O Round sequer tinha come?ado.
O Coliseu estava preso numa respira??o coletiva. Até os Animadores pareciam minguar, as vozes soltando ruídos curtos como se alguém tivesse dado play num arquivo corrompido. A névoa nadava em volta das pernas das pessoas, densa, quase consciente.
Ribério sentiu a esfera no bolso esquentar de novo. O mini-inseto tremeu e fez um som que podia ter sido um suspiro de desdém.
— ó… que momento bonito, né? Todo mundo segurando a alma… dramático…
sussurrou ele, metade para si, metade para o inseto.
Capella ergueu a sobrancelha. Thua mordeu o lábio, meio divertida, meio em panico. Askiel, no centro, mantinha-se vigilante, asas arregaladas, laminas prontas para qualquer monstruosidade que saísse daquele vazio.
O silêncio se espessou. A coisa no centro moveu uma costela que n?o deveria mover e olhou para a arquibancada como quem escolhe o que mastigar primeiro.
Ent?o Ribério fez o impossível: enfiou a m?o no bolso, murmurou algo curto, e a pequena esfera translúcida saiu como se fosse cuspida por um motorzinho. Ela pairou um centímetro acima da palma, brilhando estranhamente. O mini-inseto esticou as antenas.
— Vai lá, sugar isso aí. Faz o truquezinho.
ele disse baixo.
A esfera abriu uma boca invisível e come?ou a puxar a névoa. Devagar, num gesto que mais parecia alguém apagando uma vela, a fuma?a foi sendo engolida em torno da esfera. A névoa que cobria o espa?o entre o monstro e a arquibancada virou um funil e foi sugada como água por uma bomba minúscula.
A plateia reagiu em uníssono: primeiro confus?o; depois indigna??o.
— “Que porra é essa?!”
— “CORTA ISSO, PRODU??O!”
— “Mano, que falta de no??o!”
Os Animadores estalaram no ar, tentando preencher. Um deles for?ou uma risada e travou; outro emitiu um som de erro, como se alguém tivesse tentado ligar duas transmiss?es diferentes ao mesmo tempo. O diretor de arena, o patr?o, o cara que cuidava da barreira, chamado no jarg?o “Mestre de Palco” (sei lá por que t? revelado tanta coisa dele, surto criativo :*) franziu o cenho de tal forma que a express?o cortou o resto do sal?o.
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Ele piscou para os técnicos, procurou os controles, os alarmes. Nada. A barreira arcana, os sensores; todos indicavam integral. E ainda assim, Ribério acabara de sugar a névoa que fazia parte do cenário. Sem contato físico com a criatura. Sem ativar nenhum gatilho.
O Mestre de Palco apertou a mandíbula. Alguém ao lado explicou (ou tentou explicar) sem entender:
— “Ele… n?o passou pela barreira. Ele puxou parte do ambiente pra dentro da esfera.”
A ficha caiu devagar, como gelo na água.
— “Ele n?o passou pela barreira...”
murmurou o patr?o, com a voz pequena por um instante.
— “Ele teleportou uma parte dele pra dentro da fuma?a. Só pode... e eu n?o vi isso...”
A criatura, que vinha montando sua geometria errada, desviou lentamente a cabe?a para Ribério. Os fragmentos de rosto, as bocas sem garganta, inclinaram-se num conjunto desconexo que parecia tentar entender como alguém tinha ousado tocar seu palco.
Ribério sorriu, meio sem gra?a, mas com aquele brilho de quem sabe o que faz.
— Calma, galera. Vai ficar mais bonito assim.
ele falou alto o suficiente para que chegasse ao setor VIP, onde os gritos come?aram a se transformar em pedidos de expuls?o.
Askiel grunhiu, percebendo o novo perigo. O Scan alegava erro, mas agora tremia, como se n?o conseguisse acompanhar uma presen?a dividida entre dois estados.
— “Cobrem-no!”
gritou um do staff, mas a ordem perdeu for?a na boca quando o patr?o, agora realmente interessado, virou o rosto e olhou para a névoa que restava: onde Ribério havia sugado, havia uma fresta, um vazio que piscava, como uma ferida que respirava.
Do vazio, uma ponta, uma sombra do corpo de Ribério, como se fosse um peda?o de l? puxado por dentro, tentou se recompor. Era apenas a extremidade de algo que n?o devia existir: a borda de uma m?o que n?o estava inteira.
A coisa no centro abriu bocas ao mesmo tempo. Um som desordenado saltou, e todas as falas se alinharam numa frase faminta.
— “—VOCê—ME—CHAMOU—”
O Coliseu explodiu em ruído. Alguns come?aram a vaiar Ribério. Outros, aplaudir...? Ninguém sabia. Só havia uma certeza: a estratégia tinha funcionado em parte, e, ao mesmo tempo, tinha atraído para ele a aten??o de algo que n?o aceitava ser mexido.
Ribério, com a esfera tremendo na m?o, sorriu para a plateia e, sem hesitar, soprou.
— “Inseto, segura firme. Agora é teu show.”
E puxou mais um peda?o da névoa. A criatura moveu-se em resposta, como quem tenta morder uma m?o que já entrou pela gola da própria camisa. Askiel lan?ou-se para frente, olhos fixos, e o Mestre de Palco amaldi?oou o nome que ainda n?o sabia do rapaz.
O jogo mudara. N?o havia mais só a fera, havia um palco maculado, um técnico de arena derrotado pela astúcia de um moleque, e um Ribério que podia, de algum modo, tocar o “erro” sem se desfazer.
A criatura come?ou a formar palavras, diretas agora, uma a uma, devagar, como se cada sílaba custasse um peda?o de si:
— “—AINDA—N?O—ACABOU—”
E Ribério sorriu mais largo. N?o porque achava engra?ado, mas porque sabia que havia conseguido, pela primeira vez, transformar o silêncio errado em algo que ele poderia manipular.
Só que manipular n?o era a mesma coisa que dominar. E o Coliseu, inteiro e partido, esperava pelo momento em que a conta viraria contra ele.

