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Capítulo 11 — A Evolução Quebrada e a Guilda

  O círculo de alunos curiosos e fofoqueiros recuou e se abriu ainda mais. A arena mágica de mármore branco e escorregadio, que antes abrigava meia dúzia de duelos paralelos e amadores, agora era o palco exclusivo, mortalmente silencioso, para nós dois.

  Eu observei Gorgius Corgino. Ele definitivamente n?o era mais o garotinho gordinho, mimado e covarde que eu havia derrubado com uma rasteira infantil no sal?o do baile há sete anos. Ele havia crescido para cima e para os lados. Os músculos estavam densos, rígidos, e a postura dele exalava a confian?a arrogante de alguém que havia pagado os melhores mercenários de Eldória para ensiná-lo a sangrar.

  E eu queria ver de perto o qu?o caros foram esses professores.

  No exato instante em que a luta come?ou, Gorgius provou que havia mudado. Ele n?o ficou parado plantado na pedra esperando o meu movimento de forma defensiva como no passado. Ele avan?ou como um touro descontrolado, as botas pesadas arranhando o mármore.

  Foi só quando ele ergueu a arma acima da cabe?a para o golpe de misericórdia que eu percebi o detalhe: ele também estava usando uma pesada espada de treinamento forjada em madeira de carvalho negro, exatamente como a minha. A densidade da lamina dele cortou o ar noturno em um arco descendente brutal.

  Eu n?o tentei esquivar deslizando como fiz com o Joshua. Eu n?o usei nenhuma técnica secreta ou jogo de pés refinado. Eu queria quebrar o ego dele no lugar onde ele se achava mais forte.

  Eu simplesmente ancorei as minhas pernas e ativei a física base da minha muta??o de Grande Herói: For?a, Defesa, Velocidade e Percep??o maximizadas. Eu ergui a minha própria espada horizontalmente e bloqueei o ataque frontal dele de forma seca e direta.

  CLANG!

  O som do carvalho negro colidindo contra carvalho negro ecoou alto como um tiro de canh?o pelo pátio do dormitório.

  Os bra?os grossos de Gorgius tremeram violentamente até os ombros com o recuo do impacto. Ele franziu a testa, chocado. Eu mantive a minha postura absolutamente intacta, os pés colados no ch?o, absorvendo a for?a cinética dele apenas para avaliar a tonelagem do meu possível futuro inimigo.

  O resultado da equa??o me decepcionou.

  Gorgius era forte. Excepcionalmente mais forte que a média dos adolescentes do reino. Mas os movimentos dele... eram mecanicos, duros, ensaiados em academias fechadas. Faltava a ele a fluidez maníaca, o instinto de morte puro e o desespero de sobrevivência que eu fui for?ado a engolir na Floresta da Escurid?o.

  A minha rodada de análise havia sido concluída. Era o momento de mostrar a ele o abismo colossal que separava a riqueza de Eldória do sangue de Sentostela.

  Meus Circuitos Mágicos ainda estavam queimando em tons de Roxo dentro do meu peito por causa da evolu??o caótica do Sistema; a minha magia continuava travada como uma pedra. Ent?o, eu o humilharia usando puramente a matemática física.

  Gorgius rosnou, o rosto vermelho de frustra??o por n?o ter me esmagado no primeiro golpe. Ele recuperou a postura recuando um passo e finalmente veio com tudo o que tinha, desferindo uma estocada reta, projetando todo o peso do próprio tronco largo atrás da ponta da espada de madeira.

  Eu n?o recuei para o atrito zero do mármore. Pelo contrário, firmei minhas botas e dei um passo rápido de encontro ao ataque dele, encurtando a distancia. Eu queria testar a durabilidade do brinquedo dele.

  Levantei a minha espada para aparar a estocada, mas n?o usei a face plana da lamina. Girei o pulso e coloquei a quina rígida da minha madeira no angulo exato da trajetória de colis?o.

  Foi surpreendente. N?o porque o ataque dele foi devastador, mas porque a técnica de manejo de Gorgius era t?o porca e mal balanceada que a for?a destrutiva do golpe dele se voltou inteiramente contra a estrutura da própria arma.

