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Capítulo 11: Sussurros na Cidade Silenciosa
O silêncio era errado.
Zack sentiu isso antes mesmo de empurrar a grade enferrujada que separava os esgotos da superfície. O Bairro Baixo nunca era silencioso, nem mesmo nas horas mais mortas da madrugada. Sempre havia o murmúrio de conversas distantes, o ocasional estilha?ar de vidro de uma taverna, o choro de uma crian?a, os passos apressados de alguém voltando tarde para casa.
Mas agora, nada.
A luz pálida do amanhecer se derramava sobre as ruas desertas, revelando um cenário que fez o est?mago de Zack se contrair. Portas escancaradas balan?avam suavemente ao vento. Pertences pessoais – uma boneca de pano, um chapéu gasto, uma cesta de compras – jaziam abandonados no ch?o empoeirado. O cheiro de comida apodrecendo se misturava com algo mais acre e metálico que ele reconheceu instantaneamente: sangue.
"Parece que todos saíram... ao mesmo tempo," murmurou K, seus olhos vermelhos varrendo as ruas vazias.
Zack assentiu, sua m?o nunca deixando o cabo da Lua Negra. O colapso emocional que sofrera nos esgotos ainda pesava sobre ele, mas agora havia algo mais forte tomando conta – uma determina??o sombria, uma promessa silenciosa de que n?o falharia novamente. N?o permitiria que sua fraqueza colocasse os outros em perigo.
"Fiquem atentos," ordenou ele, sua voz baixa mas firme. "N?o sabemos o que ainda está por aqui."
Orpheus se posicionou na retaguarda do grupo, mais vigilante do que nunca. A história que compartilhara o deixara exposto de uma forma que claramente o incomodava. O Menino caminhava ao lado de K, seus olhos curiosos captando detalhes que os outros pareciam ignorar – uma marca estranha aqui, um padr?o de sombras ali.
Avan?aram pela rua principal, cada passo ecoando de forma perturbadora no silêncio. As lojas e residências contavam a história silenciosa de uma evacua??o for?ada e repentina: refei??es abandonadas no meio, cadeiras tombadas como se seus ocupantes tivessem se levantado em panico, portas arrombadas de dentro para fora.
Foi K quem notou primeiro.
"Zack," chamou ela, apontando para o ch?o. "Olhe."
Marcas de arrasto cortavam a poeira da rua, dezenas delas, todas seguindo na mesma dire??o – em dire??o à pra?a central. Algumas eram largas, como se corpos tivessem sido arrastados; outras eram mais estreitas, como se alguém tivesse tentado resistir, cravando os dedos no ch?o enquanto era puxado.
Orpheus se ajoelhou para examinar uma mancha escura no ch?o. "Sangue," confirmou ele. "Algumas horas apenas."
Mas n?o era apenas o sangue que chamava a aten??o. Em alguns pontos, as manchas formavam padr?es parciais, como se tivessem sido deliberadamente espalhadas para criar símbolos.
"Ali," disse o Menino, apontando para uma parede próxima.
Pequenos símbolos haviam sido riscados na pedra – círculos concêntricos, linhas que se cruzavam em angulos impossíveis, espirais que pareciam se mover quando observadas pelo canto do olho. Eram os mesmos símbolos que haviam visto nos equipamentos de Milos e no vilarejo abandonado.
"Alguns destes s?o recentes," observou Orpheus, passando os dedos sobre as marcas sem tocá-las. "Mas outros... estes aqui têm semanas, talvez meses."
"Como n?o percebemos?" perguntou K, a incredulidade tingindo sua voz. "Estávamos cegos?"
"Talvez quiséssemos estar," respondeu Zack, sua voz carregada de uma amargura que n?o tentou esconder.
Continuaram avan?ando, a tens?o crescendo a cada nova descoberta. Em uma esquina, o Menino parou abruptamente, abaixando-se para pegar algo do ch?o. Era um pequeno cavalo de madeira, o tipo de brinquedo que uma crian?a carregaria por toda parte. Estava manchado de sangue em um dos lados.
O Menino o segurou por um momento, uma express?o enigmática em seu rosto jovem, antes de colocá-lo cuidadosamente de volta no ch?o, como se fosse um objeto sagrado.
Quando chegaram à Caneca Furada, Zack sentiu um aperto no peito. A taverna que servira como seu refúgio por tanto tempo estava irreconhecível. As janelas estavam quebradas, a porta pendia de uma única dobradi?a. No interior, mesas estavam viradas, garrafas estilha?adas cobriam o ch?o, e o balc?o de madeira maci?a onde tantas histórias haviam sido compartilhadas estava manchado de sangue seco.
