui assim. Ingénua. A princesa no meu conto de fadas que achava que se lesse em voz alta, os pássaros responderiam.

  Viro-me para o meu lado direito, enquanto resmungo um pouco pelas c?ibras que sinto nos ombros. Já estou acordada há muito tempo. Levantei-me cedo demais, por isso acabei por voltar para a cama. Para o meu lar, a minha ilha segura ao pé da minha maninha.

  A minha irm?, ainda a dormir, vira-se para mim e encolhe-se um pouco, talvez com frio, embora o ar lá fora esteja bastante seco. Eu tinha colocado as minhas almofadas no ch?o do seu lado, para o caso de ela cair da cama devido à falta de espa?o. Por isso acordo sempre com dores. Durmo continuamente numa posi??o desfavorável.

  Wandia, por mais cuidados que tenhamos, nunca sai ilesa de nada e por isso, na sua pele quebradi?a descansam sempre hematomas, ou cortes pequenos que podem ser causados pelo simples ro?ar de uma unha. Neste momento tem quatro hematomas na cara, e um corte no lábio, pois cortou-se ontem à noite com o garfo. Fora um momento de verdadeiro panico, enquanto eu tentava a todo o custo estancar o sangue que escorria de um simples corte e almofadá-la mais para evitar mais batidas e nódoas negras.

  N?o quero parecer ditadora, ou de outro modo uma irm? possessiva. Mas tive de a proibir de usar o garfo. é demasiado arriscado.

  Lá consegui que o sangue fosse coagulado, mas a crosta ainda é muito frágil, pelo que lhe coloquei um peda?o de algod?o ao lábio seguro por um pequeno penso.

  O maior medo é perdê-la, por isso n?o me acho ultraprotetora. Ou repito-o a mim mesma que é para o bem dela. Fa?o apenas o necessário para a manter viva. E para ela continuar a ler. Para poder continuar a poder pegar nos nossos sublimes objetos.

  Aproximo-me mais dela com cuidado para n?o lhe tocar e depois, muito gentilmente, acaricio-lhe a cara com a m?o. Ela estremece e depois sorri no sono, logo a seguir retomando a fei??o de descanso. O seu cabelo está apanhado numa tran?a, pois se ela se enrola muito nele, é provável que se corte um pouco no couro cabeludo. é raro, mas já aconteceu de tudo. Os medicamentos n?o s?o infinitos e nem temos como pagar aos aos muitíssimos ousados mercadores que cá passam. Trocávamos coisas e às vezes ficávamos em dívidas. Confesso que é a única vez que agrade?o a morte dos vendedores ambulantes.

  Levanto-me da cama e aconchego a minha irm?.

  Tenho ainda muito pela frente, e se quero fazer tudo rapidamente para a minha irm? n?o ficar sozinha em casa muito tempo, tenho de come?ar já. N?o me posso dar ao luxo de fazer as coisas com a calma com que fazia antes.

  Ajeito as almofadas no ch?o e coloco um casaco à frente da janela para que a luz que já come?a a aparecer n?o incomode Wandia.

  Depois, visto-me.

  Visto um corpete preto de mangas e um casaco azul-escuro por cima. Depois umas cal?as pretas justas de um tecido grosso e umas botas de salto alto da mesma cor, que tinham sido da minha m?e. S?o bastante quentes e resistentes. Há algum tempo que s?o o meu cal?ado habitual, para além que tinham um valor pessoal bastante importante. O salto é grosso e relativamente baixo, combinando em cor com o resto do traje que estou a envergar.

  Levo sempre um punhal comigo para várias ocasi?es. Imagino que, se precisar de fugir, corto os saltos das botas para correr melhor. Por outro lado, sou demasiado vaidosa para o ter feito já, por motivos práticos.

  O cabelo fica arranjado num coque, deixando apenas as madeixas da frente soltas. Assim, evito que o resto me atrapalhe a vis?o. A cor do meu cabelo é o que o meu pai mais gostava em mim, igual ao da minha m?e, eu tinha um ruivo invulgar. Cor de cereja, é um vermelho meio morto, cor de sangue escuro.

  Acho que é por isso que nunca cortei, apenas as pontas mais frágeis. Tenho saudades dos seus pux?es brincalh?es.

  Hoje tenho que ir buscar água ao po?o, apanhar amêndoas, e cortar lenha. Por vezes gosto de pensar que a minha vida é um livro. Para me sentir ouvida. Ou para fugir à realidade. Só que ao contrário dos livros, o meu primeiro capítulo, o meu come?o de vida, é cliché. Come?a comigo a acordar e a ir buscar água ao po?o, porque é das poucas coisas que posso fazer. Quando penso nisso, lembro-me de que provavelmente ninguém alguma vez leria a minha história. As primeiras páginas secantes. T?o domesticamente normais. Nenhuma novidade.

  ?é um livro cliché. Come?a com ela a acordar e a lamentar-se da vida?

  Suponho que muita gente que se queixa desse tipo de livros n?o vive nas condi??es que eu vivo.

  A minha irm? fica com a tarefa de colher amoras, por mais que eu lhe diga que n?o é boa ideia, pois acaba sempre com os dedos cobertos de sangue. No entanto, ela herdou a teimosia na nossa m?e. Ambas o fizemos.

  Wandia é caríssima. Mesmo quando regressa com novas feridas e os dedos manchados de sangue, sorri como se tivesse colhido diamantes. Como se as gotas de sangue surgindo da sua pele, sejam rubis.

  Depois, quando voltar, talvez Wandia já tenha colocado a mesa e aquecido leite de amêndoa para nós as duas. Isto se ela hoje conseguir andar. E pensar que antes só dan?ava…

  Os degraus que galgo agora s?o dos meus maiores pesadelos. Assombram a minha paz quase tanto quanto esta guerra. S?o bastante estreitos e a madeira n?o é rija o suficiente. A minha cabe?a diz-me sempre para desviar o meu olhar quando vejo a minha irm? a descê-los.

  O cinto de armas que me pertence desde que o pai morreu vai para a minha anca, amarrado com um nó justo e seguro o suficiente para n?o cair mais tarde. Armei-o com um chicote, uma arma de dinamite e a minha faca. A dinamite provavelmente n?o será necessária. Ontem vi fumo atrás da colina mais próxima. é sempre melhor usar as armas que o nosso inimigo usa.

  Com dois baldes vazios na m?o, saio sem pensar duas vezes e com o cora??o a palpitar de temor.

  Fecho a porta à chave. Esta é a parte mais difícil. Atirei os baldes para o outro lado dos espinhos e depois escalei a uma árvore que estava atrás da nossa casa. A meio da árvore, avan?o por um ramo grosso.

  A meio da planta, avan?o por um ramo grosso e seguro. Um corte de uma memória passada assalta o meu cérebro. Consigo ver fragmentos da memória: o meu corpo a cair com um sofrido baque. O som a alertar o inimigo. E depois eles chegam, e…

  Estico o corpo, balan?ando uma, duas vezes. à terceira, lan?o-me no ar e dou um salto mortal para amortecer a queda. Aterrando no ch?o volto a segurar os baldes caídos e avan?o deixando para trás os espinhos, qual escudo num conto de fadas.

  Era uma vez Najhe. Najhe n?o sabia. Ou melhor… sabia. Mas carecia de ignorancia para viver em seguran?a. Esta era a vida de Najhe. E esse era o problema. E ela n?o sabia — ou fingia n?o saber — que o seu curso estava perto de mudar drasticamente. E há coisas que, quando s?o ignoradas, acabam por destruir quem as conhece.

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