O terceiro andar estava silencioso demais.
Cada passo meu ecoava entre as paredes sujas. Consegui sentir o gosto metálico da morte antes mesmo de ver o primeiro corpo.
E ent?o, ele estava lá.
O cowboy.
Sentado no centro do corredor estreito, casaco marrom rasgado nos ombros, chapéu de aba larga sombreando o rosto e ao redor dele, espalhados como pe?as de um tabuleiro desmontado, os corpos dos homens que o Mateus mencionou. Todos mortos. disparos limpos. Precisos. Rápidos demais.
Ele n?o parecia cansado. Nem suado. Apenas... esperando.
Quando seus olhos encontraram os meus, ele ergueu o queixo e soltou um sorriso torto, relaxado demais para alguém cercado de cadáveres.
"Olá, Alex. " a voz dele veio abafada, cheia de uma calma irritante. " Demorou, achei que ia cochilar no caminho."
"Como você subiu t?o rápido? " perguntei, meu instinto já acendendo como fósforo.
Ele deu de ombros, apontando com o polegar para a janela quebrada ao lado.
"Elevador é pra amador."
O sorriso dele ampliou. Um sorriso que dizia: 'Eu posso te matar antes da próxima piscada'.
"Senta aí, Alex. Vamos conversar. " falou, batendo no degrau de concreto ao lado dele.
Eu n?o sentei, mantive um metro de distancia, m?o próxima ao bolso onde guardava minhas cartas.
"Foi você que matou todo este quartel?"
Ele inclinou o chapéu, como se estivesse recebendo um elogio.
"Sim. Eles eram fracos. Nenhum deles tinha uma bên??o sequer."
Um suspiro falso. "Fico até triste. Esperava mais divers?o, mas agora você apareceu ent?o espero que seja divertido."
Engoli seco. Se aqueles homens foram mortos t?o facilmente… ent?o este cowboy n?o era qualquer coisa. Ele tinha alguma ben??o.
"Por que você está me seguindo? " perguntei, encarando-o. " O que você quer comigo?"
Ele ergueu as sobrancelhas como se a resposta fosse óbvia.
"Alex… " levantou lentamente, a bota estalando contra uma po?a de sangue. " Você está metendo o nariz em um lugar onde ninguém deveria meter."
"Sou um investigador. " respondi firme. " é exatamente isso que eu fa?o: me meter."
Ele riu. Um riso curto, divertido, como se estivesse ouvindo uma piada boa.
"Brabo. Gosto disso. " virou de costas, caminhando alguns passos enquanto falava. " Mas coragem sem no??o é só suicídio com floreio."
Voltou-se para mim, olhos brilhando com algo que n?o era hostilidade… era curiosidade.
"Ent?o vamos resolver isso de um jeito simples " Ele estalou os dedos. " Um duelo. Um disparo. Teste de velocidade."
"Um… duelo? " repeti.
Ele abriu os bra?os, teatral.
"Isso! Um duelo, igual nos velhos filmes. " apontou com o indicador. " Se você vencer, eu te digo tudo que sei. Tudo sobre o cartel, sobre o Fernando Espinoza, sobre o Ernesto… até sobre as bên??os novas que t?o surgindo por aqui.
A informa??o que eu precisava. O fio que podia puxar todo o novelo.
Mas ent?o perguntei:
"E se você ganhar?"
O sorriso dele mudou. Ficou mais estreito. Mais sincero.
"Aí eu te mato." Ele disse sem hesitar, como quem fala o clima do dia. "Rápido. Sem dor. Te prometo isso."
O silêncio entre nós virou metal pesado.
Eu respirei fundo.
"Você mata qualquer um que investigue esse lugar?"
Ele riu.
"N?o. Só os bons. " apontou pra mim. " E você, Alex… é bom o suficiente pra ser um problema."
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Meu cora??o batia arrítmico, mas minha mente estava firme.
"E as cartas permitem duelos agora? " perguntei, provocando.
Ele inclinou a cabe?a.
