A comunidade havia mudado de ritmo.
Nada gritava que algo estava errado. As carro?as eletricas com partes da colheita ainda cruzavam o pátio central. O som metálico da manuten??o ecoava entre os galp?es. As colheitas seguiam organizadas em caixas alinhadas.
Mas havia um atraso nos sorrisos.
Uma pausa antes das respostas.
Um cuidado excessivo nos gestos.
Era como se todos estivessem ouvindo algo que ainda n?o tinha som.
Victor Dellamuta sentia aquilo na respira??o.
Sempre que acreditava que finalmente poderia baixar a guarda, algo se erguia do nada — como uma rachadura surgindo sob os pés.
Ele tinha aberto a comunidade para o improvável.
Para o diferente.
Para o inexplicável.
E agora precisava decidir se sabia fechar aquela porta.
— Aquele raio — disse Raul, caminhando ao seu lado com passos medidos. — O que foi aquilo?
Victor n?o desacelerou.
— Sistema antigo — respondeu, sem olhar para ele. — Irriga??o da ala leste. As roseiras da Bella vivem sobrecarregando a rede.
Raul n?o parecia convencido.
— Recebemos leitura de energia concentrada. Localizada. Direcionada. N?o pareceu falha elétrica.
Victor parou por meio segundo. O suficiente.
— Tudo aqui é improviso — disse. — Você sabe disso. A Terra n?o sobrou intacta para ninguém.
Raul o observou como quem mede o peso de uma mentira.
— Nosso trabalho é assumir que n?o foi improviso.
Eles chegaram ao centro de distribui??o.Os agentes n?o usavam uniformes militares tradicionais. Mas havia algo na postura. Na forma de observar. No silêncio disciplinado entre eles.
Perguntas simples.
Olhares atentos demais.
— Picos de energia recentes? — perguntou um dos agentes.
Bruno limpou as m?os engorduradas na cal?a.
— Pico aqui é quando a caldeira explode — respondeu, tentando rir. N?o conseguiu.
— Alguma descarga atmosférica incomum?
Bruno hesitou.
Pensou na luz azul rasgando o céu mais cedo.
— Nada que eu saiba.
O agente anotou. O som do lápis pareceu alto demais.
Bella segurava uma muda de planta quando foi abordada.
— Notou altera??o no solo? Crescimento irregular?
Ela ergueu o olhar lentamente.
— O solo sente quando algo muda — respondeu. — Mas ele n?o explica.
— E sentiu algo?
Bella sustentou o olhar do agente por tempo demais.
— Senti.
Silêncio.
— Mas n?o era perigo.
O agente anotou novamente.
Bella voltou à terra, mas suas m?os estavam tensas.
— Movimento incomum?
— Sempre tem — respondeu Bochecha, enxugando o suor da testa. — Gente nova, gente velha, gente curiosa.
— Algo escondido?
Bochecha segurou o olhar do agente.
— Aqui a gente n?o esconde. A gente sobrevive.
O agente n?o sorriu.
Enquanto isso, no gramad?o, o vento mudou.
Gehard sentiu antes de ver.
Um frio na base do est?mago, algo familiar...
A mesma sensa??o que antecede ruptura.
Ele ergueu o olhar e viu os homens espalhados.
Observando.
Medindo.
As crian?as riam ainda — Pedro tentando erguer uma pedra maior do que devia, Anne controlando pequenas chamas violetas entre os dedos, Evan concentrado demais no raio que dan?ava instável na palma da m?o.
Era arriscado.
Muito arriscado.
— Aten??o — a voz dele saiu mais firme do que pretendia.
Todos olharam.
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— Alojamentos. Agora.
— Mas eu quase consegui! — Pedro reclamou. — Juro que essa pedra já tava subindo!
— Depois.
— A gente tá melhorando — murmurou Grace, ofegante.
Gehard caminhou até eles.
Abaixou na altura de Evan.
— Confiem em mim.
Algo na express?o dele fez as crian?as entenderem que n?o era brincadeira.
A empolga??o virou inquieta??o.
Eles come?aram a recolher as coisas.
Pedro ainda tentou sorrir.
— Se for puni??o coletiva, eu culpo o raio do Evan.
Ninguém riu.
Um por um, foram para os alojamentos.
Gehard ficou sozinho no campo por alguns segundos.
O vento parecia mais pesado.
Ele encontrou Victor e Raul quase ao mesmo tempo.
