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40,1. A SEGUNDA LUTA: o peso da queda

  O caminho de volta até o coliseu estava silencioso.

  Ribeiro vinha andando com passos tranquilos, ainda secando uma gota de água do cabelo, como se nada importante estivesse prestes a acontecer.

  A névoa flutuava ao lado dele, inquieta.

  — “Você realmente n?o vai comer nada antes disso…?”

  — Depois.

  respondeu, automático.

  — “assim você passa fome...”

  — E…?

  A névoa suspirou, um som impossível, como vento perdendo a paciência.

  Quando chegou na entrada dos lutadores, o funcionário olhou para ele com express?o confusa:

  — "Você… tá estranho hoje."

  — Banho.

  Ribeiro respondeu, dando de ombros.

  — "N?o, é… outra coisa."

  Ribeiro n?o insistiu.

  Ele só seguiu.

  A névoa murmurou, baixa:

  — “O público tá uma pilha de energia hoje… n?o posso culpar eles. O cara de hoje é nível… complicado.”

  — O que isso quer dizer?

  — “Ah, nada! Só… boa luta :D”

  Ribeiro suspirou fundo.

  E entrou.

  A ENTRADA

  O coliseu explodiu em gritos, mas Ribeiro entrou como quem chega atrasado no trabalho.

  Um passo depois do outro, sem postura de grande guerreiro, sem aura de campe?o, apenas… Ribeiro.

  Ele levantou uma m?o num aceno pregui?oso.

  A névoa atrás dele fez uma gracinha flutuando em forma de coelhinho.

  O público riu.

  Mas do outro lado… n?o havia risos.

  O Gryvy apenas o observava.

  Flutuava cerca de um palmo acima do ch?o, chamas neutras ondulando como se respirassem.

  Seu corpo era uma figura humanoide moldada em luz translúcida, e no peito, brilhando como uma cicatriz cósmica, estava a tatuagem da estrela quebrada.

  Ele inclinou a cabe?a, curioso.

  — "Ent?o… você é o semideus instável."

  Ribeiro co?ou a nuca.

  — Provavelmente.

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  O Gryvy deu um sorriso… calmo, quase gentil.

  — "Eu observo este coliseu desde que nasci. Este plano é barulhento. A vida é barulhenta. Mas você… você caminha como quem carrega uma morte silenciosa."

  A névoa, sussurrando ao ouvido do Ribeiro:

  — “Ele é do tipo poeta… cuidado.”

  — Que ótimo.

  murmurou Ribeiro.

  COME?O DO COMBATE

  O som do gongo ecoou como um trov?o.

  O Gryvy simplesmente desapareceu.

  Ribeiro piscou e já estava sendo puxado para o alto, como se uma m?o invisível tivesse agarrado seu peito.

  — Tch—

  O ch?o sumiu.

  O ar sumiu.

  A vis?o virou pontinhos brilhantes.

  Ele só percebeu o que aconteceu quando já estava a duzentos metros do ch?o.

  A névoa berrou:

  — “RIBEIRO—”

  E ent?o a gravidade inverteu.

  Ele despencou.

  O ar cortou a pele.

  As costelas vibraram.

  A queda acelerou até virar só um borr?o.

  — Porraaa—!!

  Uma for?a lateral o arrancou da queda segundos antes de virar uma panqueca humana, o jogando contra a parede externa da arena. Pedra quebrou. Pó voou.

  Ribeiro caiu ajoelhado, tentando recuperar o ar.

  O Gryvy pousou à frente dele, com passos leves, controlando sua própria gravidade como quem respira.

  — "Você aguenta. Bom."

  — "Mas n?o entende."

  — "N?o compreende o peso que carrega."

  Ribeiro tentou se levantar, mas algo o puxou para baixo, a gravidade aumentada, esmagando seus ossos.

  As pedras ao redor racharam.

  — “Ribeiro, levanta!!”

  a névoa gritou.

  — N?o dá…

  ele rosnou, respirando com dificuldade.

  O Gryvy tocou o ch?o com a ponta do pé.

  A press?o duplicou.

  Ribeiro quase desmaiou ali mesmo.

  O Gryvy falou suave, sem ódio:

  — "A vida é peso. A sua, no entanto… está rachando."

  E ent?o Ribeiro… apagou.

  Seu corpo caiu.

  Sua cabe?a bateu na poeira.

  A névoa gritou o nome dele.

  O Gryvy recuou.

  — "Morto? N?o… apenas caído."

  Ele fechou os olhos, decepcionado.

  — "Pensei que seria mais."

  O SUBCONSCIENTE

  Um silêncio azul tomou tudo.

  Ribeiro abriu os olhos e viu água.

  Ondas serenas.

  Profundezas infinitas.

  Aqua estava sentada sobre a superfície como se fosse sólida, balan?ando os pés, sorrindo.

  — "Você demorou, hein."

  — "…Aqua? "

  Ribeiro perguntou, ainda meio grogue.

  — "Você parou de me visitar, seu ingrato. Eu tive que puxar você à for?a."

  Ribeiro ia responder, mas ela apontou pra ele:

  — "Vamos come?ar direto:

  você é um semideus, Ribeiro.

  E está apanhando… de um monge com fogo gravitacional.

  Você tem no??o de como isso é ridículo?"

  Ele ficou em silêncio.

  Aqua riu.

  — "E outra. A névoa?"

  — "Aquilo n?o era pra ter personalidade. Muito menos humor. Mas você… você tem um talento especial pra quebrar tudo que toca."

  Ela jogou água nele. Literalmente.

  — "Você perdeu porque luta pequeno.

  Porque pensa pequeno.

  Porque se esquiva como humano."

  Ela se inclinou, olhos brilhando como mar revolto:

  — "Ribeiro…

  você pode ser mais criativo."

  Ele engoliu seco.

  Aqua estalou os dedos.

  — "Dois golpes e ele cai."

  — "Por que você n?o consegue?"

  Ela encostou a m?o no peito dele.

  — "Vai lá. Acorda."

  — "E mostra a esse monge o que é cair de verdade."

  A VOLTA

  Ribeiro abriu os olhos com um tranco.

  A gravidade do Gryvy ainda o segurava no ch?o… até que a névoa explodiu numa espiral de vento e água, ultrapassando as m?os invisíveis.

  — “EU TAVA TE CHAMANDO, SEU FILHO DA—”

  — Depois.

  ele murmurou, se levantando.

  O Gryvy arregalou os olhos.

  A press?o que esmagava Ribeiro… desapareceu.

  N?o diminuiu.

  N?o quebrou.

  Simplesmente parou de existir.

  Ribeiro levantou o rosto.

  Pela primeira vez… sorriu.

  — Minha vez... He... He...

  O Gryvy inclinou levemente a cabe?a, pela primeira vez… perdido.

  — “Ah…?”

  A palavra escapou, curta, honesta.

  Como se finalmente tivesse encontrado algo que n?o entendia.

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