Capítulo 12: Quando o Vazio Olha de Volta
O tempo pareceu congelar no campanário.
Os assistentes de Milos se aproximavam, suas sombras alongadas subindo pelas escadas em espiral. O grupo tinha segundos, talvez menos, antes que fossem descobertos. K já preparava suas adagas, o Menino se encolhia atrás dela, e Talia tremia incontrolavelmente em um canto.
Foi ent?o que Zack fez algo inesperado.
Sem dizer uma palavra, ele se virou e colocou as m?os nos ombros de Orpheus. O gesto era simples, quase casual, mas carregado de um peso que parecia dobrar o próprio ar ao redor deles. Seus olhares se encontraram – um momento de comunica??o silenciosa mais eloquente que mil palavras.
Orpheus n?o entendeu imediatamente. Franziu o cenho, confuso com a calma súbita de Zack diante do perigo iminente. Mas ent?o, algo mudou nos olhos de Zack. A escurid?o em suas íris pareceu se aprofundar, expandir-se, como um po?o sem fundo que subitamente revelasse sua verdadeira profundidade.
N?o eram mais os olhos de Zack que olhavam para Orpheus. Era algo mais antigo. Mais vasto. Algo que existia antes das estrelas e permaneceria depois que a última delas se apagasse.
O Vazio olhava através de Zack.
O rosto de Orpheus transformou-se em uma máscara de terror absoluto. Seu corpo, normalmente controlado e preciso em cada movimento, come?ou a tremer violentamente. Suor frio escorria por sua testa, e sua respira??o se tornou irregular, quase ofegante. Ele, que havia enfrentado os horrores das arenas de Luna sem pestanejar, que havia visto as piores atrocidades que seres humanos podiam infligir uns aos outros, agora estava aterrorizado além da raz?o.
"Vamos," conseguiu dizer finalmente, sua voz irreconhecível, estrangulada pelo medo. "Agora!"
K olhou para ele, surpresa pela mudan?a repentina. "E Zack? N?o podemos deixá-lo—"
"AGORA!" A palavra explodiu de Orpheus como um rugido, t?o diferente de seu tom habitualmente controlado que até mesmo Talia parou de tremer por um instante, paralisada por um novo tipo de medo.
Zack já havia se afastado deles. Ajoelhou-se no centro do campanário, cabe?a baixa, m?os caídas ao lado do corpo como ferramentas abandonadas. Imóvel. Silencioso. Esperando.
K resistiu, puxando contra o aperto de Orpheus em seu bra?o. "N?o! Ele precisa de nós! N?o podemos—"
"Você n?o entende," sibilou Orpheus, puxando-a para a saída dos fundos do campanário. "Ninguém pode ajudá-lo agora."
O Menino, que observava tudo com olhos arregalados, tentou intervir. "Orpheus, talvez possamos—"
Suas palavras foram interrompidas quando ele notou a transforma??o completa no rosto de Orpheus. O homem calmo e sábio que conheciam havia desaparecido. Em seu lugar estava alguém – ou algo – dominado por um terror primordial, um medo t?o profundo e visceral que parecia ter alterado suas próprias fei??es.
Foi ent?o que aconteceu. O Menino dobrou-se sobre si mesmo, como se tivesse levado um golpe invisível no est?mago. Um grito de dor escapou de seus lábios – n?o o grito de uma crian?a assustada, mas algo mais profundo, mais antigo, como o lamento de uma criatura ferida em seu amago.
"AAAAAHHHHH!" Ele caiu de joelhos, agarrando o peito com ambas as m?os. Seu corpo inteiro se contorcia em espasmos violentos, seus olhos reviravam, mostrando apenas o branco.
K correu para ele, tentando segurá-lo, estabilizá-lo. "Menino! O que foi? O que está acontecendo?"
Orpheus n?o hesitou. Com um movimento preciso, atingiu um ponto específico no pesco?o do Menino. O grito cessou abruptamente, e o corpo pequeno amoleceu, inconsciente.
"O que você fez?!" K gritou, horrorizada.
"Salvei a vida dele," respondeu Orpheus secamente, erguendo o corpo inerte do Menino sobre os ombros como se n?o pesasse nada. "E talvez a sua também, se você me obedecer agora."
K lan?ou um último olhar desesperado para Zack, ainda ajoelhado, imóvel como uma estátua. Ela deu um passo em sua dire??o.