Raul foi o primeiro a reconhecê-lo.
— Hamsey!
O nome caiu como algo distante.
Victor olhou de um para o outro.
— Vocês se conhecem?
Raul assentiu.
—Sim! Há dez anos. Encontramos ele próximo ao Pier 1. Sozinho. Desorientado. Sem registro de origem.
Victor virou-se lentamente para Gehard.
— é verdade?
— Sim.
A palavra saiu sem defesa.
— Por que nunca disse?
Gehard respirou fundo.
— Porque achei que o passado tinha ficado no passado.
— O passado n?o desaparece só porque você muda de lugar — retrucou Victor.
Raul continuou:
— Detectamos anomalia semelhante àquela de dez anos atrás. Mesma assinatura energética.
Victor fechou os olhos por um segundo.
Quando abriu, já havia decidido.
— Você n?o pode ficar.
O mundo pareceu diminuir ao redor de Gehard.
— Eu n?o represento amea?a.
— Você representa risco — respondeu Victor. — E eu n?o posso correr risco.
— As crian?as precisam de mim.
— A comunidade precisa de seguran?a.
O silêncio que se seguiu foi o mais pesado de todos.
Gehard sentiu algo romper por dentro.
N?o era raiva.
Era a percep??o de que, por mais que tivesse ajudado, construído, protegido — ele ainda era o estranho.
Ele tentou falar.
Tentou explicar.
Falou do tempo ali. Das planta??es. Das constru??es. Das crian?as.
Victor ouviu.
Mas n?o cedeu.
— Eu abri as portas para você — disse, mais baixo agora. — E quase perdi tudo antes. Eu n?o posso errar de novo.
Aquilo doeu mais que qualquer acusa??o.
Gehard percebeu que tinha perdido antes mesmo de terminar a discuss?o.
Ele ent?o foi ate seu alojamento, acompanhado de Victor, pegou suas coisas e caminhou para fora da comunidade enquanto o sol come?ava a descer.
Bella o viu.
Parou entre as roseiras.
N?o falou nada.
Mas seus olhos diziam: isso n?o está certo.
Bochecha cruzou os bra?os e assentiu discretamente.
Um adeus que n?o concordava com a decis?o.
Alguns outros moradores observavam.
Ninguém interferiu.
Ninguém ousou.
Gehard n?o passou pelos alojamentos.
N?o suportaria ver os rostos.
N?o suportaria explicar.
Preferiu que lembrassem dele como estava pela manh? — firme, confiante, presente.
N?o como alguém que estava sendo retirado.
Cada passo para fora da comunidade parecia arrancar algo dele.
Ele tinha encontrado propósito ali.
Esperan?a.
Talvez até a chance de um dia voltar para casa.
Agora caminhava sem dire??o, pela segunda vez em dez anos.
Atrás dele, os agentes continuavam investigando.
N?o sabiam das crian?as.
N?o sabiam da explos?o.
Mas sabiam que algo estava fora do lugar.
Victor Dellamuta estava sozinho na sala administrativa.
Foi Bella quem entrou.
Sem bater.
— A garota da heterocromia, Ruth — disse ela, sem rodeios. — A temperatura corporal dela está caindo. Muito.
Victor levantou o olhar.
— Quanto?
— Muito abaixo do normal. O corpo dela está... frio demais. Como se estivesse desligando.
Ele sentiu o peso aumentar.
— Ela foi para a ala hospitalar?
— Já está lá.
Silêncio.
Bella n?o saiu.
— De onde eram aqueles guardas, Victor?
Ele respirou fundo.
— For?as especiais. O que restou da antiga ONU. Eles monitoram anomalias. Energia fora do padr?o. Coisas que possam colocar a Terra em risco.
— E Gehard é um risco? — ela perguntou, cruzando os bra?os.
Victor demorou a responder.
— Ele é um mistério.
— Ele salvou crian?as.
— Ele escondeu informa??es.
Os olhos dela endureceram.
— Você também.
Victor sustentou o olhar.
— Eu n?o posso colocar décadas de tradi??o da minha família em risco por alguém que veio de outro mundo. N?o posso esperar que mais segredos apare?am.
Bella ficou em silêncio por alguns segundos.
— Ent?o você escolheu seguran?a.
— Eu escolhi responsabilidade.
Ela suspirou.
— Eu n?o concordo. Mas entendo.
— Eu n?o precisava que concordasse.
— Ainda bem — respondeu ela, seca.
