# Capítulo 9: O CORA??O SILENCIOSO DO..
O silêncio era uma entidade viva, espessa como a névoa que se enrolava entre as casas abandonadas. Zack liderava o grupo pelas ruas vazias do vilarejo, cada passo ecoando como um sacrilégio. O cheiro pútrido que os recebera nos port?es agora parecia impregnar cada molécula de ar, cada superfície, cada pensamento.
"Mantenham-se juntos," murmurou ele, a m?o nunca deixando o cabo da Lua Negra. "Algo está... errado aqui."
Acima deles, o olho cósmico pairava no céu como uma ferida aberta na realidade, suas íris de galáxias distantes observando cada movimento com uma aten??o faminta. Orpheus caminhava logo atrás de Zack, os olhos atentos às sombras que pareciam se mover por vontade própria. K mantinha uma m?o protetora no ombro do Menino, que olhava para todos os lados com uma curiosidade que beirava o mórbido.
"N?o há corpos," observou K, sua voz um sussurro tenso. "Um vilarejo inteiro n?o desaparece sem deixar rastros."
"A menos que algo os tenha levado," respondeu Orpheus, seu tom grave carregando o peso de quem já viu coisas demais para duvidar do impossível.
Zack parou abruptamente diante de uma casa maior que as outras, sua fachada manchada por um líquido escuro que escorria das janelas como lágrimas negras.
"Vamos come?ar por aqui," decidiu ele. "Parece ser a casa do líder do vilarejo."
A porta rangeu em protesto quando Zack a empurrou, revelando um interior mergulhado em penumbra. O fedor intensificou-se, fazendo K cobrir o nariz com a manga. Dentro, a desordem contava uma história de fuga apressada ou luta desesperada: móveis tombados, objetos quebrados, marcas de arranh?es nas paredes.
Mas foi o que encontraram sobre a mesa central que fez o sangue de Zack gelar. Uma po?a de substancia oleosa e negra, idêntica à que haviam visto nos equipamentos de Milos na montanha. Ao lado, um pergaminho parcialmente queimado exibia símbolos que ele reconheceu instantaneamente.
"Isso é obra de Milos," disse ele, a voz tensa. "Estes símbolos... s?o os mesmos que ele usava em seus experimentos em Cintra, antes de ser banido."
Orpheus se aproximou, examinando os símbolos com um olhar sombrio.
"N?o apenas dele," murmurou. "Veja este aqui." Apontou para um símbolo específico, um círculo com uma linha vertical cortando-o. "Este é o selo real. O Rei está envolvido nisso."
K explorou o resto da casa, abrindo armários e gavetas. "Encontrei isto," disse ela, retornando com um frasco de vidro contendo restos de um pó cinzento. "Parece a mesma poeira que vimos na carruagem destruída."
O Menino, que estivera incomumente quieto, aproximou-se da janela e olhou para fora. "As outras casas também têm marcas pretas," observou ele. "Como se algo tivesse... vazado delas."
Saíram da primeira casa com mais perguntas do que respostas. O vilarejo, que antes parecia apenas abandonado, agora revelava-se como um laboratório a céu aberto para algo terrível.
A taverna local foi o próximo alvo de sua investiga??o. O interior estava revirado, com mesas quebradas e garrafas estilha?adas por todo o ch?o. O balc?o de madeira maci?a exibia marcas profundas, como se garras gigantes o tivessem rasgado.
"Parece que houve uma luta aqui," comentou K, examinando as marcas.
Orpheus balan?ou a cabe?a. "N?o uma luta. Um massacre."
O silêncio que se seguiu era pesado, quase sufocante. Foi ent?o que o Menino, que vasculhava atrás do balc?o, ergueu algo na dire??o da luz fraca que entrava pelas janelas sujas.
"Olhem," disse ele, segurando uma garrafa vazia. Dentro dela, um esqueleto minúsculo de rato estava perfeitamente preservado, como se tivesse morrido tentando alcan?ar a última gota de líquido. "Ele bebeu demais."
O comentário, t?o absurdo diante do horror que os cercava, provocou uma rea??o inesperada. K soltou uma risada nervosa, quase histérica. Orpheus, sempre sério, emitiu um som que poderia quase ser confundido com uma risada contida.
"Você e suas piadas, garoto," disse ele, estendendo a m?o para bagun?ar o cabelo do Menino em um gesto surpreendentemente afetuoso. "Continue atento."
O Menino sorriu, um sorriso que iluminou brevemente seu rosto jovem antes de ser engolido novamente pela gravidade da situa??o.
Zack observou a intera??o com uma express?o enigmática. Havia algo na dinamica entre Orpheus e o Menino que o intrigava, uma familiaridade que n?o conseguia explicar completamente.
"Vamos continuar," disse ele finalmente. "Ainda temos muito a verificar."
