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O Time de Contenção

  Piririm. Piririm. Piririm.

  O som do telefone cortou o silêncio do quarto improvisado. Rachel dormia sedada na cama ao lado, respirando com dificuldade, mas viva. Isso era tudo que importava naquele momento.

  Atendi.

  "Al?, Alex. " a voz da Rebecca veio firme, profissional. " Já faz seis dias que você n?o se reporta estava preocupada "

  Respirei fundo.

  " Eu encontrei elas."

  Silêncio.

  "O quê?"

  " Rachel e Kelly. " engoli seco. " A Rachel está viva. A Kelly " as palavras travaram. " A Kelly n?o sobreviveu."

  Do outro lado da linha, um silêncio pesado se formou.

  "Entendo "

  " Eu preciso de refor?os."

  "Por quê? " o tom dela endureceu. " Sua miss?o era localizar as agentes desaparecidas. Você conseguiu. Volte no próximo voo para Londres."

  Fechei os olhos por um segundo.

  Vi o por?o.

  Vi a cadeira.

  Vi os relatórios.

  Quando abri os olhos, minha voz n?o tremia.

  " Rebecca você me conhece."

  Ela suspirou, já sabendo onde aquilo ia dar.

  " Ernesto vai tentar tomar o poder do México em três dias. " continuei. " Reuni?o no prédio central. Se eu sair agora, ele vence. Se eu ficar pelo menos alguém tenta impedir."

  " Alex, isso n?o é uma opera??o autorizada."

  " Nunca é. " respondi, calmo. " Mas eu vou atacar com ou sem a OMCB. A diferen?a é se vocês v?o estar do meu lado ou lendo meu nome em um relatório."

  Silêncio outra vez.

  Mais longo.

  Mais pesado.

  " Droga. " Rebecca murmurou, baixo demais pra ser profissional. " Você n?o muda nunca."

  " Nem você."

  Ouvi o som de teclas do outro lado.

  "Tá bom. " ela cedeu. " Vou mandar refor?os. Derrick, Torben e Jake. Eles chegam antes da reuni?o."

  " Por que n?o o Holland "

  "O Holland n?o é mas investigador ele mudou para a administra??o depois de Roma "

  "Obrigado ent?o."

  "Isso n?o é um favor, Alex. " ela disse, séria. " é conten??o de danos. E quando isso acabar nós vamos conversar."

  " depois que você virou chefe de setor você tá bem chata."

  "Cuida da garota." a voz dela suavizou por um segundo. " E n?o morre."

  " Vou tentar."

  A liga??o caiu.

  O hospital nunca dormia de verdade.

  Mesmo de madrugada, havia sempre o som distante de passos apressados, máquinas apitando, vozes abafadas atrás de cortinas brancas. A luz fria dos corredores deixava tudo com cara de mentira como se aquele lugar tentasse convencer a dor de que ela n?o existia.

  Mateus dormia encolhido na cadeira ao lado da cama de Rachel, a cabe?a caída para frente, os dedos ainda manchados de sangue seco que n?o era dele. Ele respirava pesado, exausto demais até para sonhar.

  Rachel estava imóvel. Pálida demais. Fios ligados ao bra?o, ao peito, ao que restava da for?a dela.

  Eu estava de pé ao lado da janela quando ouvi passos correndo pelo corredor.

  N?o precisei virar para saber quem era.

  "Rachel!"

  Derrick surgiu na porta como um furac?o contido. O cabelo preto com as pontas vermelhas estava bagun?ado, a roupa simples demais para alguém do rank dele camiseta escura, jaqueta leve, nada chamativo. Ele atravessou o quarto em dois passos e segurou a m?o dela com for?a, como se tivesse medo de que ela desaparecesse.

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  " Eu t? aqui" a voz falhou. " Eu cheguei, tá ouvindo?"

  As lágrimas vieram sem aviso. Caíram no len?ol branco enquanto ele apertava a m?o dela contra o rosto, respirando rápido demais.

  " Você n?o podia fazer isso comigo" murmurou. " N?o assim."