Mas antes de sair, acrescentou:
— Só espero que você esteja certo.
As crian?as estavam sentadas quando Victor entrou.
Ele n?o sorriu.
— Onde está o professor? — perguntou Grace, antes mesmo que ele falasse.
Victor respirou.
— Gehard precisou partir.
Silêncio.
E ent?o a explos?o — dessa vez emocional.
— O QUê? — Pedro levantou-se de um salto. — Como assim partir?
— Foi decis?o minha.
— Você expulsou ele?! — a voz do menino falhou entre raiva e incredulidade.
Evan ficou parado.
Anne n?o disse nada — mas seus olhos ficaram atentos demais.
— Ele estava colocando a comunidade em risco — continuou Victor.
— Ele salvou a gente! — Pedro avan?ou um passo. — Ele ensinou a gente! Você nem sabe usar magia!
Um vento súbito atravessou o alojamento.
As cortinas se ergueram.
Maísa estava chorando.
— N?o é justo!
— Calma — disse Victor, firme.
O vento cessou aos poucos.
Pedro ainda estava ofegante.
— Ele n?o ia machucar ninguém — disse Grace, mais baixo.
Evan finalmente falou.
— Ele sabia o que estava fazendo, confiávamos nele.
Havia algo na voz dele que n?o era só tristeza.
Era inseguran?a.
Anne segurou a manga dele discretamente.
Victor percebeu.
— Eu prometo uma coisa a vocês — disse ele, ajoelhando-se para ficar na altura deles. — Os treinamentos continuam.
— Com quem? — Pedro retrucou.
— Eu acompanhei todos os dias. Vocês já controlam mais do que imaginam. é quest?o de disciplina agora.
Ele fez uma pausa.
— Bella vai ajudar.
Um silêncio diferente tomou o espa?o.
— A Bella? — Luiz arregalou os olhos.
— Ela vai brigar com a gente se a gente pisar nas flores — murmurou Pedro.
— E vocês v?o pisar — completou Victor, quase sorrindo.
Grace respirou fundo.
— Ela sempre traz chá quando a gente se machuca.
— E bolo escondido — completou Beth.
— E reclama o tempo todo — disse Pedro.
— Mas gosta da gente — finalizou Evan.
Victor assentiu.
— Vocês n?o est?o sozinhos.
A raiva diminuiu, n?o desapareceu, mas diminuiu.
Gehard caminhava sem olhar para trás.
O som dos port?es fechando ecoou como um selo.
Ele n?o se despediu.
N?o teria suportado.
A estrada era longa. Poeirenta. Vazia.
Ent?o o ronco metálico quebrou o silêncio.
Um dos veículos dos agentes desacelerou ao lado dele.
A porta se abriu.
Raul estava lá dentro.
— Já sabe pra onde vai?
Gehard n?o respondeu de imediato.
— Posso oferecer carona.
O silêncio se estendeu.
Ent?o algo acendeu nos olhos de Gehard.
Uma ideia.
Ele entrou.
O motor vibrava sob os pés.
— Como está se sentindo? — perguntou Raul.
— Deslocado.
— Você já estava.
Gehard encarou a estrada.
— Para onde vai agora?
Ele hesitou.
— Para onde houver respostas.
Raul o observou com mais aten??o.
— Você entende que ainda é suspeito, certo?
— Eu entendo que sempre fui.
— Nós monitoramos você desde o Pier 1.
Gehard n?o demonstrou surpresa.
— Eu imaginava.
— Sabemos que algo grande aconteceu recentemente. E sabemos que você está no centro disso.
Silêncio.
Gehard virou o rosto para Raul.
— Ent?o me deixem ajudar.
Raul arqueou a sobrancelha.
— Como?
— Quando isso acontecer de novo — porque vai acontecer — vocês v?o precisar de alguém que entenda.
— Entenda o quê?
— O que está vindo.
— E o que esta vindo?
— Eu n?o sei exatamente, mas você também sente que algo vai acontecer, n?o sente?
Raul n?o respondeu.
— Eu posso ser útil — continuou Gehard. — E quando vocês retornarem à comunidade... estar?o preparados.
O carro seguiu pela estrada.
Raul sorriu, quase imperceptível.
— Você quer entrar para a nossa unidade?
— Eu quero voltar para casa.
— E isso ajuda como?
Gehard encarou o horizonte.
— Toda porta precisa de alguém para abrir.
O veículo desapareceu na poeira.

