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36. O garoto que pedia ao Vento

  O deserto respirava como um animal cansado.

  Ondas de calor subiam do ch?o rachado, distorcendo a paisagem em miragens que imitavam movimento, cidade, água, tudo mentira.

  Ribeiro avan?ava devagar. O selo ainda pulsava sob o manto, quente demais para ignorar, frio demais para entender.

  O Inseto no ombro estalava as antenas como se aprovasse a lentid?o do passo.

  Ali, qualquer pressa era puni??o.

  — Ele devia estar por aqui...

  murmurou Ribeiro, voz arranhada pelo ar seco.

  O Inseto respondeu com um tic-tic impaciente.

  Rastros de um Menino que N?o Deixa Pegadas

  No deserto, quase nada deixava marca.

  Mas rumor deixa sombra.

  E Ribeiro tinha ouvido três:

  "Um garoto que anda sem tocar o ch?o."

  "Um menino que conversa com o vento."

  "Um pequeno que some quando você pisca."

  Parecia exagero, até Ribeiro sentir uma dobra de ar ro?ando sua costela, fina como lamina fria.

  Ele seguiu.

  Encontrou restos de brinquedos feitos de ossos polidos, pequenas fitas coloridas presas em arbustos mortos e marcas circulares no ch?o, como se algo tivesse girado muito rápido ali.

  — é... Ele...!

  disse quase sem voz.

  O Inseto inclinou a cabe?a. Estalo de concordancia.

  O Encontro

  O vento soprou de repente, for?ando areia a dan?ar em espirais fracas. Quando a poeira baixou, ele estava lá.

  Um menino pequeno.

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  Magro.

  Olhos grandes demais para o rosto.

  Cachecol vermelho sujo de poeira, e nele, costurado, o selo, uma vers?o torta, infantil, mas funcional.

  Ele n?o parecia assustado.

  Só atento.

  — "Você me procurou"

  disse o menino, sem pergunta.

  Ribeiro assentiu.

  — Você dobra o ar. Eu vi sinais. E também... Você é outra personalidade "Dele"?

  — "Eu n?o dobro."

  Ignorava totalmente a pergunta de ribeiro

  O menino esticou a m?o.

  O vento girou.

  Formou uma esfera torta.

  Depois estalou, sumindo.

  — "Eu só pe?o. Se ele quer, ele vem."

  O Inseto chiou, impressionado.

  A Técnica

  — Me ensina (???*?0?*?)???

  pediu Ribeiro.

  O menino olhou para ele como quem avalia uma pedra para ver se vira ferramenta.

  — "Você tem vento no peito, mas… está preso. Tá tentando puxar com for?a. For?a rasga."

  Ele ergueu a m?o.

  — "Aqui é suc??o. N?o é empurrar. é achar o momento em que o ar abre e… entrar. Só isso."

  Ribeiro tentou.

  O ar vibrou.

  Depois morreu.

  O menino balan?ou a cabe?a.

  — "Você está tentando prever. Previs?o mata a dobra. Faz assim..."

  Ele fechou os olhos.

  Respirou.

  E o ar vem obediente, rodando ao redor dos dedos como cobra mansa.

  Ribeiro tentou de novo.

  E dessa vez, por um segundo curto demais, o espa?o dobrou.

  Um salto rápido, limpo, de meio metro.

  O menino sorriu, pequeno, mas sincero.

  — "Viu? Você sabe. Só n?o sabia que sabia."

  O selo de Ribeiro bateu forte sob a costela.

  O Peso do Nome

  — "Quem te ensinou isso?"

  perguntou Ribeiro.

  O menino apontou para o próprio peito, onde o selo remendado cintilava no sol queimado.

  — "Ninguém. Só eu e o vento."

  Pausa.

  — "Cada um carrega uma marca. A sua… brilha demais."

  Ele apertou o cachecol.

  — "A minha me prende."

  Ribeiro n?o achou resposta.

  O menino tirou uma pequena escama metálica do bolso, redonda, fria, parecendo ter respirado na noite.

  — "Quando o deserto cantar, volte. Ou quando sentir que o vento quer falar com você."

  E antes que Ribeiro perguntasse algo, o menino se virou.

  O ar se abriu.

  Dobrou.

  E ele desapareceu como poeira puxada por funil.

  Ribeiro ficou parado um longo tempo.

  — (?@?_?@?)...

  O silêncio do deserto n?o era silêncio, era espera.

  Ele percebeu só ent?o que algo estava… estranho.

  Nenhum peso no ombro.

  Nenhum estalo de antenas.

  Nenhuma sombra pequena tentando se equilibrar no vento.

  O Inseto n?o estava ali.

  Mas quando o selo vibrou, curto, fundo, quase organico, uma sensa??o rastejou por dentro da língua de Ribeiro, metálica, amarga, íntima demais para vir de fora.

  O tipo de sensa??o que n?o tinha som, mas tinha inten??o.

  E, por instinto, Ribeiro soube:

  o Inseto riu.

  N?o no ombro.

  N?o ao lado.

  Lá dentro.

  Onde sempre esteve.

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