"N?o se preocupe, Mateus. " disse, a voz firme como a?o. " Eu assumo daqui."
" Alex Baker. " o sorriso dele se abriu de ponta a ponta. " Eu sabia.
Eu sabia que você n?o ia morrer t?o fácil."
" Sai daqui " falei sem olhar para trás. " Agora."
" …n?o " a voz dele veio fraca, quase um sussurro.
" Isso n?o foi um pedido."
Mateus reuniu o resto de for?a que tinha para rastejar para trás, desaparecendo pelo corredor lateral. Só quando ouvi os passos se afastando eu permiti que minha aten??o se voltasse completamente para Henry.
Ele abriu os bra?os.
" Olha só pra você… sempre o herói. Sempre o protetor." cuspiu no ch?o "Isso é irritante pra caralho."
" Você matou crian?as, Henry."
" E você matou meu irm?o."
O ar ficou pesado.
" Ele escolheu o caminho dele."
" TODO MUNDO ESCOLHE! " ele gritou de repente, os olhos brilhando de ódio. " E VOCê ESCOLHEU VIR ATé AQUI!"
O ch?o tremeu.
O concreto sob os pés dele rachou, n?o por for?a física, mas porque a composi??o come?ou a mudar. O carbono do cimento foi rearranjado, compactado, endurecido até virar algo próximo de obsidiana.
" Vamos lá, Alex… " Henry inclinou a cabe?a, provocador. " Me mostra o truque novo.
Ou vai morrer tentando ser bonzinho?"
Respirei fundo.
Senti o gosto metálico na boca. Sangue.
" Valete de Ouros."
O mundo acendeu.
Meu cora??o bateu uma vez.
Duas.
Na terceira, o sangue come?ou a ferver.
N?o metaforicamente.
A energia U correu pelo meu corpo como um circuito em curto. Minhas veias se iluminaram em tons incandescentes, o vermelho escurecendo até virar laranja, depois dourado, depois algo quase branco no centro.
A dor veio instantanea.
Era como se meu corpo estivesse tentando se matar por dentro.
Mas eu já conhecia isso.
" Ahhh… " Henry arregalou os olhos, fascinado. " Lava…"
ele come?ou a bater palmas "Isso é novo. Isso é muito novo."
O sangue que escorria dos meus ferimentos n?o pingava. Ele caía no ch?o e chiava, derretendo o concreto, abrindo pequenas crateras fumegantes.
" última chance, Henry " falei, sentindo a garganta queimar. " Sai daqui."
Ele respondeu avan?ando mordendo o lábio.
Ele passou a m?o em uma gota de sangue que se expandiu, virando uma lamina negra, serrilhada, feita de carbono compactado, mais duro que nem a?o.
Rolei para o lado no último segundo.
A lamina passou onde minha cabe?a estava, cortando o ar com um estalo seco. O impacto contra a parede atrás de mim abriu um buraco limpo, circular, como se tivesse sido perfurado por uma broca gigante.
" RáPIDO! " Henry riu. " Mas n?o o suficiente!"
Ele veio de novo.
Dessa vez, ele pegou um peda?o do concreto que se transformou em uma lan?a longa.
Eu avancei.
Cada passo deixava marcas incandescentes no ch?o. O calor ao meu redor distorcia o ar, criando miragens.
Desviei da lan?a, deixei a lamina passar raspando, e acertei um soco direto no peito dele.
O impacto foi devastador.
Meu punho explodiu contra o tórax de Henry, liberando uma onda de calor que derreteu a carne, carbonizou os ossos e lan?ou o corpo dele contra a parede oposta como um míssil.
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A sala inteira tremeu.
" Acabou " murmurei, respirando com dificuldade.
Henry caiu de joelhos.
Por meio segundo… ficou imóvel.
Ent?o come?ou a rir.
A carne derretida se reconstruiu. O carbono queimado se rearranjou, formando novas fibras, mais densas, mais escuras.
" Cara… " ele cuspiu algo preto no ch?o. " Isso foi quase bom."