  Quando a espada de carvalho negro dele colidiu com a minha defesa angular perfeita, a física cobrou o pre?o.

  CRACK!

  A madeira grossa estalou. A lamina de Gorgius n?o aguentou a própria press?o e partiu ao meio com um estrondo de farpas. A metade superior da espada dele explodiu em peda?os pontiagudos que voaram perigosamente pela arena.

  Gorgius arregalou os olhos cinzentos, a boca entreaberta, o choque de ver a arma de elite destruída paralisando as pernas dele por um longo e fatal milissegundo.

  Foi a única brecha temporal que eu precisei.

  Aproveitando o choque e a guarda dele escancarada, eu larguei a minha espada de lado, girei o quadril esquerdo transferindo o peso do ch?o para o ombro, e desferi um soco limpo, embalado pela minha For?a 80 maximizada, direto na boca do est?mago desprotegido dele.

  BAM!

  Gorgius vomitou todo o ar dos pulm?es numa lufada úmida, os olhos saltando das órbitas. Ele dobrou o corpo para a frente e caiu de joelhos no mármore duro com um baque surdo.

  Mas, para o meu genuíno respeito, ao invés de desistir, cuspir sangue e choramingar por socorro como fazia na infancia, a rea??o dele foi outra. Os olhos de Gorgius queimaram com uma determina??o cega e raivosa. Ele n?o ia recuar e aceitar a vergonha na frente de todos.

  Jogando o cabo inútil e quebrado no ch?o, Gorgius soltou um urro bestial, ignorou a falta de ar e tentou se jogar nas minhas pernas para me derrubar com as próprias m?os nuas em um ato de puro desespero de grappling.

  Eu pulei para trás. Minhas botas deslizaram livremente no ch?o de mármore escorregadio, mas, diferente dele, eu já havia dominado a física daquele terreno trinta minutos atrás após a minha dan?a com Joshua.

  Usei a falta de atrito do piso mágico n?o como um problema, mas como um trampolim invisível. Deslizei para trás apenas para criar tens?o nas panturrilhas e, aproveitando a for?a elástica do meu próprio recuo, disparei de volta contra ele deslizando para a frente em uma velocidade estonteante.

  Antes que as m?os desesperadas dele agarrassem a minha cintura, o meu punho direito viajou em um arco perfeito e acertou a lateral exata do maxilar dele com uma precis?o matemática de nocaute.

  POW!

  O cérebro dele chacoalhou dentro do cranio. Gorgius Corgino rodopiou no ar com o peso do próprio corpo e desabou de costas, caindo pesado, completamente apagado e desconectado da realidade antes mesmo de os ombros tocarem o mármore frio.

  Para fechar o espetáculo e devolver a provoca??o inicial, eu usei o bico da bota para chutar a minha espada de carvalho negro de volta para a minha m?o direita, a apoiei relaxadamente sobre o ombro esquerdo e fiz uma pose de vitória entediada, olhando para o corpo dele no ch?o.

  A arena noturna inteira mergulhou em um silêncio sepulcral e assustado por dois longos segundos, até que os alunos de todas as idades explodiram num fervor caótico de aplausos, assobios e gritos histéricos.

  Os mesmos veteranos e nobres burgueses que sussurravam e zombavam do meu "zero" na prova de magia hoje à tarde agora me olhavam com olhos arregalados de admira??o, interesse e, principalmente, terror físico.

  Eu finalmente estava sendo tratado com o devido e temeroso respeito no cora??o de Eldória.

  Sinceramente? Na minha cabe?a fria, era patético ver como aquele povo mudava de ideologia rápido. Eles n?o respeitavam o esfor?o; eles só seguiam feito c?es quem exibia for?a letal dominante. E eu sabia muito bem que a grande maioria daqueles sorrisos e aplausos na roda eram falsos; eles queriam apenas se aproximar para tentar descobrir os meus segredos marciais e tirar proveito do meu poder bélico no futuro. Bando de sanguessugas.

  Após o término abrupto e violento dos duelos no pátio do dormitório, o gigantesco sino da torre de vidro do palácio tocou três vezes, anunciando o grande Banquete Oficial de Boas-Vindas da Academia.