A m?o de Orpheus agarrou seu bra?o com for?a surpreendente. "N?o olhe para trás," ordenou ele, sua voz baixa e carregada de uma urgência que K nunca havia ouvido antes. "N?o importa o que ou?a, n?o importa o que sinta. N?o olhe para trás."
Havia algo na intensidade de seu olhar, na vibra??o de terror em sua voz, que finalmente penetrou a determina??o de K. Um arrepio percorreu sua espinha, e ela assentiu lentamente, permitindo que Orpheus a guiasse para fora, com Talia seguindo de perto, silenciosa em seu próprio terror.
Eles desceram rapidamente por uma escada estreita nos fundos do campanário, emergindo em um beco escuro. Orpheus se movia com propósito, carregando o Menino inconsciente com facilidade, seus olhos constantemente varrendo as sombras ao redor.
"Para onde estamos indo?" sussurrou K, ainda lan?ando olhares preocupados para trás.
"Precisamos nos abrigar," respondeu Orpheus. Ele parou abruptamente, transferindo o Menino para os bra?os de K. "Segure-o."
K aceitou o peso do garoto, surpresa com a frieza da pele dele. "Orpheus, o que está acontecendo? Por que deixamos Zack? O que você viu nos olhos dele?"
Orpheus n?o respondeu. Em vez disso, retirou de dentro de suas vestes um pergaminho antigo, amarelado pelo tempo, coberto de símbolos complexos que pareciam mudar sutilmente quando observados diretamente.
"Escute com aten??o," disse ele, entregando o pergaminho a K. "Você precisa se esconder na terceira casa da Rua dos Ferreiros. Leve o Menino e Talia. Quando estiver lá dentro, siga exatamente as instru??es deste pergaminho. N?o altere uma única palavra, n?o modifique um único símbolo."
"Mas por quê? O que isso vai fazer?"
"Vai criar uma barreira contra o Vazio."
K franziu o cenho. "Contra o Vazio? Por que precisaríamos—"
"CALE A BOCA E FA?A O QUE EU DIGO SE QUISER VIVER!" A explos?o de Orpheus foi t?o súbita e violenta que K recuou um passo, chocada. Nunca, em todos os anos que o conhecia, ela o tinha visto perder o controle dessa forma.
Orpheus fechou os olhos por um momento, como se tentasse se recompor. Quando os abriu novamente, havia uma determina??o sombria neles. "N?o olhe para trás," repetiu ele, mais suavemente desta vez. "N?o importa o que aconte?a."
K assentiu lentamente, ainda atordoada. "E você? O que vai fazer?"
"Tentar salvar quem ainda pode ser salvo." Ele olhou na dire??o da pra?a central. "Há pessoas ainda vivas naquele ritual. N?o tenho muito tempo."
Antes que K pudesse responder, Orpheus já havia se virado e come?ado a se afastar. Ela o observou por um momento, o Menino pesado em seus bra?os, Talia tremendo ao seu lado. Ent?o, engolindo o nó na garganta, ela se virou na dire??o oposta.
"Vamos," disse a Talia. "Temos que nos apressar."
Sozinho no beco escuro, Orpheus finalmente permitiu que o tremor em suas m?os se manifestasse plenamente. O que vira nos olhos de Zack o abalara até o amago de seu ser. N?o era apenas medo – era reconhecimento. Ele sabia o que estava por vir.
"N?o há tempo," murmurou para si mesmo.
Fechando os olhos, Orpheus concentrou-se. Sua respira??o desacelerou, tornando-se profunda e rítmica. Lentamente, sua pele come?ou a mudar – n?o em cor, mas em textura. Pequenas rachaduras surgiram, como porcelana antiga prestes a se quebrar. Através dessas fissuras, uma luz escarlate come?ou a brilhar, como se seu corpo fosse apenas um invólucro para algo feito de puro fogo carmesim.
"Coyote," sussurrou ele, nomeando a técnica proibida que havia jurado nunca mais usar.
A transforma??o foi instantanea. Seu corpo pareceu explodir em energia escarlate, que se solidificou em formas idênticas a ele – clones perfeitos, cada um conectado à sua consciência, cada um movendo-se em perfeita sincronia com sua vontade.
Sem hesitar, Orpheus dividiu suas cópias em dois grupos. Metade delas disparou em dire??o ao campanário, para interceptar os assistentes de Milos antes que pudessem alcan?ar Zack. A outra metade, liderada por ele mesmo, correu em dire??o à pra?a central, onde o ritual continuava.