Ele se levantou.
Agora estava diferente.
O corpo inteiro dele estava coberto por placas negras, organicas, como uma armadura viva. Veias escuras pulsavam por baixo, sincronizadas com o cora??o.
" Você percebe o problema, né? " ele inclinou a cabe?a. " Lava precisa de tempo."
" estalou os dedos "
"E você… está sangrando."
Senti.
Cada golpe que eu dava me consumia por dentro. O Valete de Ouros era devastador, mas cobrava um pre?o alto demais. Meu corpo n?o foi feito para carregar um vulc?o nas veias por tanto tempo.
Henry abriu a boca.
O interior n?o era mais humano. Era um emaranhado de fibras negras e estruturas cristalinas.
Ele cuspiu.
Uma rajada de fragmentos de carbono comprimido explodiu em minha dire??o como uma escopeta.
Levantei o bra?o instintivamente.
Os projéteis atravessaram minha carne, rasgando músculos, perfurando ombro, costela, coxa. O sangue jorrou e cada gota virou lava no ar, derretendo parte dos fragmentos antes que eles me atravessassem completamente.
Caí de joelhos.
" Tá vendo? " Henry caminhava devagar até mim. " Você é um bosta e eu sou foda."
" ajoelhou à minha frente "
"e isso é pelo meu irm?o"
Ele ergueu a m?o e atravessou a lan?a por meu peito.
" Eu vou te matar devagar. Pelo meu irm?o."
ele sorriu
"E depois vou atrás do garoto."
Meu cora??o disparou.
" N?o… vai."
Cravei a m?o no próprio abd?men.
A dor foi absurda.
Mas eu precisava de mais.
O sangue jorrou, em quantidade. A lava saiu acumulada em uma rajada ao redor do corpo dele.
" O quê… "
O golpe atravessou o peito de Henry, arrancando metade do torso, vaporizando tudo no caminho. o cheiro de carne queimada tomou o local .
Fechei os olhos.
Henry saiu dos escombros.
O corpo estava destruído… mas se refazendo.
Mais lento agora.
" Heh… " ele tossiu. " Você quase quase conseguiu."
Eu tentei me levantar.
N?o consegui.
" Mas sabe o que é engra?ado? " ele se aproximou mancando. " Mesmo assim…" ele levantou o bra?o "Você morre aqui."
Ele parou.
Olhou para o ch?o.
Para os próprios pés.
Algo borbulhava ali.
Magma.
O sangue que eu tinha derramado antes… ainda estava ativo.
" ESPERA!."
O ch?o cedeu.
A lava envolveu as pernas dele, subindo rápido demais. Henry gritou pela primeira vez, n?o de raiva, mas de panico.
" N?O"!
O carbono tentou se adaptar.
N?o deu tempo.
O calor foi demais.
A estrutura falhou.
Henry afundou, gritando, se desfazendo, até que n?o restasse nada além de um buraco fumegante… e silêncio.
Fiquei deitado, ofegante, sentindo o mundo girar.
Mas do buraco uma gosma negra saiu em alta velocidade pela janela.
Mateus surgiu no corredor logo depois, passos incertos, os olhos arregalados demais para um garoto da idade dele. As lágrimas escorriam sem barulho, como se o corpo tivesse desistido até de chorar direito.
"Alex…?"
Ergui o rosto com esfor?o. Cada músculo protestava, mas forcei um sorriso torto, mais para ele do que para mim.
" Ei… garoto… " minha voz saiu rouca, quase um sussurro. Fechei os olhos por um segundo, respirando fundo. " Acho que… ganhamos."
Ele engoliu em seco, aproximou-se rápido.
" Alex… eu encontrei a porta pro por?o."
Aquilo caiu como um peso invisível no meu peito.
" Ent?o… " empurrei o ch?o com as m?os e me levantei com dificuldade, sentindo as costelas reclamarem " …vamos logo, Mateus."