  Fui varrido pela multid?o de alunos famintos até a colossal Sala de Jantar, que já estava entupida com milhares de cadetes acomodados em longas e fartas mesas de madeira polida. Meu olhar de Percep??o varreu o mar de rostos e uniformes em meio segundo, até que eu a encontrei.

  Lá estava ela. Saphira Silford.

  Seus longos cabelos prateados como o luar chamavam a aten??o de quase todo o sal?o masculino, mas a presen?a fria e esmagadora de mana que ela exalava propositalmente mantinha os garotos nobres e intrometidos a uma distancia segura da cadeira dela.

  Ao me ver cruzar o sal?o, ela ignorou os protocolos de etiqueta de realeza e acenou animadamente, batendo na cadeira vazia ao lado.

  — Igris! Venha! Senta logo aqui que a carne tá esfriando!

  — Oi, Saphira — sorri, sentando-me ao lado da garota mais perigosa e cobi?ada do recinto, ignorando completamente os olhares cortantes e os sussurros de inveja assassina dos outros garotos do primeiro ano.

  Nós conversamos baixo sobre o qu?o medíocres as táticas da maioria dos alunos pareciam ser em compara??o com o instinto de matar ou morrer dos monstros da Floresta da Escurid?o de Sentostela. Comemos as iguarias caras do banquete até rasparmos os pratos, reabastecendo as nossas barras de estamina.

  Mas, assim que o jantar de luxo terminou e os grupos de alunos come?aram a se recolher pregui?osamente para os dormitórios, o sorriso de Saphira sumiu, substituído por uma express?o analítica e implacável de general.

  — Igris. Vamos para as Salas de Treinamento Privado Isoladas. Agora. O recreio acabou.

  Eu n?o questionei a ordem.

  Corri até o dormitório, fui me trocar em silêncio enquanto Joshua roncava feito um urso na cama ao lado, coloquei as minhas roupas de couro leve e escuro, peguei minha espada e desci para as fundas e geladas masmorras de treinamento isolado da Academia. Já passava da meia-noite, e o campus estava mergulhado num silêncio profundo.

  Destranquei e entramos na Sala 7, um ambiente amplo, escuro, totalmente revestido com placas de pedra e chumbo rúnico que anulavam sons, vibra??es e impactos mágicos de fora para dentro e de dentro para fora. Ninguém ouviria os nossos gritos ali.

  Saphira caminhou até o centro e girou o seu cajado de metal.

  — Igris... a sua técnica secreta, a tal Teoria dos 13 Passos, ainda é muito arriscada. é uma habilidade biológica e marcialmente falha. No entanto, com o currículo da Academia come?ando, e com os inimigos que você já fez hoje, agora é o momento de for?ar o aperfei?oamento dela. Eu vou ser a sua cobaia de choque. Afinal, nós dois somos os únicos que lemos o código do Sistema e somos objetivamente as pessoas mais fortes num raio de cem quil?metros.

  Eu encarei os olhos púrpuras e felinos dela brilhando na penumbra. A presen?a hostil e séria que ela ativou agora exalava a exata mesma press?o asfixiante e sádica do meu tio Zack antes de matar alguém.

  — Pelo que o meu Olho Avaliador vê nas suas estatísticas travadas agora, a sua For?a base continuou disparando mesmo após o Nível 12 — ela continuou, fria. — O seu controle mágico verde está sofrendo bloqueios terríveis por causa dessa transi??o biológica para os Circuitos Roxos, eu sei. Mas nós vamos for?ar essa barreira com dor hoje. Eu vou te obrigar a conjurar. Vamos ver do que a sua carnificina é capaz de verdade!

  Eu assenti mudo, os dentes trincados de antecipa??o, e saquei a minha velha espada das costas.

  Fomos ao nosso primeiro duelo de risco letal no subterraneo de Eldória.

  Eu precisava de rios de oxigênio celular para a técnica, ent?o n?o havia espa?o ou tempo para aquecimento e troca??o de golpes fracos. Iniciei a ativa??o. Respirei profunda e violentamente, o peito subindo e descendo, for?ando litros de oxigênio para dentro do meu sangue. Foquei a minha concentra??o ao máximo, ignorando e driblando a dor quente e sufocante dos meus circuitos do cora??o que pulsavam em muta??o.