Enquanto exploravam uma casa modesta na extremidade da rua principal, K se separou momentaneamente do grupo para verificar um quarto nos fundos. A porta se abriu para revelar um quarto infantil, com uma pequena cama, brinquedos espalhados e desenhos coloridos nas paredes. Mas o que deveria ser um espa?o de inocência estava manchado pelo mesmo líquido negro que haviam encontrado por todo o vilarejo, e os brinquedos pareciam ter sido abandonados no meio de uma brincadeira.
K sentiu uma pontada aguda no peito ao contemplar a cena. De repente, uma memória vívida a invadiu:
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Ela estava sentada no ch?o de madeira áspero do pequeno quarto que dividia com outras três garotas no complexo de treinamento. Seu corpo doía em lugares que nem sabia que existiam. O treinamento com Zack naquele dia havia sido brutal – ele estava particularmente frio e distante, exigindo mais do que ela achava possível dar.
Lágrimas silenciosas escorriam por seu rosto enquanto ela tentava limpar os cortes e arranh?es em seus bra?os. O desespero a consumia. Talvez ela nunca fosse boa o suficiente. Talvez devesse desistir.
Foi quando sentiu uma presen?a. O Menino – mais jovem ent?o, quase uma crian?a – estava parado na porta, observando-a com aqueles olhos que pareciam conter universos. Sem dizer uma palavra, ele se aproximou, sentando-se ao lado dela.
De um pequeno saco de couro, retirou um unguento de cheiro forte e, com uma concentra??o surpreendente para alguém t?o jovem, come?ou a aplicá-lo cuidadosamente em cada ferimento. Seus dedos pequenos eram gentis, precisos, quase reverentes.
"Por que você está me ajudando?" ela perguntou, confusa com o gesto inesperado.
O Menino n?o respondeu imediatamente. Quando terminou de tratar o último corte, olhou para ela com uma seriedade que parecia deslocada em um rosto t?o jovem.
"Porque você é importante para ele," disse simplesmente. "Mesmo que ele n?o saiba mostrar."
A memória se dissolveu quando K sentiu uma m?o em seu ombro. Era o Menino, agora quase da sua altura, olhando-a com a mesma intensidade daquela noite distante.
"Você está bem?" perguntou ele, a preocupa??o evidente em sua voz.
K assentiu, incapaz de confiar em sua própria voz por um momento. "Apenas... lembran?as," conseguiu dizer finalmente.
O Menino a estudou por um instante, como se pudesse ver a memória que acabara de reviver. "Ele mudou, n?o é?" disse baixinho. "N?o é mais t?o frio quanto antes."
"N?o," concordou K, olhando através da porta para onde Zack examinava algo com Orpheus. "N?o é mais."
"Orpheus," chamou o Menino enquanto caminhavam para a próxima casa. "Por que você voltou?"
A pergunta, aparentemente simples, fez Orpheus parar por um momento. Zack, alguns passos à frente, também desacelerou, claramente interessado na resposta.
"O que quer dizer?" perguntou Orpheus, sua voz cuidadosamente neutra.
"Depois de tudo o que aconteceu no País Poliedro," explicou o Menino. "Por que voltar para ajudar Zack? Você poderia ter ficado longe."
Um silêncio pesado se instalou entre eles. K olhou de Orpheus para Zack, sentindo a tens?o quase palpável.
"Devo a ele," respondeu Orpheus finalmente, as palavras saindo como se fossem arrancadas dele. "Mais do que você imagina."
O Menino parecia prestes a pressionar por mais detalhes, mas Zack interveio.
"Deixe para lá, Menino," disse ele, seu tom n?o permitindo argumentos. "Algumas dívidas s?o melhor deixadas sem explica??o."
Orpheus lan?ou a Zack um olhar que misturava gratid?o e algo mais complexo, uma comunica??o silenciosa entre dois homens que compartilhavam segredos pesados demais para serem verbalizados.
"Aquela noite no País Poliedro," comentou o Menino, aparentemente mudando de assunto, "foi a primeira vez que bebi com você, Orpheus. Na taverna com aquele nome estranho..."
"A Caneca Furada," completou Zack, um raro sorriso curvando seus lábios. "Eles tinham a melhor bebida de todo o continente."
"E a pior comida," acrescentou Orpheus, seu rosto normalmente severo relaxando um pouco. "Aquele ensopado que nos serviram..."
"...parecia ter sido feito com as botas do dono!" completaram Zack e o Menino em uníssono, provocando uma risada surpreendentemente genuína de K.
Por um breve momento, o horror do vilarejo abandonado pareceu recuar, como se a memória compartilhada tivesse criado uma pequena bolha de normalidade em meio ao pesadelo. Mas a ilus?o n?o durou muito. Um som distante – algo entre um gemido e um sussurro – os trouxe de volta à realidade sombria que os cercava.
"Vamos continuar," disse Zack, sua express?o endurecendo novamente. "Precisamos chegar à pra?a central."