"N?o vou usar bên??o nenhuma. " respondeu. " Só quero ver se você é rápido… ou só acha que é."
Por um segundo, o ar ficou pesado demais. A luz do corredor piscou. O cowboy colocou a m?o no coldre vazio nenhum revólver, apenas os dedos preparados como se ele fosse disparar com uma arma invisível.
um selo invertido.
"Pronto? " ele perguntou, voz baixa, excitada, intensa.
Antes de responder, senti o peso da escolha.
Se eu vencesse, descobria tudo.
Se eu perdesse… meu corpo seria só mais um no corredor.
Engoli o medo.
"Pronto."
Ele sorriu de novo.
E aquele sorriso dizia uma coisa:
'Tomara que você seja rápido, Alex.'
O cheiro de sangue seco ainda pairava entre nós quando levei a m?o para minha arma.
O cowboy piscou.
Foi o único movimento que ele fez.
Eu saquei no mesmo instante, dedo já no gatilho.
O disparo ecoou pelo terceiro andar como um trov?o preso num espa?o pequeno.
O tiro acertou bem no est?mago dele.
O cowboy arqueou o corpo para trás e levou a m?o ao ferimento, soltando um riso entrecortado de dor.
"Caralho, Alex… " ele arfou. " Parece que você me acertou mesmo."
Eu abri um sorriso curto.
Por um instante, achei que tinha ganho com folga.
Até sentir algo quente escorrer pelo meu pesco?o.
Toquei a orelha.
Veios de sangue tingiam meus dedos, e o meu lóbulo simplesmente… n?o estava mais ali.
Meu est?mago afundou.
"Porra… " murmurei. " Você é rápido demais."
"Eu? " ele riu, mancando. " Você quase me abriu no meio. T? até com inveja."
Apontar a arma pra ele me devolveu o foco.
"Vamos às perguntas."
"Eu n?o vou—"
N?o esperei ele terminar.
Atirei na perna dele.
O estalo do osso rachando ecoou como um galho seco em inverno.
"AAAAH CARALHO! " ele caiu de joelhos, apoiando o bra?o na parede suja. " Porra, porra, tá doendo, porra"
Aproximei-me, mirando agora no ombro.
"Fala, ou dessa vez eu n?o erro o cora??o."
Ele arfou, desesperado, tentando achar ar entre as palavras:
"Eu… eu n?o sei de muita coisa! O Ernesto só me pagou pra te seguir! Eu sou rastreador, n?o investigador! Pelo amor de Deus, n?o me mata eu tenho esposa, uma filha pequena, ela nem fez três anos…"
"Nome da bên??o. " cortei, minha voz seca como pó.
Ele engoliu o choro.
"A… Aposta Angular… é o nome…"
"O que ela faz?"
" Ela… ela refina o meu selo de invers?o… deixa o controle mais preciso, mais rápido… melhora angulos, trajetória…"
Ele tossiu sangue.
" Eu nunca usei pra matar crian?a… por favor, Alex…"
Eu incline-me, analisando o padr?o do sangue escorrendo pelo concreto.
"Categoria? "
Ele fechou os olhos como se responder fosse uma senten?a.
" Fissura … " murmurou.
Me afastei um passo.
Fissura.
Fazia sentido.
" Isso daria um bom 3 de espadas."
" O q-que? " ele piscou, confuso, lágrimas e suor misturados.
"Cole??o pessoal. " respondi, levantando o cano da arma até a linha entre o peito e o queixo dele.
" Cada carta é uma história. A sua é… curta demais, pra alguém t?o rápido."
Ele tentou levantar a m?o, talvez pra pedir clemência.
Eu puxei o gatilho.
Uma, duas, três vezes.
Os impactos destruiram o peito dele, apagando qualquer resquício de resistência. O corpo caiu para trás como um boneco com fios cortados.
Fiquei olhando por dois segundos.
Só dois.
Mas eles pareceram minutos.
Depois guardei a arma e a nova carta, virei-me e sussurrei para mim mesmo:
" Com essa… já tenho trinta e sete cartas."
Trinta e sete mortes justificadas.