  Apertei o cabo da espada com as duas m?os.

  — Agora! — eu rugi, a voz rouca. — Primeiro Passo! Corte de Chamas: Flash!

  Ignorei o bloqueio de seguran?a do Sistema, ignorei a falha mágica do meu próprio corpo e forcei a violência do elemento Fogo a nascer da minha mana residual. Embuí a madeira da espada de carvalho negro com uma aura ardente e instável. A magia superficial, misturando o verde com centelhas roxas caóticas, criou uma camada de fogo vivo e barulhento em volta da madeira. Dei uma explos?o absurda de velocidade para a frente, trincando o ch?o de pedra, impulsionado pelos meus atributos maximizados.

  The tale has been illicitly lifted; should you spot it on Amazon, report the violation.

  Mas, como ela e eu sabíamos, aquele era o ataque de abertura mais óbvio, telegrafado e fácil de desviar. Uma brecha falsa e barulhenta feita para atrair o ego do inimigo.

  Saphira, achando que tinha lido o golpe, saltou elegantemente pelo ar, mirando o cajado para esmagar o meu ponto cego superior nas costas.

  A Isekai caiu na armadilha do exilado.

  — Segundo Passo! Falso Paraíso!

  Usando a minha velocidade bruta de For?a 80 combinada com o espesso rastro de fuma?a preta que a chama da espada deixou no ar, deslizei para a lateral e criei um clone residual ilusório feito apenas de sombra térmica na frente dela. Saphira desceu do teto atacando pesadamente a ilus?o de fuma?a, atravessando o ar vazio e deixando a própria retaguarda escancarada.

  Reapareci nas costas dela como um dem?nio, girando o quadril para desferir um corte horizontal de puro poder decapitador.

  Mas os reflexos da classe mágica dela eram inumanos e injetados de cheat. O cristal do cajado dela brilhou azul no escuro, conjurando uma parede c?ncava de puro gelo denso atrás do próprio corpo no último instante de vida.

  CRASH! A minha espada de fogo colidiu brutalmente com o gelo. Peda?os congelados voaram e a chama chiou.

  — Terceiro Passo! Agulha Flamejante!

  Eu n?o recuei do choque. Puxei os bra?os e transformei o arco do corte que ricocheteou em uma estocada reta, perfurante e cirúrgica. Com a for?a somada à rota??o de torque do golpe cego, a ponta de madeira em chamas da minha espada perfurou o centro trincado e estilha?ou a grossa barreira de gelo dela em mil peda?os.

  A explos?o termal violentíssima de fogo roxo e gelo colidindo gerou uma onda de choque expansiva que me ejetou para trás, meus pés arrastando faiscando pelo ch?o de pedra da masmorra.

  Eu estava tonto com a explos?o, mas eu n?o havia terminado a sequência matemática. O oxigênio estava queimando rápido.

  — Quarto Passo! Dan?a da Serpente de Fogo!

  Meu f?lego já estava sendo triturado pelos meus próprios pulm?es. Avancei rompendo a fuma?a num padr?o em zigue-zague, uma movimenta??o excêntrica, desgastante e psicologicamente caótica, atacando os tend?es, o fígado e a garganta dela de três dire??es periféricas diferentes quase simultaneamente.

  Saphira sorriu e bateu o cabo do cajado no ch?o, ativando uma magia de expans?o de vento para se lan?ar dez metros direto para o alto da sala, fugindo covardemente da minha tempestade de cortes terrestres.

  Mas era exatamente onde eu a queria. O céu era meu.

  — Quinto Passo! Céu Flamejante em Espiral: Cima!

  Este era o motor de arranque que destruía a minha resistência muscular. Dobrei os joelhos acumulando energia elástica e saltei na dire??o dela como um míssil antiaéreo. No ar, sem gravidade para me segurar, girei o meu corpo como um tornado de chamas vivas e incontroláveis, fatiando tudo no meu raio de a??o.

