Os dias na academia transformaram-se em semanas, e as semanas, em meses. A amizade entre Moisés e Maria floresceu, tornando-se a ancora das suas vidas naquele mundo estranho e exigente. Eles eram uma presen?a constante um para o outro, um apoio silencioso que se manifestava num abra?o rápido antes de um treino particularmente duro, ou numa palavra de encorajamento quando um deles estava prestes a ceder à exaust?o. A sua sinergia em combate tornou-se lendária entre os outros cadetes. Onde a velocidade pura de Maria n?o era suficiente para quebrar uma defesa, a mente estratégica de Moisés encontrava um caminho. Onde a for?a metódica de Moisés encontrava um obstáculo intransponível, a agilidade de Maria criava uma abertura. Era como se tivessem nascido para completar um ao outro, uma parceria perfeita forjada em suor, respeito mútuo e uma afei??o que nenhum dos dois ainda ousava nomear.
Certo dia, numa das arenas ao ar livre, sob o brilho dos dois sóis de Zenthos, o treino deles estava mais intenso do que nunca. Moisés já n?o se continha tanto com ela, for?ando Maria a quebrar os seus próprios limites de velocidade apenas para conseguir acompanhar o seu ritmo e a precis?o do seu Instinto de Batalha.
"Olha só, a aberra??o supersónica a treinar com o seu animal de estima??o", disse uma voz arrastada e cheia de uma arrogancia pregui?osa.
Um rapaz alto e musculado, que eles conheciam apenas como Rick, um dos cadetes mais fortes e mais desagradáveis do seu ano, aproximou-se com um sorriso de escárnio no rosto. "Deves ser mesmo fraco para só treinares com ela."
Maria parou, o seu corpo a crepitar com a energia azul residual da sua corrida. "Se eu fosse a ti, n?o o subestimava, Rick", disse ela, a sua voz fria. "Ele pode derrotar-te bem mais facilmente do que imaginas."
Rick soltou uma gargalhada, um som desagradável que fez outros cadetes virarem-se para ver. "Esse garoto? Ele n?o é páreo para mim. A técnica dele é engra?ada, mas n?o me intimida nem um pouco. Eu derroto-o facilmente."
Moisés, que até ent?o permanecera em silêncio, observando o espetáculo com uma paciência que se esgotava rapidamente, deu um passo em frente. "Luta comigo, ent?o", disse ele. A sua voz, desprovida de emo??o, era fria e afiada, cortando a arrogancia de Rick como uma lamina.
O sorriso de Rick alargou-se. Era exatamente o que ele queria. "Como queiras." Num instante, a sua pele transformou-se, ondulando e endurecendo até adquirir a textura e a dureza de diamante negro polido. "Eu nem preciso de me mexer", vangloriou-se ele. "Podes atacar à vontade. Eu nem vou sentir."
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Confuso com aquela tática de defesa absoluta, Moisés assim o fez. Concentrando a sua for?a dentro do limite dos 50%, desferiu um soco direto e potente no peito de Rick. O som do impacto foi surdo e pesado, como bater com um martelo numa parede de bet?o. Rick n?o se moveu um centímetro. N?o sentiu absolutamente nada. Moisés recuou a m?o, os seus nós dos dedos a doerem, o choque a percorrer-lhe o bra?o. Pela primeira vez, encontrava alguém cuja defesa superava completamente o seu ataque.
Rick partiu ent?o para a ofensiva. Mas por mais que ele tentasse atacar, por mais brutais que fossem os seus golpes, o Instinto de Batalha de Moisés mantinha-o a salvo, uma dan?a de esquivas que frustrava o gigante de diamante. "N?o podes vencer se ficas sempre a desviar-te!", gritou Rick, a sua frustra??o a aumentar.
Moisés sabia que ele tinha raz?o. A sua for?a normal era inútil. E naquele momento, ele tomou uma decis?o perigosa. Lembrou-se do aviso do Guardi?o. Lembrou-se da sua promessa de discri??o, da necessidade de parecer fraco. E depois, lembrou-se do rosto arrogante de Rick, da sua provoca??o a Maria.
"Chega", sussurrou ele, mais para si mesmo do que para os outros.
E ent?o, ele libertou o poder.
Uma explos?o de luz dourada pura e ofuscante emanou dele, for?ando Maria e Rick a protegerem os olhos. O seu corpo transformou-se. A sua pele come?ou a brilhar como o cora??o de um sol, e uma aura de poder puro, visível e palpável, come?ou a flutuar à sua volta. A própria press?o do ar na arena tornou-se sufocante, pesada.
Rick baixou os bra?os e olhou, boquiaberto, o seu queixo a cair de espanto e, pela primeira vez desde que o conheciam, de medo.
Antes que ele pudesse sequer processar o que estava a ver, Moisés avan?ou. N?o foi um soco. Foi um borr?o de luz, um movimento mais rápido que o pensamento. O impacto foi t?o avassalador, t?o absoluto, que Rick foi atirado pelo ar como uma boneca de trapos, caindo com um baque surdo no ch?o da arena. A sua armadura de diamante estalou com o poder do golpe e desfez-se, a sua pele a voltar ao normal. A luta terminara em menos de um segundo.
[Cena Oculta]
Num lugar distante, envolto em sombras eternas, um Magic Negro que meditava num trono de ossos sentiu a erup??o de poder, um farol dourado na escurid?o. "Lá está ele!", sibilou, os seus olhos a brilharem com um ódio antigo. Rapidamente, ele come?ou a reunir a energia das trevas, preparando um ataque de longo alcance para extinguir aquela luz. Mas quando estava prestes a lan?á-lo, a fonte de energia desapareceu t?o subitamente como tinha surgido. O ser sombrio socou o bra?o do seu trono, frustrado. "Esconde-te o quanto quiseres, Dourado. Eu vou encontrar-te."
De volta à arena, Moisés olhava para a forma imóvel de Rick no ch?o, o seu poder dourado a recuar para o seu interior, a sua transforma??o a desvanecer-se. Ele tinha vencido. Mas, ao virar-se e ver o olhar de choque absoluto no rosto de Maria, ele percebeu que tinha acabado de quebrar a sua regra mais importante. E o pre?o dessa vitória, ele sentia, ainda estava por ser pago.