  Mateus se mexeu na cadeira, acordando com o som. Olhou confuso, depois entendeu. N?o disse nada. Apenas se encolheu mais, respeitando aquele momento.

  Segundos depois, dois vultos apareceram na porta.

  Jake entrou primeiro.

  Alto, ombros largos, cabelo castanho-claro caindo de qualquer jeito sobre os olhos verdes. A roupa estava amassada, desalinhada, como se ele tivesse dormido no avi?o o que provavelmente aconteceu. O sotaque australiano veio junto com o suspiro pesado.

  " Caralho" ele murmurou. " Ent?o é verdade."

  Os olhos dele foram de Rachel para mim.

  " Oi, Alex. " disse, for?ando um meio sorriso. " Faz tempo pra cacete, hein."

  " Oi, Jake — "comecei, mas n?o terminei.

  Torben entrou logo atrás.

  Diferente de todos nós, ele parecia organizado demais para aquele cenário. Cabelo loiro médio puxado para trás, óculos quadrados alinhados no rosto, roupas bem ajustadas, limpas demais para um hospital de emergência no México. Os olhos dele analisaram tudo em silêncio: Rachel, os aparelhos, Mateus, Derrick ajoelhado ao lado da cama.

  " Ent?o" ele disse, com a voz firme. " Você vai nos colocar a par de tudo agora ou prefere esperar sair daqui?"

  Abri a boca para responder, mas Torben levantou a m?o.

  " N?o. " ele corrigiu. " Melhor fora daqui."

  Respirei fundo.

  " Sim. " concordei. " N?o é seguro falar aqui. Nós vamos nos encontrar com o Samuel. Lá eu explico tudo o projeto, o cartel, a Máfia Oscura e o que vem a seguir."

  Jake soltou um assobio baixo.

  " Sempre que você diz 'o que vem a seguir', eu sei que vai dar merda."

  " Vai. " respondi, sem rodeios.

  Torben ajustou os óculos.

  " Ent?o vamos logo. " disse. " Cada minuto parado é uma vantagem pra eles."

  Quando me virei para sair, Derrick falou.

  " Eu n?o vou."

  Todos olharam para ele.

  Ele continuava segurando a m?o de Rachel, a testa encostada nos dedos dela.

  " Eu fico. " repetiu. " Alguém tem que ficar com ela."

  " Derrick… " comecei.

  " N?o. " ele me interrompeu, finalmente levantando o olhar. Os olhos estavam vermelhos, mas firmes. " Você faz o que precisa fazer. Eu fico aqui. Se ela acordar ela n?o vai acordar sozinha."

  Houve um silêncio pesado.

  Torben observou por alguns segundos e assentiu.

  " Decis?o correta. " disse. " E com minha ben??o nem precisaremos de você."

  Jake deu um tapinha leve no ombro de Derrick ao passar.

  " A gente volta. " falou. " Prometo."

  Mateus levantou da cadeira, hesitante.

  " Eu… eu posso ir com vocês? " perguntou baixo.

  Olhei para ele. T?o jovem. T?o quebrado. T?o envolvido em algo grande demais.

  " N?o. " respondi, com gentileza. " Você fica aqui também. Protege ela."

  Ele assentiu.

  Antes de sair, olhei uma última vez para Rachel.

  Ela n?o se mexeu.

  Mas jurei ali mesmo que tudo aquilo acabaria.

  N?o importava o custo.

  A casa de Samuel ficava escondida entre prédios antigos, uma constru??o discreta demais para alguém que sabia demais. As janelas estavam fechadas, cortinas grossas bloqueando qualquer vis?o externa. Dentro, o ar tinha cheiro de café velho, papel e culpa o tipo de lugar onde decis?es erradas eram tomadas com lógica perfeita.

  Samuel estava sentado à mesa da cozinha, mangas da camisa dobradas, olheiras profundas marcando o rosto. Ele parecia menor do que da última vez que eu o vi. Menos cientista. Mais homem quebrado.

  Jake estava encostado na parede, bra?os cruzados, mastigando um chiclete invisível. Torben já havia tomado a cadeira da ponta da mesa, tablet ligado, vários mapas e esquemas abertos. Ele estava confortável demais o que sempre significava que já tinha metade do plano montado na cabe?a.