  Saphira, com a express?o finalmente surpresa e arregalada diante daquela anomalia física, foi for?ada a conjurar uma dupla barreira mágica cruzada de energia pura de emergência no ar para segurar e tancar o furac?o de golpes incendiários.

  Nesse exato e crítico momento da técnica prolongada, a física come?ou a cobrar a conta.

  Os meus pulm?es imploraram e come?aram a queimar com gosto de sangue por falta de oxigênio circulante. O cansa?o celular extremo geralmente me apagava aqui. Mas, esta noite, gra?as à Aura de Vitalidade do meu novo Título de Comandante e ao motor contínuo da minha recém-adquirida habilidade de Super Recupera??o, o meu cérebro bombeou adrenalina suja e eu me mantive milagrosamente consciente.

  A dor nas costelas latejava como ácido, a vis?o escureceu nas bordas, mas eu n?o podia parar agora. Eu tinha mais um passo engatilhado.

  — Sexto Passo! Sol Poente!

  No ponto mais alto do salto, usei o restinho miserável da minha inércia no ar para desferir um último corte circular descendente massivo, usando todo o peso da gravidade a meu favor. A lamina flamejante bateu na defesa dela como um meteoro desgovernado, quebrando a barreira superior dela ao meio como vidro fino e quase decepando o ombro esquerdo da Princesa de Sentostela.

  Mas o impacto colossal do Sol Poente foi a gota d'água biológica.

  A colis?o esgotou completamente o meu núcleo restrito. Minha barra de mana holográfica zerou e piscou em vermelho. Minha barra invisível de fadiga estourou a tampa. Meus já torturados Circuitos Roxos entraram em estado crítico de superaquecimento no peito, causando um curto-circuito e um apag?o cerebral de emergência induzido pelo Sistema apenas para proteger os meus órg?os vitais de cozinharem de dentro para fora.

  A tela escureceu completamente. Eu perdi os sentidos do corpo e desmaiei em silêncio cego no meio da queda livre.

  A batalha isolada havia acabado.

  A Teoria dos 13 Passos era de fato um poder estrutural e matemático colossal. Mas o problema era claro: eu havia chegado, com muito sangue, suor e desespero, apenas no Passo Seis, e o meu corpo sobre-humano de Nível 12 já havia se desligado no ar como uma máquina quebrada. Essa cadeia de habilidades amaldi?oada devia ser usada apenas e exclusivamente como um "All-In", um combo de hit-kill (morte em um golpe), caso contrário, se o inimigo n?o morresse no impacto, eu me tornaria um alvo desmaiado e fácil caindo no ch?o.

  A li??o doída era clara: eu precisava melhorar a minha estamina absurdamente se quisesse chegar no décimo terceiro passo e viver para contar a história.

  Quando a consciência e o peso da gravidade voltaram para a minha mente, e eu abri os olhos pesados novamente, pisquei com for?a contra a luz branca e fraca que iluminava a grande sala de treinamento de pedra.

  Senti algo macio, morno e confortável debaixo da minha cabe?a dolorida. Rolei o olhar emba?ado para cima e vi o rosto iluminado de Saphira.

  Eu estava deitado no colo dela. A herdeira arrogante de Sentostela estava sentada, relaxada no ch?o frio de pedra da masmorra, olhando para mim de cima para baixo. Os majestosos e penetrantes olhos púrpuras dela estavam cheios de uma preocupa??o quase maternal, mas a boca exibia um sorriso convencido e orgulhoso. Ela era encantadora de uma forma predatória e muito perigosa.

  — Quantas malditas horas eu fiquei apagado dessa vez? — resmunguei com a voz grossa, tentando me levantar. Minha cabe?a girava e latejava como se um sino batesse dentro do cranio. A minha Super Recupera??o estava fazendo hora extra para consertar o dano dos circuitos.

  Assim que apoiei a m?o no ch?o, fiquei de pé, limpei a poeira e olhei ao redor, percebi, com um frio na espinha, que a enorme sala de masmorra n?o estava mais vazia.

  A manh? havia chegado. O sol lá fora já devia estar nascendo. E o problema real era a plateia.

  A galera de alunos dedicados que gostava de descer para treinar de madrugada (incluindo o próprio Joshua segurando uma toalha e alguns garotos fofoqueiros do nosso bloco de dormitório) estava parada e amontoada na porta aberta da sala 7, completamente paralisados de choque.