A pra?a central do vilarejo era um espa?o amplo, pavimentado com pedras antigas e cercado por edifícios que um dia devem ter sido o orgulho da comunidade. Agora, estava mergulhada em uma quietude antinatural, como se o próprio ar tivesse sido drenado de vida.
O fedor que os acompanhara por todo o vilarejo atingiu aqui seu ápice insuportável. K e o Menino cobriram o rosto com panos, mas mesmo assim, o cheiro de putrefa??o e algo mais – algo antigo e profundamente errado – penetrava em suas narinas e se alojava em seus pulm?es.
No centro da pra?a, o que viram fez seus cora??es congelarem.
Um enorme círculo ritual havia sido desenhado no ch?o, usando a mesma poeira cinzenta que encontraram na carruagem destruída e no frasco da casa do líder. O círculo estava incompleto em alguns pontos, como se o ritual tivesse sido interrompido ou... como se fosse apenas um teste para algo maior.
Dentro e ao redor do círculo, correntes quebradas jaziam espalhadas. Marcas de arrasto no ch?o contavam a história silenciosa de pessoas sendo arrastadas, posicionadas, sacrificadas.
"Isso é exatamente como na minha vis?o," sussurrou Zack, sua voz trêmula de raiva e horror. "O mesmo círculo que vi sendo preparado no Bairro Baixo."
Orpheus se ajoelhou para examinar mais de perto as marcas no ch?o. "Isto é um ritual de drenagem em massa," explicou ele, seu conhecimento das artes proibidas evidente em sua análise precisa. "Projetado para extrair a energia vital de dezenas, talvez centenas de pessoas simultaneamente."
"Para quê?" perguntou K, embora seu tom sugerisse que já temia a resposta.
"Para criar algo," respondeu Zack, seus olhos fixos no centro do círculo onde uma mancha mais escura marcava o ponto focal do ritual. "Algo que possa ser controlado. Uma arma viva contra outros reinos... e contra o Vazio."
O Menino se aproximou do centro do círculo, seu rosto uma máscara de concentra??o. "Ainda há... ecos," disse ele, sua voz estranhamente distante. "Gritos. Súplicas. Eles n?o entendiam o que estava acontecendo."
Zack o puxou para longe do círculo com um movimento brusco. "N?o toque nisso," advertiu, sua voz mais dura do que pretendia. Suavizando o tom, acrescentou: "é perigoso demais."
K completou o circuito ao redor da pra?a, examinando os edifícios circundantes. "Encontrei algo," chamou ela de perto do que parecia ser o prédio da administra??o local.
Os outros se juntaram a ela. Na parede do edifício, parcialmente oculto por manchas da substancia negra, estava um símbolo gravado na pedra: o mesmo símbolo que haviam visto nos equipamentos de Milos, mas maior e mais elaborado.
"é uma assinatura," disse Orpheus, seu dedo tra?ando o contorno sem tocá-lo. "Ele está se gabando."
"Ou marcando seu território," sugeriu K sombriamente.
Zack deu um passo para trás, absorvendo a cena completa: o círculo ritual, as correntes quebradas, o símbolo na parede. Tudo se encaixava com sua vis?o do Bairro Baixo – n?o como um aviso do que poderia acontecer, mas como um vislumbre do que já estava em andamento.
"Este vilarejo foi um teste," concluiu ele, a realiza??o caindo sobre ele como um peso esmagador. "Um ensaio para o que Milos e o Rei est?o fazendo em In Medias Res."
"Ou já fizeram," acrescentou Orpheus, verbalizando o medo que todos compartilhavam.
O silêncio que se seguiu foi quebrado apenas pelo som distante de algo se movendo nas sombras das ruas que levavam à pra?a. Algo grande. Algo que n?o deveria existir.
"Precisamos sair daqui," disse Zack, sua m?o instintivamente buscando a Lua Negra. "Agora."
Mas enquanto se viravam para partir, o olho cósmico no céu pareceu se fixar diretamente neles, sua aten??o agora inegavelmente focada em seus movimentos. A sensa??o de serem observados intensificou-se a ponto de ser quase física, como um peso pressionando seus corpos.
"Ele nos vê," sussurrou o Menino, seu olhar preso ao céu. "E está chamando outros para ver também."
Como em resposta às suas palavras, o horizonte além do vilarejo come?ou a escurecer, n?o com a noite que se aproximava, mas com algo mais denso, mais vivo. A névoa do Vazio estava se movendo, convergindo para o vilarejo como se respondesse a um chamado silencioso.
Estavam presos em um local contaminado, sob o olhar implacável do Vazio, com a amea?a de Skull pairando no ar e a sombra dos experimentos de Milos se estendendo por toda parte. E agora, a terrível compreens?o: seu lar, o Bairro Baixo, In Medias Res, poderia já estar sofrendo o mesmo destino que este vilarejo fantasma.
O tempo estava se esgotando.