Enquanto corria, Orpheus murmurou para si mesmo: "Os olhos negros emergiram... a loucura deu início."
No campanário abandonado, Zack permanecia ajoelhado, imóvel como uma estátua de mármore. A luz fraca do poste do lado de fora entrava pela janela arqueada, dividindo seu rosto perfeitamente ao meio – metade iluminada, revelando fei??es humanas e familiares; metade mergulhada em sombras impenetráveis.
Seus olhos, ocultos na escurid?o, fitavam um ponto invisível no espa?o à sua frente. A Lua Negra, ainda embainhada em sua cintura, come?ou a vibrar. N?o era uma vibra??o comum, mecanica – era organica, como o pulsar de um cora??o doente, como se a própria lamina estivesse viva e ansiosa.
O céu acima do campanário escureceu gradualmente, n?o como o cair natural da noite, mas como se a própria luz estivesse sendo devorada por algo faminto. As estrelas, uma a uma, pareciam piscar e se apagar, deixando apenas um vazio negro e absoluto.
Uma presen?a come?ou a se formar ao redor de Zack – invisível, mas palpável. Era como se o próprio ar tivesse ganho peso e consciência, pressionando contra a realidade, testando suas fronteiras. Ninguém além de Zack podia senti-la, mas para ele, era t?o real quanto o ch?o sob seus joelhos.
Lentamente, um som come?ou a emergir de sua garganta. N?o era um gemido de dor ou um grito de raiva – era uma risada. Baixa a princípio, quase inaudível, crescendo gradualmente em volume e intensidade. Era um som estranho, gutural, que n?o parecia inteiramente humano – como se várias vozes estivessem rindo em uníssono, usando sua garganta como instrumento.
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Zack ergueu a cabe?a para o céu escurecido. Seus olhos agora estavam completamente negros – n?o apenas as íris, mas toda a esclera, como se tivessem sido preenchidos com tinta da mais pura escurid?o.
"Olá, Vazio," disse ele, sua voz mais profunda que o normal, reverberando com um eco estranho que n?o deveria ser possível no espa?o confinado do campanário. "Quanto tempo."
Na pra?a central, Milos estava no auge de sua obra. O círculo ritual pulsava com energia negra, os corpos dispostos em padr?es geométricos precisos ocasionalmente se contorcendo quando arcos de energia saltavam da coluna central para eles.
Ele caminhava entre suas "pe?as", ajustando uma m?o aqui, um pé ali, garantindo que cada elemento do padr?o estivesse perfeitamente alinhado. Seu rosto pálido e angular estava iluminado por uma express?o quase religiosa – êxtase e reverência misturados em partes iguais.
"Está quase completo," murmurou ele para si mesmo, ou talvez para algo que apenas ele podia ver. "Quase perfeito."
Foi quando os primeiros clones escarlates de Orpheus irromperam na pra?a, atacando os assistentes encapuzados de Milos com precis?o letal. Gritos de surpresa e dor ecoaram pelo ar, enquanto outros clones corriam para as vítimas do ritual, tentando removê-las de suas posi??es.
Milos ergueu a cabe?a, irritado pela interrup??o. Seus olhos se estreitaram ao reconhecer a técnica. "Coyote," sibilou ele. "Interessante."
Enquanto seus assistentes lutavam contra os clones, Milos voltou sua aten??o ao ritual, aparentemente despreocupado. Ele come?ou a falar, n?o para os invasores, mas para o ar acima dele.
"Oh! Piedoso Vazio, olho que tudo vê!" Sua voz cresceu em volume e intensidade, tornando-se quase um cantico. "Eu lhe ofere?o o corpo do Rei Violeta e de toda sua família, de toda sua nobreza! Eu lhe ofere?o o prazer de estar vivo!"
Sua voz falhou por um momento, uma nota de desespero se infiltrando em seu tom reverente. "Mas por favor, fale! Apenas fale comigo novamente..."
O verdadeiro Orpheus, distinguível de seus clones apenas por uma intensidade ligeiramente maior em seus olhos, avan?ou diretamente para Milos, sua katana desembainhada. Ele havia percebido algo crucial ao examinar as vítimas do ritual – os selos em seus corpos eram liga??es de alma com Milos. A única forma de quebrar o ritual e salvar as pessoas era matar o cientista louco antes que ele completasse o processo.