  A cena que eles tinham acabado de ver n?o era a de um duelo épico. Era a vis?o perturbadora do perigoso e estressado "prodígio silencioso que espanca generais" dormindo serenamente no colo acariciado da "Princesa Isekai Intocável de Sentostela".

  A minha reputa??o de lobo solitário cruel foi pro ralo num piscar de olhos.

  Eu fuzilei a cambada de curiosos com um olhar de puro ódio letal e vergonha. Os garotos suaram frio e rapidamente desviaram o rosto, assobiando e fingindo debilmente que estavam apenas ali, perto da porta, alongando os músculos para treinar. Eu n?o entendi direito o nível gigantesco do choque hormonal deles ao ver um garoto no colo de uma garota, mas bufei e ignorei a platéia irritante.

  Saphira fingiu n?o notar a tens?o c?mica, levantou-se elegantemente com a ajuda do cajado e bateu a fina poeira das cal?as de couro.

  — Boas notícias. Você demorou bem mais a desmaiar de exaust?o desta vez, Igris — ela avaliou com voz clínica, cruzando os bra?os e ignorando sumariamente a plateia de garotos babando na porta. — Nas outras vezes em Sentostela, lembra? Você capotava no meio do avan?o do Passo Cinco. Hoje, você só perdeu os sentidos nervosos depois que conectou e finalizou perfeitamente a queda do Passo Seis. O seu tecido corporal está ficando muito mais denso, econ?mico e resistente ao estresse.

  Dei um sorriso amargo, massageando o peito dolorido. A passiva de Super Recupera??o estava fazendo o trabalho sujo de me manter respirando.

  — Pode até ser, Saphira. Mas eu ainda tenho muito, muito o que melhorar de f?lego. Eu só cheguei na maldita metade técnica. Se fosse o Cedric ali, eu estaria morto no ch?o agora.

  Saphira girou o cajado nas m?os e sorriu de forma maquiavélica, os olhos brilhando com uma péssima ideia.

  — Sendo assim... já que você reclamou de f?lego... Eu tenho uma sugest?o de aula prática matinal para você. Para treinar o seu controle de respira??o aeróbica de longo prazo e as suas ramifica??es táticas de multid?o. Que tal... você enfrentar cinco daqueles veteranos bombados ali da porta ao mesmo tempo, sem usar o poder letal da técnica inteira?

  Eu arqueei uma sobrancelha e n?o botei fé nenhuma na ideia inicial de suicídio acadêmico.

  Mas, quando virei o rosto e olhei friamente para os garotos maiores do terceiro ano, que estavam agrupados na entrada da sala rindo da piada dela e se achando os verdadeiros donos de ferro daquele peda?o de treinamento, o meu sangue de guerreiro esquentou. Eu aceitei o desafio com um aceno lento de cabe?a.

  O único grande e irresponsável problema daquela brincadeira é que a sádica da Saphira apontou com o cajado para lutar exatamente contra os cinco grandalh?es veteranos de vanguarda mais largos e fortes do local. Eles pareciam armários de armadura. Aquilo me deu um pouco de medo real do meu corpo quebrar, n?o vou mentir.

  Mas, a regra do Sistema era clara: se o objetivo era ficar estupidamente mais forte para ca?ar o Zack Wolford nas sombras... que assim fosse a dor.

  Caminhei em silêncio, rodando os ombros, para o centro demarcado da arena. Sozinho.

  Os cinco gigantes veteranos, ofendidos mortalmente pela proposta de arrogancia extrema vinda da boca fina da Princesinha loira para um calouro recém-chegado, tiraram as camisas, estalaram os pesco?os e sacaram grossas e brutais espadas de madeira pesada dos suportes.

  Eles queriam me amassar e me colocar no meu lugar de primeiranista.

  Respirei fundo, sentindo o peso da minha própria espada negra na m?o. A estratégia era simples e contida. Decidi terminantemente n?o usar o fluxo contínuo da técnica inteira. A Teoria dos 13 Passos era um movimento ininterrupto, exaustivo e puramente mortal, criado matematicamente apenas para fatiar e assassinar generais, deuses e lendas num piscar de olhos; engatar o combo interligado inteiro contra cinco garotos apenas mimados e grandes do terceiro ano seria um massacre juvenil desnecessário e me deixaria desmaiado de novo.