Caminhamos pelo corredor estreito. O silêncio ali embaixo n?o era normal n?o era ausência de som, era algo mais pesado, como se o lugar estivesse prendendo a respira??o junto com a gente. As paredes pareciam mais próximas, o ar mais frio. Cada passo ecoava errado, como se o prédio n?o quisesse ser atravessado.
A porta do por?o estava no fim do corredor.
Ela era diferente.
N?o como as outras. Mais grossa. Refor?ada demais para uma casa comum. A madeira estava marcada, arranhada, como se algo tivesse tentado sair dali ou entrar à for?a. Havia manchas escuras perto da ma?aneta, antigas, impregnadas. N?o precisei tocar para saber que n?o eram recentes mas também n?o eram esquecíveis.
Mateus parou atrás de mim.
" Alex… " ele hesitou " …eu n?o gosto desse lugar."
" Eu sei. " respondi baixo. " Fica atrás de mim."
Abri a porta.
O rangido foi lento, arrastado, quase um gemido.
Descemos.
Cada degrau parecia sugar a luz. O cheiro mudou primeiro metálico, ácido, algo que fazia o fundo da garganta arder. Lá embaixo era meio escuro, a ilumina??o inexistente, como se a própria luz tivesse aprendido a n?o entrar ali.
Mordi o dedo sem pensar duas vezes.
O sangue escorreu… e, ao tocar o ar, se tornou incandescente. Um brilho alaranjado, vivo, pulsante. Usei-o como tocha improvisada, levantando a m?o para iluminar o caminho.
Foi ent?o que eu entendi.
E o meu corpo reagiu antes da minha mente.
Um arrepio violento percorreu minha espinha, como se alguém tivesse passado uma lamina gelada por dentro de mim. Meu est?mago se contraiu. As pernas ficaram fracas. O ar simplesmente… sumiu.
Em todos os meus oito anos como investigador da OMCB, eu já tinha visto coisa demais. Corpos empilhados. Salas de execu??o. Crian?as usadas como escudo. Massacres inteiros apagados de relatórios.
Mas aquilo…
Aquilo era diferente.
Meu cérebro tentou organizar o que estava vendo tentou colocar nomes, categorias, protocolos e falhou. N?o havia palavras suficientes. N?o havia treinamento suficiente. N?o havia preparo humano suficiente.
Meu bra?o come?ou a tremer. O sangue-luz oscilou, projetando sombras que pareciam se mexer sozinhas. Cada detalhe que meus olhos captavam fazia algo dentro de mim rachar um pouco mais.
Senti um nó subir pela garganta.
Meu peito doeu.
Meu cora??o batia rápido demais, como se quisesse fugir primeiro. A respira??o ficou curta, irregular. Eu queria fechar os olhos queria muito mas n?o consegui. Era como se algo estivesse me obrigando a olhar. A entender. A carregar aquilo comigo.
As m?os come?aram a falhar.
O sangue incandescente pingou no ch?o, chiando baixinho.
Foi aí que percebi.
Eu estava chorando.
N?o um choro bonito, nem silencioso. Era um choro quebrado, feio, involuntário. As lágrimas escorriam quentes, misturadas com raiva, nojo, culpa… e uma sensa??o esmagadora de impotência.
Meu corpo inteiro tremia.
Mateus deu um passo atrás de mim.
" Alex…? " a voz dele saiu pequena. Assustada.
Tentei responder.
N?o consegui.
Tudo o que saiu foi um som preso, um solu?o sufocado. Minhas pernas cederam um pouco, e precisei apoiar a m?o na parede para n?o cair. A superfície estava fria demais. Errada demais.
Naquele instante, algo dentro de mim quebrou de vez.
Foi a certeza absoluta de que o mundo permitiu aquilo existir.
Que alguém planejou. Que alguém financiou. Que alguém assinou papéis, sorriu, dormiu à noite sabendo exatamente o que havia naquele por?o.
A única coisa que consegui fazer foi baixar a cabe?a.
E chorar.
Por que certas coisas nunca deveriam ser vistas por ninguém.