Mas antes que pudesse alcan?á-lo, uma figura se interp?s em seu caminho. Alta, musculosa, coberta de cicatrizes visíveis onde a pele estava exposta. Ygon sorria, uma garrafa de bebida em uma m?o, uma lamina curva e serrilhada na outra.
"N?o t?o rápido, Orpheus," disse ele, seu sorriso se alargando em algo que era mais uma exibi??o de dentes do que uma express?o de alegria. "A festa mal come?ou."
Orpheus parou, sua katana ainda erguida. "Saia do meu caminho, Ygon. Isso vai além de qualquer disputa entre você e Zack."
Ygon inclinou a cabe?a, fingindo considerar. "Hmm, n?o. Acho que n?o."
"Você está permitindo o sacrifício do seu próprio povo!" Orpheus n?o conseguiu conter a incredulidade em sua voz. "O Bairro Baixo que um dia você ajudou a proteger!"
Ygon deu de ombros, tomando um gole de sua garrafa. "E daí?"
"Zack disse que você teria sua revanche," insistiu Orpheus, tentando encontrar alguma racionalidade no homem à sua frente. "Ele cumpre suas promessas. Você sabe disso."
"Oh, n?o quero esse tipo de revanche," respondeu Ygon, balan?ando a cabe?a como se Orpheus fosse uma crian?a que n?o entendia um conceito simples. "Zack n?o levaria a sério. Ele lutaria, claro, mas com conten??o. Com... misericórdia." Ele cuspiu a última palavra como se fosse veneno.
"O que você quer, ent?o?"
O sorriso de Ygon se tornou ainda mais amplo, quase predatório. "Quero que ele lute com tudo o que tem. Sem conten??o. Sem humanidade. E para isso..." Ele fez um gesto amplo, abrangendo toda a pra?a e o ritual em andamento. "...preciso destruir tudo o que ele ama."
"Seu filho da puta doente!" Orpheus explodiu, sua compostura habitual completamente abandonada. "Você está sacrificando centenas de inocentes por uma obsess?o insana! Por um duelo!"
"Existem assassinos e estupradores tanto entre ricos quanto pobres, Orpheus," respondeu Ygon com uma calma perturbadora. "Pessoas que atacam seu próprio povo apenas por prazer. Estou apenas fazendo o mesmo."
"é por isso?" Orpheus tentou novamente, desesperado para encontrar alguma lógica, alguma humanidade no homem à sua frente. "Por causa da derrota? Por perder o título de líder do Bairro Baixo para Zack?"
Ygon jogou a cabe?a para trás e riu – um som genuinamente divertido que era ainda mais perturbador no contexto. "Títulos idiotas n?o significam nada para mim, Orpheus. O que eu quero..." Seus olhos brilharam com uma intensidade febril. "...é reviver o único momento em que me senti verdadeiramente vivo. Lutando contra Zack. No limite. Sem regras. Sem limites."
Milos, que aparentemente havia ouvido parte da conversa, ergueu a cabe?a de seu trabalho e sorriu – um sorriso fino e cruel que n?o alcan?ava seus olhos vazios. Por um momento, os olhares de Milos e Ygon se encontraram, e algo passou entre eles – um reconhecimento mútuo de loucura, de obsess?o levada ao extremo.
Ambos come?aram a rir simultaneamente – Milos com seu riso agudo e metálico, Ygon com sua gargalhada profunda e ressonante. O som de sua harmonia mórbida ecoou pela pra?a, sobrepondo-se aos gritos dos feridos e moribundos.
Orpheus apertou o cabo de sua katana com tanta for?a que seus dedos ficaram brancos. N?o havia mais nada a dizer. N?o havia argumentos contra a loucura pura. Com um movimento fluido, ele avan?ou, determinado a passar por Ygon e alcan?ar Milos, para acabar com o ritual de uma vez por todas.
Foi ent?o que aconteceu.
Uma presen?a esmagadora desceu sobre a pra?a como um manto invisível. Todos – Orpheus, Ygon, Milos, os assistentes restantes, até mesmo os clones escarlates – sentiram-na simultaneamente. Um arrepio coletivo percorreu espinhas, pele se arrepiou, respira??es foram suspensas.
Orpheus congelou no meio do movimento, seu rosto empalidecendo ainda mais. Ele conhecia essa sensa??o. Sabia o que estava por vir.
Sem uma palavra, ele abandonou o confronto e disparou na dire??o oposta, seus clones desaparecendo um a um em explos?es de energia escarlate. Ele correu como nunca havia corrido antes, em dire??o à casa onde K estaria com o Menino e Talia, para refor?ar a barreira com o pergaminho.