"Alf..." murmurou Zack, seus olhos varrendo o local em busca de qualquer sinal de seu amigo.
Foi ent?o que ouviram – um ruído fraco vindo do por?o, como algo sendo derrubado, seguido de um solu?o abafado.
Em um instante, todos estavam em alerta. Zack fez um gesto silencioso, indicando que K e o Menino deveriam ficar para trás enquanto ele e Orpheus investigavam. Com a Lua Negra parcialmente desembainhada, ele se aproximou da porta do por?o, que estava entreaberta.
O cheiro de medo era quase palpável quando desceram os degraus rangentes. A escurid?o do por?o era quebrada apenas por um fino raio de luz que se infiltrava por uma pequena abertura no teto. No canto mais distante, entre barris vazios e caixas quebradas, algo – ou alguém – se moveu.
"Quem está aí?" chamou Zack, sua voz firme mas n?o amea?adora.
Um movimento súbito, e ent?o uma figura se lan?ou das sombras com um grito desesperado. Zack mal teve tempo de desviar quando uma garrafa quebrada cortou o ar onde sua cabe?a estivera um segundo antes. Ele agarrou o pulso do atacante, imobilizando-o com facilidade.
"Talia?"
A jovem gar?onete da Caneca Furada estava quase irreconhecível. Seus cabelos castanhos, normalmente presos em uma tran?a arrumada, estavam desgrenhados e sujos. Seu rosto, conhecido por seu sorriso tímido, estava contorcido em uma máscara de terror absoluto. Seus olhos, arregalados e injetados, n?o pareciam reconhecer Zack.
"N?o! N?o me leve! N?o para a pra?a!" ela gritou, debatendo-se freneticamente.
K desceu rapidamente as escadas, aproximando-se com as m?os erguidas em um gesto pacificador.
"Talia, somos nós," disse ela suavemente. "Você está segura. Ninguém vai te levar."
Lentamente, o reconhecimento come?ou a surgir nos olhos da jovem. Seu corpo tremeu violentamente antes de colapsar em solu?os. K a envolveu em um abra?o protetor, guiando-a até um caixote onde pudesse se sentar.
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"O que aconteceu aqui, Talia?" perguntou Zack, ajoelhando-se para ficar no nível dos olhos dela. "Onde est?o todos?"
O relato veio em fragmentos entrecortados por solu?os e momentos em que ela parecia se perder em memórias horríveis:
"Eles vieram quando a lua estava no alto... n?o eram soldados comuns... seus olhos... vazios..."
Ela abra?ou os próprios joelhos, balan?ando-se para frente e para trás.
"O homem pálido n?o falava, apenas... apontava. E as pessoas obedeciam, como se... como se n?o pudessem resistir."
Zack e Orpheus trocaram um olhar sombrio. Milos.
"Havia figuras encapuzadas," continuou Talia, sua voz agora quase um sussurro. "Desenhando no ch?o da pra?a... um círculo enorme... cantando algo que doía nos ouvidos."
Seus olhos se encheram de lágrimas frescas.
"Alf reuniu alguns de nós... tentou lutar... mas aquele homem, o pálido, ele apenas... sorriu. E Alf caiu, gritando, segurando a cabe?a."
Zack sentiu a raiva crescer dentro dele, fria e cortante como gelo. Seus punhos se cerraram involuntariamente.
"Depois veio o outro..." A voz de Talia falhou. "Alto, com cicatrizes... ria enquanto observava. Disse algo sobre 'finalmente uma revanche digna'..."
Orpheus enrijeceu visivelmente ao ouvir a descri??o. Ygon.
"Eu estava aqui embaixo," continuou ela, indicando o por?o com um gesto trêmulo. "Me escondi... ouvi os gritos... depois cantos... depois... nada. Nada por horas."
Um silêncio pesado caiu sobre o grupo enquanto absorviam o relato de Talia. O Menino, que estivera observando silenciosamente da escada, finalmente falou:
"O círculo está quase completo."
Todos se viraram para ele, surpresos pela calma em sua voz.
"O que você quer dizer?" perguntou K.
Mas o Menino apenas olhou para Zack, seus olhos transmitindo algo que as palavras n?o podiam expressar.
Subiram do por?o para discutir o próximo passo, deixando Talia sentada em um canto, enrolada em um cobertor que K encontrara atrás do balc?o.