  Eu iria estilha?ar a fórmula teórica. Despeda?ar a corrente dos passos e usá-los como ataques separados e independentes.

  Respirei de forma profunda, ritmada e calculada, for?ando o meu foco visual para englobar os cinco alvos de uma vez.

  Saphira ergueu a m?o fina e estalou os dedos. O eco marcou a ordem do início.

  Os cinco veteranos enfurecidos gritaram, detonaram as botas na pedra e vieram correndo contra mim ao mesmo tempo. Eles fecharam um ataque clássico e perigoso em forma??o de "cunha", perfeitamente sincronizados para me prensar no centro e n?o me dar espa?o de recuo. Eles eram realmente bons na tática de grupo da Academia.

  Mas a verdade dura é que eu já havia enfrentado alcateias de vorazes Lobos das Sombras coordenados de Nível 8 na floresta noturna. E os lobos eram mais rápidos que eles.

  Aproveitei o ímpeto violento e o excesso de confian?a da investida deles. N?o recuei um milímetro. Firmei os pés, abaixei o tronco e puxei absolutamente todo o ar frio possível para dentro do peito.

  — Céu Flamejante em Espiral: Lateral!

  Adaptei a técnica da subida. Eu n?o pulei dessa vez. Firmei as duas botas no ch?o de pedra e girei freneticamente a velocidade da for?a centrífuga do meu próprio eixo em solo, como um pe?o de batalha. Criei um tuf?o de cortes puramente horizontais com o peso esmagador da lamina pesada de carvalho.

  A parede de atrito giratório colidiu brutalmente com as cinco espadas e corpos dos veteranos no mesmo instante milimétrico.

  CRACK-CRASH!

  O som ensurdecedor de cinco laminas grossas de madeira de lei rachando e quebrando simultaneamente sob o impacto espiral foi de doer os ouvidos.

  A for?a do bloqueio repelido arremessou os cinco grandalh?es violentamente para trás. Eles voaram e caíram rodopiando desajeitados no ch?o sujo de pedra, as espadas estilha?adas, os uniformes rasgados e os bra?os cobertos por hematomas profundos e queimaduras de primeiro grau leves nas bordas das roupas (pois, com os meus bloqueios neurológicos, o rastro do fogo superficial da espada estava Roxo e descontroladamente vazando no ar).

  Mas a elite de Eldória tinha garra para apanhar e levantar.

  Ignorando as armas destruídas e as cal?as fumegantes, três dos cinco grandalh?es mais dur?es conseguiram se recuperar, rolar para o lado, recolher os peda?os afiados de cabo como adagas improvisadas e avan?aram novamente, berrando numa investida desesperada. Eles n?o iam deitar para a humilha??o do primeiro ano.

  Aquele orgulho ferido e suicida era bom de ver. Eu sorri. Eles mereciam meu respeito marcial. Ent?o, eu os dormiria com elegancia.

  — Dan?a da Serpente de Fogo!

  O mundo físico simplesmente piscou e pulou um quadro para eles. Minha movimenta??o errática, veloz e sombria num agressivo padr?o em zigue-zague quebrou totalmente as leis da velocidade, apagando e confundindo completamente o campo de vis?o periférica e central dos três garotos ao mesmo tempo.

  Estando absurdamente perto, eu evitei o excesso de violência letal e deixei a pesada espada de carvalho abaixada. Fechei os meus dois punhos enluvados e apliquei, com a leveza de um bisturi, três sequências simultaneas de ataques limpos de pura for?a contusiva e de concuss?o exata contra a lateral macia e desprotegida do pesco?o (nas carótidas) de cada um deles em menos de meio segundo.

  Os olhos dos três reviraram. Eles caíram instantaneamente como três sacos flácidos de batatas, nocauteados no ar antes mesmo que os próprios joelhos moles tocassem o ch?o de pedra dura.

  A sala de treinamento emudeceu diante dos corpos.