"Os olhos negros emergiram," murmurou ele enquanto corria, o terror evidente em cada sílaba. "A loucura deu início."
Na pra?a, Ygon e Milos permaneceram, confusos com a fuga repentina de Orpheus. Ent?o, eles também sentiram – uma press?o crescente em seus cranios, como se algo imenso estivesse tentando esmagar seus cérebros de dentro para fora. Um zumbido ensurdecedor preencheu seus ouvidos, crescendo em intensidade até que ambos cambalearam, tontos e desorientados.
Instintivamente, eles olharam para cima.
O céu acima da pra?a n?o era mais reconhecível como céu. As nuvens haviam se contorcido em formas impossíveis, as estrelas haviam se reorganizado em padr?es que feriam a mente ao tentar compreendê-los. E no centro de tudo, formando-se lentamente como uma ferida se abrindo na própria realidade, estava um olho.
N?o era um olho humano, nem de qualquer criatura conhecida. Era vasto, abrangendo metade do céu visível. Sua íris parecia conter galáxias inteiras, estrelas nascendo e morrendo em seu interior. A pupila era um abismo mais negro que a própria escurid?o, um vazio t?o absoluto que parecia sugar a própria luz, o próprio significado.
Era o olho de algo que n?o deveria existir neste plano da realidade – algo t?o antigo e vasto que a mera vis?o dele causava dor física e mental.
Milos caiu de joelhos, lágrimas de sangue escorrendo de seus olhos enquanto ele olhava para cima, em êxtase e terror misturados. Ygon permaneceu de pé, mas seu corpo tremia visivelmente, a garrafa escorregando de seus dedos e estilha?ando-se no ch?o.
O olho os observou por um momento que pareceu se estender até a eternidade. Ent?o, lentamente, ele se fechou.
E com ele, toda a luz da pra?a foi extinta.
Uma escurid?o absoluta, mais profunda que a ausência de luz, engoliu tudo. Era uma escurid?o viva, palpável, que pressionava contra a pele como água gelada, que se infiltrava nos pulm?es com cada respira??o desesperada.
No breu completo, o panico se espalhou. Os assistentes restantes de Milos, cegos e aterrorizados, tentaram acender tochas ou lanternas.
A primeira luz que se acendeu revelou, por um breve instante, uma figura distorcida a poucos centímetros do portador – cabelos brancos arrepiados como agulhas, olhos completamente negros, dentes afiados em um sorriso desumano. Ent?o a luz se apagou, e o som úmido de ossos quebrando ecoou na escurid?o.
Outra luz se acendeu em outro ponto da pra?a. Novamente, a figura apareceu, como se tivesse se teletransportado instantaneamente. Novamente, a luz se apagou, seguida por um grito abruptamente silenciado.
"Vazio!" A voz de Milos rasgou a escurid?o, trêmula de medo e desespero. "Me ajude! Me guie! Você falou comigo uma vez! Por favor, fale novamente!"
Em contraste com o panico de Milos, a voz de Ygon surgiu da escurid?o, carregada n?o de medo, mas de uma excita??o mórbida. Ele come?ou a rir, um riso crescente que ecoava pela pra?a. "ZACK!" chamou ele, provocativo. "Finalmente! FINALMENTE!"
Desesperado, Milos acendeu um fósforo e lan?ou um cubo de luz mágica para o alto – um de seus artefatos experimentais. O cubo explodiu em uma luz branca e intensa, iluminando brevemente toda a pra?a.
O que a luz revelou congelou o sangue nas veias de ambos.
No centro da pra?a, onde antes estava a coluna de energia negra do ritual, estava Zack. Ou algo que um dia havia sido Zack. Seus cabelos brancos estavam arrepiados como agulhas, apontando em todas as dire??es como se estivessem eletrificados. Seus olhos eram po?os de escurid?o absoluta, sem íris ou esclera visíveis. Seus dentes, normalmente humanos, haviam se alongado e afiado como os de um predador primitivo.
Raios de energia negra crepitavam ao redor de seu corpo ensanguentado, como relampagos em uma tempestade contida. A Lua Negra estava desembainhada em sua m?o, mas parecia diferente – mais longa, mais escura, como se estivesse absorvendo a própria luz ao seu redor.