"Precisamos ver o que está acontecendo na pra?a," disse Zack em voz baixa. "Entender o que Milos está fazendo antes de agir."
"Concordo," assentiu Orpheus. "Se for o que suspeito, intervir sem prepara??o seria suicídio."
"E quanto a ela?" K indicou Talia com um movimento discreto da cabe?a.
"Podemos deixá-la aqui," sugeriu Orpheus. "Escondida. Ela sobreviveu até agora."
Como se tivesse ouvido – e talvez tivesse – Talia se levantou abruptamente, seus olhos arregalados de panico.
"N?o me deixem!" implorou ela, agarrando o bra?o de K. "Por favor... prefiro morrer lá fora com vocês do que sozinha aqui no escuro..."
Zack observou a jovem por um longo momento. O terror em seus olhos era genuíno, mas havia algo mais ali – uma determina??o nascida do desespero.
"Ela vem conosco," decidiu ele finalmente.
"Zack, ela vai nos atrasar—" come?ou Orpheus.
"Ninguém mais fica para trás," cortou Zack, seu tom n?o permitindo argumentos. "Ninguém."
Orpheus sustentou seu olhar por um momento antes de assentir em silenciosa concordancia.
Zack delineou rapidamente um plano. Conhecia o Bairro Baixo melhor que a maioria – seus becos, suas passagens secretas, seus telhados interconectados. Eles usariam as rotas elevadas, aproximando-se da pra?a central pelos telhados, onde teriam uma vis?o clara sem serem facilmente detectados.
A subida foi difícil, especialmente para Talia, que estava fraca e trêmula. K permaneceu ao seu lado, oferecendo apoio físico e palavras de encorajamento. O Menino se movia com uma agilidade surpreendente, quase como se conhecesse o caminho instintivamente.
à medida que se aproximavam da pra?a central, algo estranho come?ou a acontecer. O ar ficou mais denso, carregado com um cheiro metálico que lembrava sangue, mas também algo mais antigo e profundo – como terra recém-cavada e carne em decomposi??o. As sombras nos becos abaixo pareciam se mover independentemente de suas fontes, às vezes parecendo alcan?ar o grupo com dedos alongados e escuros.
Um zumbido baixo, quase subliminar, come?ou a pressionar seus ouvidos. Talia cobriu os seus em agonia silenciosa, seu rosto contorcido em dor. Até mesmo Orpheus, normalmente impassível, parecia desconfortável.
Zack sentiu a Lua Negra vibrar em sua bainha, como se respondesse à energia que permeava o ar. Era uma sensa??o familiar e perturbadora – a lamina estava... faminta.
O céu acima da pra?a tinha uma colora??o estranha, como se a própria luz estivesse sendo distorcida, dobrada em torno de algo que n?o deveria existir neste plano da realidade.
O Menino parecia estranhamente atraído por tudo isso, seus olhos fixos na dire??o da pra?a com uma intensidade inquietante. Por mais de uma vez, Zack teve que chamá-lo de volta quando ele se adiantava demais, como se estivesse sendo puxado por uma for?a invisível.
Estavam cruzando uma passarela estreita entre dois telhados quando Orpheus ergueu a m?o em um sinal de alerta. Abaixo deles, um patrulheiro encapuzado caminhava lentamente, sua cabe?a se movendo de um lado para o outro como se farejasse o ar.
Todos congelaram. O Menino, no meio da passarela, quase escorregou em uma telha solta. Zack o agarrou pelo colarinho no último instante, puxando-o para a seguran?a com um movimento silencioso.
O patrulheiro parou. Sua cabe?a encapuzada se ergueu lentamente, olhando diretamente para cima. Por um momento terrível, Zack teve certeza de que haviam sido descobertos. Mas ent?o, após o que pareceu uma eternidade, a figura continuou seu caminho, desaparecendo em uma esquina.
Respira??es contidas foram finalmente liberadas.
"Por pouco," sussurrou K.
Continuaram avan?ando com cautela redobrada até alcan?arem seu destino – um campanário abandonado que oferecia uma vis?o perfeita da pra?a central. Zack foi o primeiro a se posicionar na abertura arqueada, seu corpo tenso como uma corda de arco.
O que viu fez seu sangue gelar.
A pra?a central do Bairro Baixo, normalmente um lugar de comércio animado e encontros sociais, havia sido transformada em algo saído dos pesadelos mais profundos. Um círculo ritual massivo ocupava todo o espa?o, seus símbolos complexos parecendo mudar sutilmente quando observados diretamente, como se existissem parcialmente em outra dimens?o.