Trinta e sete promessas quebradas pelo mundo.
Trinta e sete memórias que eu n?o conseguia esquecer mesmo querendo.
Desci as escadas ainda com a adrenalina queimando no peito. O Mateus estava parado no corredor, pálido, com os olhos arregalados.
"Eu ouvi tiros… " a voz dele tremia.
" Resolvi tudo " respondi, passando por ele. " Agora vamos. Tenho que te levar para um médico."
Ele balan?ou a cabe?a, quase indignado.
"N?o! Você pode… me levar pra comer um hambúrguer? Eu t? morrendo de fome. "
Soltei uma risada curta, quase aliviada.
" Vamos, vai."
O McJones estava lotado. Crian?as corriam entre as mesas, risos ecoavam, e o cheiro de fritura era t?o forte que quase dava pra sentir o colesterol entrando pela pele. Sentamos perto da janela, num canto mais isolado.
Mateus atacou o primeiro hambúrguer como um animal faminto. Em minutos, já estava no segundo. No terceiro, parecia lutar uma batalha silenciosa com ele mesmo.
"Coitado…" pensei. " Deve ter sofrido pra cacete."
Ele levantou o olhar, com os cantos dos olhos ainda vermelhos.
"Você é um policial, né?"
" Algo assim. Sou investigador da OMCB."
" Minha m?e disse que vocês s?o monstros. Que matam qualquer pessoa que tenha uma Bên??o."
Suspirei.
" Se essa pessoa for do mal, talvez. Mas… na maioria das vezes, ajudamos essas pessoas a se tornarem úteis. A terem uma vida de verdade."
Ele baixou a cabe?a, apertando o copo de refrigerante.
" Obrigado… por me resgatar. E por pagar os hambúrgueres. Isso foi legal da sua parte."
" Eu n?o ia te deixar com fome " respondi, sorrindo. Ele devorava as batatas como se estivesse comendo pela primeira vez. " De onde você é?"
" Minha família mora em Newark… em Nova Jersey."
" Isso é longe pra caralho."
Ele riu, mas logo a express?o se quebrou ele parecia ter o peso no mundo nas costas.
" Eles sequestraram toda a minha turma… " a voz falhou. " Colocaram a gente numa casa minúscula. Eu ainda me lembro… eles me cortavam… injetavam coisas… doía tanto…"
As lágrimas caíam sem controle.
Eu me aproximei e o abracei, firme.
" Tá tudo bem, garoto. Tá tudo bem. Logo você vai estar em casa, eu prometo. Vou ligar pra Rebecca, ela vai arrumar um voo, e amanh? você já vai estar nos bra?os da sua família."
Meu celular vibrou. Olhei a tela: Liz.
" Espera aqui, só um minuto " levantei. " Vou atender lá fora."
Ele assentiu, respirando fundo.
A porta do McJones se fechou atrás de mim com um thump. Atendi.
" Al??"
"Você n?o me ligou. " A voz da Liz veio fria e acusadora.
"Liz, eu t? aqui só quatro dias e você já tá me enchendo…"
"Você tá bem?"
" T?. E você só me ligou pra isso?"
" N?o. Eu descobri onde o meu pai pode estar."
Antes que eu pudesse responder, ouvi a porta do restaurante atrás de mim se abrir. Me virei.
Mateus estava parado na soleira, o rosto coberto por uma mistura impossível de medo, dúvida e determina??o. Parecia lutar consigo mesmo.
Os olhos dele encontraram os meus.
"Eu… eu tenho uma Bên??o."
Meu cora??o afundou.
O mundo ao redor pareceu silenciar.
O vento frio da noite passou entre nós dois. Meu celular escorregou um pouco na minha m?o, com a Liz ainda falando alguma coisa do outro lado mas eu já n?o ouvia mais nada.
Só Mateus.
Só aquelas palavras.
“Eu tenho uma Bên??o.”
E, naquele instante, percebi:
Eu n?o tinha resgatado apenas um garoto.
Eu tinha acabado de abrir a porta para um problema muito maior.