  Eu tinha vencido o combate e quebrado a vontade de cinco brutamontes em quinze segundos. E, o melhor: sem suar frio, sem engatar os doze movimentos que me fariam desmaiar e sem abrir a boca de exaust?o.

  Fui andando despreocupado em dire??o à pesada porta de saída da sala, passando reto pelo Joshua assustado e pelos corpos espalhados no ch?o, girando e embainhando no pino das costas a minha espada negra com um clack satisfatório.

  Olhei para os alunos remanescentes e pálidos na porta.

  — A aula prática acabou por hoje, meninos da elite. Limpem essa sujeira. Tá na hora do café da manh?.

  As aulas teóricas e acadêmicas oficiais e ma?antes do primeiro ano come?aram logo em seguida ao sino das oito horas.

  As primeiras quatro horas do cronograma foram trancafiadas e dedicadas à pura e intragável teoria geopolítica. Nós fomos guiados para um enorme, luxuoso e escalonado anfiteatro de madeira em declive.

  O instrutor da manh?, um arquivista velho de óculos fundo de garrafa, n?o nos ensinou fórmulas mágicas de fogo. Ele passou a manh? inteira explicando metodicamente sobre o complexo organograma militar e sobre como o Rei de Eldória administrava, infiltrava e gerenciava o imenso poder e as masmorras de aventureiros de forma política e descentralizada pelos feudos.

  Eles nos apresentaram nos painéis, pela primeira vez de forma clara e burocrática, ao colossal sistema e inven??o da primeira grande obra arquitetada e fundada há décadas pelo Segundo Grande Herói Invocado (um japonês chamado Yuya Irassawa): a intocável e rentável Guilda de Aventureiros.

  Para a nossa grata e instigante surpresa (minha e de Saphira, que trocávamos olhares no fundo da sala), o instrutor bateu a régua no quadro e deixou um ponto bem claro no currículo: a Real Academia Próxia n?o era apenas um parquinho fechado para jovens lerem grimórios antigos, debaterem política e darem belas piruetas visuais com magia segura e contida numa arena polida e supervisionada.

  Se os alunos quisessem garantir provas de crédito e sobrevivência prática valendo nota real de aprova??o no fim do semestre... Se quiséssemos ganhar moedas de ouro vivo e legal para a forja e a manuten??o dos nossos equipamentos caros... Se quiséssemos a liberdade civil para sair dos muros, explorar os terríveis biomas letais e até mesmo ser socialmente ranqueados oficialmente com placas metálicas pela Coroa... era obrigatório, a todos do primeiro ano, irem à cidade no horário livre e se cadastrarem independentemente e com sangue no quadro burocrático de mercenários da Guilda local da Capital.

  Em Eldória, a bela teoria em pergaminhos exigia a prática e o batismo sangrento nas masmorras da Guilda.

  Eu olhei afiado para o lado, encarando a Saphira sentada com o queixo apoiado na m?o. Nós dois tínhamos sorrisos cúmplices, pensando exatamente e matematicamente na mesma coisa e na mesma lacuna mecanica.

  O nosso Sistema Rúnico e Biológico privado (o meu de puni??o e o dela de cheat) exigia sangue, abate em massa de monstros e XP constante para garantir níveis e habilidades. E o estatuto pacífico da Academia nos proibia terminantemente de torturar e matar os alunos nobres dentro do campus.

  A Guilda de Aventureiros... Era o nosso abatedouro oficial. Era a nossa chave de acesso para o farm desenfreado na vida real.

  Sem perder um segundo e sem avisar ao instrutor, assim que o sino que sinalizava o intervalo do almo?o de carne assada tocou estridentemente pela escola, nós dois deixamos os pergaminhos jogados na mesa, pulamos a sonhada refei??o do refeitório e corremos para a saída do campus.

  Seguimos os enormes e pomposos letreiros e bandeiras douradas penduradas nas casas da nobreza rumo ao superlotado Centro Comercial da Capital de Eldória.

  Nós, a vanguarda e a artilharia, estávamos marchando diretamente para a porta de carvalho maci?

  o da Guilda de Aventureiros.

  [FIM DO CAPíTULO 11]

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