Dentro do círculo, centenas de corpos estavam dispostos em padr?es geométricos precisos – linhas, espirais, constela??es macabras de carne humana. Alguns estavam claramente mortos, seus rostos congelados em express?es de terror final. Outros, mais perturbadoramente, pareciam respirar fracamente, seus olhos abertos mas vazios, como se suas almas tivessem sido arrancadas, deixando apenas cascas vazias.
No centro exato da pra?a, uma coluna de energia escura se erguia até a altura de três homens, pulsando como um cora??o doente. Ocasionalmente, arcos de energia negra saltavam da coluna, conectando-se a diferentes corpos no círculo, que se contorciam brevemente antes de voltarem à imobilidade.
E caminhando metodicamente entre os corpos estava Milos. Seu rosto pálido e angular estava concentrado, quase reverente, enquanto fazia anota??es em um livro antigo. De tempos em tempos, ele se ajoelhava para ajustar a posi??o de um bra?o ou perna, garantindo um alinhamento perfeito com o padr?o maior.
Assistentes encapuzados estavam posicionados em pontos específicos do círculo, suas m?os erguidas como se mantivessem algum tipo de barreira ou campo de energia.
Talia sufocou um grito ao ver a cena. K cobriu sua boca rapidamente, puxando-a para longe da abertura.
O Menino observava com uma fascina??o perturbadora, seus olhos refletindo a energia escura que pulsava abaixo.
"A Sétima Configura??o," murmurou Orpheus, o horror genuíno em sua voz fazendo Zack desviar o olhar da pra?a para encará-lo.
"Você conhece isso?"
"Apenas... lendas," respondeu Orpheus, sua voz tensa. "Um ritual proibido mesmo entre os mais profanos. N?o é apenas drenagem de energia vital... é uma reconstru??o. Ele está... construindo algo."
Zack voltou sua aten??o à pra?a, a raiva fria crescendo dentro dele enquanto sua m?o apertava o cabo da Lua Negra com tanta for?a que seus dedos doíam.
Foi ent?o que ele viu – uma figura familiar entre os corpos dispostos no círculo. Colocado em uma posi??o de destaque próxima ao centro, seu corpo formando parte de um símbolo maior, estava Alf. Seu peito subia e descia em respira??es rasas, seus olhos abertos mas vazios, fixos no céu distorcido acima.
"Alf..." A palavra escapou dos lábios de Zack como uma ora??o.
E ent?o, como se a situa??o n?o pudesse ficar pior, Zack notou outra presen?a. Em um ponto elevado na borda da pra?a, sentado casualmente sobre uma estátua caída, estava um homem alto com cicatrizes visíveis no rosto e bra?os expostos. Ele observava o procedimento com um sorriso inquietante, ocasionalmente bebendo de uma garrafa.
Ygon.
Zack sentiu algo quebrar dentro dele. Sem pensar, ele fez um movimento como se fosse descer imediatamente, pronto para mergulhar no caos abaixo.
A m?o de Orpheus agarrou seu bra?o com for?a surpreendente.
"N?o agora," sussurrou ele urgentemente. "Olhe o que ele está fazendo. Isso n?o é apenas um ritual de drenagem. Ele está... construindo algo."
"O que podemos fazer?" perguntou K, sua voz tensa. "S?o muitos deles..."
"Ele está quase terminando," disse o Menino, sua voz estranhamente calma. "O círculo vai se fechar quando a lua atingir o zênite."
Todos se viraram para ele, surpresos n?o apenas pelo conhecimento, mas pela certeza em sua voz.
Antes que alguém pudesse questionar, algo perturbador aconteceu. Milos, ainda no centro da pra?a, parou subitamente seu trabalho. Seu corpo ficou completamente imóvel por um momento, como uma estátua. Ent?o, lentamente, sua cabe?a se virou, olhando diretamente na dire??o do campanário onde estavam escondidos.
Mesmo à distancia, Zack podia ver o sorriso que se formou no rosto pálido de Milos – um sorriso que n?o alcan?ava seus olhos vazios. Ele ergueu uma m?o e fez um gesto casual para dois de seus assistentes, que imediatamente come?aram a se mover na dire??o do grupo.
"Ele sabe que estamos aqui," sussurrou K.
O tempo para observa??o havia acabado. A hora da a??o havia chegado.

