O sol ainda queimava quando Ribeiro finalmente se mexeu. A poeira assentara. O corpo todo latejava com a viagem, mas a sensa??o mais estranha vinha de dentro: um riso manso, metálico, que n?o vinha do lado de fora, vinha do buraco onde o Inseto costumava pousar.
Ele abriu a m?o; o selo sob o manto bateu uma vez, curto, e o riso ecoou como se alguém cutucasse um metal frio dentro da costela.
— Tá… tá aqui
murmurou ele, tirando uma espécie de luva de fuma?a e olhando para a palma. N?o havia nada. Só linhas finas, como veias de tinta sobre a pele.
A voz do Inseto n?o estava mais apenas no ombro. Quando Ribeiro respirou, o ar trouxe um pensamento espelhado: instintos, dicas, memórias que n?o eram dele. N?o era invas?o: era convívio estranho, como dividir um corpo com outra coisa que aprende a andar.
Ele se sentou sobre uma pedra quente e tentou, pela primeira vez, fazer a dobra do vento sem o menino olhando. Lembrou do movimento: esperar, n?o puxar, suc??o, n?o empurr?o. Fechou os olhos, conteve a respira??o até sentir o ar afinar, espremendo.
O espa?o respondeu. Um fio de areia se soltou do ch?o e girou ao redor do dedo dele. Por um segundo, minúsculo e perfeito, Ribeiro flutuou, quase nada; um salto de meio palmo. O riso no peito se tornou algo como aprova??o.
Levantou-se. O deserto adiante n?o oferecia mais vis?es, mas havia um som agora: distante, como um sino enterrado, um canto que vinha do sul, a terra parecia vibrar numa frequência que fazia o próprio selo doer.
Foi na dire??o daquele som que ele encontrou o marco.
Era um posto de vigia caído, meio soterrado pela areia, com a madeira estilha?ada e inscri??es queimadas no batente. As marcas n?o eram escritas normais; pareciam tentativas falhas de fonemas. Ribeiro aproximou o rosto e viu, pela casca rachada, arranhados em padr?o irregular:
A u R M F Q K J M d
As letras saltaram em sua mente como se o lugar tentasse lembrar de uma palavra e n?o conseguisse. Ele percebeu, sem saber por que, que o “Au” brillhava numa sombra de cor diferente, n?o ouro real, mas a lembran?a do ouro, o sinal que o menino apontara.
Havia algo na base do poste: um pequeno nicho, perfeito como se alguém o tivesse feito para guardar uma moeda. Ribeiro enfiou a m?o e sentiu metal frio. Retirou o que havia dentro. Era uma escama redonda, parecida com a que o menino mostrara no deserto, mas gravada com um símbolo simples: um círculo partido por uma fenda vertical, a mesma fenda que aparecera nas fendas da Masmorra nas histórias.
Ao colocar a escama na palma, um sopro tocou a face de Ribeiro, como se o próprio objeto exalasse ar. O inseto riu mais fundo dentro dele. E ent?o, como se o poste tivesse guardado também uma voz, algo ressoou no peito de Ribeiro: uma frase sussurrada, n?o por palavras formadas, mas por imagens rápidas, neve escura, lamina alojando-se em carne, e um nome murmurado que queimou a garganta dele: Mas.
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Ribeiro engoliu. A palavra tinha o peso de uma promessa e o gosto de cinzas.
Perto do marco, numa fenda da madeira, havia um peda?o de pano remendado. Ribeiro puxou e abriu com cuidado. Dentro, um bilhete dobrado, com a caligrafia errática de alguém que escreve com pressa e vento.
Quando o deserto cantar, vá ao marco.
Quando o vento pedir, mostre o selo.
Au é a chave que ninguém entende.
O Menino
Simples. Direto. Sem floreios. A letra vibrava no papel como se carregasse estática.
Ribeiro encostou o bilhete no peito. O selo encontrou contato com a escama e vibrou, n?o mecanicamente, mas como se reconhecesse um compasso. A sensa??o no peito mudou: agora havia um fio que ligava o objeto ao selo, e através desse fio, uma pequena memória atravessou como um flash: o menino soprando sobre a placa de metal, ensinando, sorrindo como quem aposta num segredo.
Ele podia seguir ali e ent?o, fechar o ciclo: procurar o menino, entender quem o enviara, abrir o que o marco queria abrir. Porém, quando olhou para o sul, o canto metálico cresceu mais forte, n?o vindo apenas do vento, mas de longe, da dire??o conhecida por muitos como “o caminho da Lan?a”. Um som de fundo, grave, que lembrava tamborilar sobre ferro frio.
Ribeiro sentiu algo novo: n?o curiosidade infantil, nem mera investiga??o, uma obriga??o. O menino n?o fora um acaso. As marcas, a escama, o bilhete: tudo isso era uma m?o estendida por alguém que sabia quais corpos carregavam inscri??es verdadeiras.
Ele guardou a escama no bolso, alinhou o pano sobre o bra?o, e p?s o bilhete dentro do manto, junto ao selo. Experimentou a dobra do vento mais uma vez; desta vez o espa?o abriu com menos esfor?o, e ele cruzou um trecho de areia em três saltos curtos. Era suficiente para acompanhar a trilha de marcas que o vento deixava, como se alguém, muito à frente, tamborilasse um caminho no ar.
Quando alcan?ou o topo de uma duna, Ribeiro parou e olhou para trás. O posto, os arranh?es, o bilhete, tudo parecia menor, mas mais claro. O Inseto riu uma última vez, desta vez carregado de algo que poderia ser afeto.
— (?@?_?@?)
murmurou Ribeiro, em voz baixa, e sorriu.
Ele n?o tinha respostas. N?o recebera histórias completas; n?o ouvira nomes que explicassem tudo. Mas tinha o sinal, a chave, o Au que brilhava como promessa, e um caminho que parecia cantado pela própria terra.
E, ainda que a noite caísse rápido e o frio mordesse, a presen?a dentro dele, o Inseto que agora riria por dentro, era companheira mais segura do que antes.
Quando o som gigante ao sul ondulou novamente, uma nota longa, pura, que atravessou o céu como uma corda estendida, Ribeiro seguiu. N?o por curiosidade só, mas porque algo no peito, esse novo e íntimo companheiro, tinha fé no menino do vento.
O deserto voltou a engolir os passos. No corpo, o selo aquecia, respondendo. No bolso, a escama descansava, e no manto, o bilhete tremia como se quisesse sair e correr na frente.
Ribeiro n?o prometeu encontrar todas as respostas. Prometeu apenas uma coisa pequena e concreta: seguir o canto até onde o vento guiasse, e carregar consigo o que o menino deixara, Au, o rastro do ouro, a palavra que ninguém mais entenderia, a primeira pista de algo maior.
E quando a areia fechou atrás dele, o mundo pareceu, por uma fra??o de segundo, prender a respira??o, como se também esperasse para ver o que o vento faria a seguir.