Ao redor de Zack, um círculo de destrui??o se estendia – cabe?as, bra?os e pernas dos assistentes de Milos espalhados pelo ch?o em um padr?o que, perturbadoramente, espelhava o círculo ritual original. Sangue escorria em riachos, formando símbolos que pareciam se mover por vontade própria.
Milos, ao invés de horror, mostrou êxtase. Seus olhos se arregalaram, e um sorriso de compreens?o iluminou seu rosto. Ele olhou para o céu, onde o olho havia estado, e gritou: "Você falou comigo, Vazio!"
Ele se virou para Ygon, sua voz trêmula de excita??o. "Eu entendi! N?o eram eles – as vítimas do ritual. é ele! O Vazio quer ele como oferenda final!"
Ygon n?o respondeu imediatamente. Seus olhos estavam fixos em Zack, em sua transforma??o, em seu poder desencadeado. Um sorriso lento se espalhou por seu rosto marcado por cicatrizes.
"Finalmente," murmurou ele, quase para si mesmo. "Finalmente você n?o vai se conter."
Sem necessidade de palavras adicionais, Milos e Ygon se posicionaram, lado a lado, encarando a criatura que um dia havia sido Zack. Cada um por suas próprias raz?es distorcidas – Milos para completar sua oferenda ao Vazio, Ygon para finalmente ter sua batalha definitiva.
Milos foi o primeiro a atacar. Seus movimentos eram precisos, calculados, cada golpe visando pontos específicos no corpo de Zack. Ele usava uma combina??o de artefatos e feiti?os proibidos – agulhas que se materializavam do ar e voavam como projéteis, círculos de conten??o que brilhavam brevemente no ch?o antes de explodir em colunas de energia, líquidos corrosivos que ele lan?ava de pequenos frascos escondidos em suas vestes.
Era como se estivesse dissecando Zack em combate, testando limites, buscando fraquezas com a frieza de um cientista conduzindo um experimento particularmente fascinante.
Ygon, por outro lado, atacou com brutalidade pura. Seus golpes eram poderosos o suficiente para estilha?ar pedra, sua velocidade surpreendente para alguém de seu tamanho. Ele absorvia ferimentos com risos de prazer, como se a dor fosse apenas mais um tempero em um banquete há muito esperado. Sua técnica era caótica, imprevisível, mais instinto animal que estratégia humana.
Juntos, eles formavam uma combina??o letal – a precis?o fria de Milos complementando a fúria selvagem de Ygon.
Mas Zack – ou a coisa que Zack havia se tornado – estava em outro nível completamente.
Ele se movia como água e sombra combinadas, fluindo ao redor de ataques que deveriam tê-lo atingido, aparecendo em lugares impossíveis como se as leis da física fossem meras sugest?es. Sua for?a era absurda, capaz de estilha?ar as barreiras mágicas de Milos com um único golpe, de fazer Ygon recuar vários metros com um simples empurr?o.
E a Lua Negra... a espada se movia como se tivesse vontade própria, uma extens?o viva do bra?o de Zack, cortando através de defesas como se fossem ar. Cada golpe deixava um rastro de escurid?o no próprio ar, como feridas na realidade que demoravam segundos para se fechar.
à medida que a luta se intensificava, a transforma??o de Zack parecia se aprofundar. Sua pele come?ou a rachar em certos pontos, revelando n?o carne e sangue, mas uma escurid?o absoluta por baixo, como se seu corpo fosse apenas um invólucro para algo feito de puro Vazio. Seus movimentos se tornaram menos humanos, mais como os de uma marionete controlada por cordas invisíveis – angulares, impossíveis, perturbadores de se observar.
Milos, apesar de sua obsess?o, come?ou a perceber que havia cometido um erro terrível. O que quer que estivesse controlando Zack agora n?o era algo que pudesse ser contido, estudado ou oferecido em sacrifício. Era algo que existia para consumir, para destruir.
Ygon, no entanto, estava em êxtase. Cada ferimento que recebia, cada gota de sangue que derramava, apenas intensificava seu prazer mórbido. Esta era a luta que ele havia esperado por tanto tempo – sem regras, sem limites, sem humanidade.
A batalha se espalhou pela pra?a, destruindo o que restava do círculo ritual. Corpos foram arremessados como bonecas de pano, estruturas desabaram, o próprio ch?o rachou sob o impacto de golpes poderosos demais para serem contidos.
E acima de tudo, invisível para os combatentes mas palpável na atmosfera, o olho cósmico havia se reaberto, observando o caos com uma aten??o faminta e paciente.
A loucura havia apenas come?ado.