  " Certo " comecei, quebrando o silêncio. " Dia 14. Amanh?. Ernesto vai se reunir no prédio central da Cidade do México. Alta concentra??o política, empresarial e criminosa."

  Samuel assentiu lentamente.

  " Ele vai tentar legitimar poder " disse. " Comprar alian?as. Subornar militares. A Oscura quer colocar o nome dele como 'intermediário oficial'. Se isso acontecer, ele vira intocável.

  Jake soltou um riso curto.

  " Odeio quando vil?o vira empresário."

  Torben deslizou o tablet para o centro da mesa.

  " O prédio tem vinte e dois andares. " come?ou, objetivo. " Ernesto ficará no décimo nono. Seguran?a privada, dois aben?oados confirmados da máfia oscura e pelo menos quinze homens armados."

  Ele ajustou os óculos.

  " Mas com o meu poder, isso acaba rápido."

  Jake virou o rosto, sorrindo de canto.

  " Gosto da sua confian?a, alem?o."

  " N?o é confian?a. " Torben respondeu seco. " é estatística."

  Samuel pigarreou.

  " Ernesto confia demais nos aben?oados dele. " disse. " Especialmente no El Matador se ele ainda estiver vivo.

  " Está. " falou. " E vai estar lá."

  Silêncio.

  Torben n?o pareceu se abalar.

  " Melhor ainda. " disse. " Centralizamos tudo em um único ponto. Com o meu poder, isso acaba rápido."

  Jake finalmente se aproximou da mesa.

  " Tá, gênio administrativo " falou. " E como entramos? Pela porta da frente?"

  Torben ampliou o mapa.

  " Entrada de servi?o no subsolo. " explicou. " Jake, você cria distra??o no andar oito. Você é bom em caos controlado."

  Jake abriu um sorriso largo.

  " Finalmente alguém que me entende."

  " Alex " Torben continuou " você sobe direto pro décimo nono. Conten??o e captura. N?o elimina??o."

  Olhei direto para ele.

  " Se Ernesto reagir—"

  " Eu sei. " Torben cortou. " Mas com o meu poder, isso acaba rápido."

  Samuel passou a m?o no rosto.

  " Vocês est?o subestimando ele. " disse, a voz pesada. " Ernesto n?o é só um criminoso. Ele acredita no que faz. Ele acha que o Projeto AUB era o futuro."

  " Todo monstro acha isso. " respondi.

  Torben bateu levemente na mesa.

  " Chega de filosofia. " disse. " Precisamos de eficiência. Neutralizamos os aben?oados primeiro. Com o minha ben??o, isso acaba rápido.

  Jake ergueu a sobrancelha.

  " Quantas vezes você vai repetir isso?"

  " Até entrar na sua cabe?a. " Torben respondeu, sem humor.

  Samuel respirou fundo.

  " Eu posso desligar o sistema interno de seguran?a por exatos noventa segundos. " disse. " Depois disso, tudo entra em alerta máximo."

  " Noventa segundos é mais do que suficiente. " Torben respondeu imediatamente. " Com o meu poder, isso acaba rápido."

  Houve um breve silêncio.

  Eu encarei os três. Cientista arrependido. Estrategista frio. Soldado caótico. E eu no meio disso tudo.

  " Ent?o é isso. " falei. "O Jake faz a distra??o Samuel desliga a seguran?a o torben usa a tal ben??o dele e eu uso o as de paus para matar El matador e capturar Ernesto"

  Jake estalou o pesco?o.

  " Finalmente. " disse. " Tava com saudade de um final de miss?o decente."

  Torben desligou o tablet e se levantou.

  " Descansem. " afirmou.

  Ele ajustou os óculos uma última vez.

  " E lembrem-se… com o meu poder, isso acaba rápido."

  Samuel n?o sorriu.

  Eu também n?o.

  Porque todos nós sabíamos:

  quando alguém precisa repetir isso tantas vezes é porque nada nunca acaba t?o rápido assim.

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