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59. Depois do Juízo — O Corpo em ruptura

  A água n?o fazia som ao redor do castelo.

  Essa foi a primeira coisa que Ribeiro percebeu.

  N?o era silêncio natural. Era conten??o. Correntes existiam, quedas existiam, mares inteiros se moviam além das paredes translúcidas do domínio, mas nada transbordava. Tudo estava sob um controle t?o absoluto que beirava o desconforto. A água n?o precisava provar for?a. Ela apenas decidia.

  O castelo de Aqua n?o se erguia.

  Ele ocupava.

  Estruturas líquidas sustentavam arcos impossíveis, colunas que n?o tocavam o ch?o e sal?es que pareciam maiores por dentro do que por fora. A água ali n?o obedecia à gravidade; obedecia a uma vontade antiga demais para precisar se explicar. Castelos para humanos. Casas para deuses.

  Ribeiro deu alguns passos.

  O atraso o acompanhou.

  N?o no corpo, no mundo.

  O ch?o respondia depois. A luz refletia depois. Pequenas ondula??es surgiam onde ele ainda n?o estava. N?o o suficiente para denunciar poder. O bastante para denunciar presen?a.

  — …Ent?o é aqui.

  A frase n?o ecoou.

  Ela foi absorvida.

  Isso o incomodou.

  Aqua sempre respondia rápido.

  Sempre.

  Uma piada atravessada. Um comentário debochado. Aquele tom de m?e que zomba porque sabe que o filho ainda está vivo.

  Nada.

  Ribeiro avan?ou até o centro do sal?o principal. A água acima dele formava algo parecido com um teto, mas n?o era barreira. Era observa??o contínua. Ele sentiu.

  N?o julgamento.

  Reconhecimento atrasado.

  — N?o vai aparecer?

  Perguntou, sem elevar a voz.

  A água se moveu.

  N?o em dire??o a ele.

  Para os lados.

  Como se abrisse espa?o para algo que já estava ali.

  A figura se formou sem espetáculo.

  Aqua n?o surgiu da água.

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  A água decidiu que ela estava ali.

  Ela parecia a mesma.

  Cabelos fluidos, express?o leve demais para um domínio t?o contido, olhos claros carregando aquela mistura irritante de ironia e cuidado que sempre fazia Ribeiro esquecer que estava diante de uma deusa. Ainda assim… havia algo diferente. N?o mais uma imagem projetada para um moribundo. Aquilo era presen?a plena. Peso real.

  Ela bateu palmas, uma vez.

  — "Olha só… "

  Disse, sorrindo.

  — "Você n?o morreu."

  Era brincadeira.

  Era para aliviar.

  Ribeiro piscou.

  O atraso veio.

  N?o na resposta.

  Na emo??o.

  — …Pois é.

  Aqua inclinou a cabe?a.

  O sorriso n?o caiu

  Mas perdeu press?o.

  — "Esperava algo mais dramático?"

  Continuou ela.

  — "Gente que atravessa Juízo costuma chegar pior."

  Ela se aproximou.

  Cada passo dela fazia a água reagir com perfei??o absoluta.

  Cada passo dele fazia o mundo pensar.

  — Você ficou diferente.

  A frase escapou antes que Ribeiro decidisse dizê-la.

  Aqua parou.

  — "Hm?"

  — N?o…

  Ele franziu o cenho.

  — Eu que fiquei esperando você dizer isso.

  Silêncio.

  Curto.

  Errado.

  Aqua sorriu de novo.

  Mas agora era um sorriso social. Calculado. Protetor.

  — "E ficou."

  Ribeiro respirou fundo.

  O ar respondeu cedo demais.

  — Era pra você zoar.

  — "Eu estou zoando."

  — N?o do jeito certo.

  Aquilo acertou.

  N?o como acusa??o.

  Como diagnóstico.

  A água ao redor deles se reorganizou sozinha. N?o para atacar. Para escutar.

  Aqua suspirou.

  — "Você passou por algo que n?o deveria ter passado ainda."

  — Ainda?

  Ela o encarou por um segundo além do necessário.

  — "Você acha que eu n?o vi?"

  — Acho que você viu tudo.

  — "Ent?o?"

  — Ent?o por que tá fingindo que tá tudo normal?

  A pergunta n?o veio com raiva.

  Veio cansada. Desgastada. Como quem já gritou demais por dentro.

  Aqua cruzou os bra?os.

  — "Porque se eu tratar como n?o-normal…"

  Ela fez um gesto vago

  — "…eu interfiro."

  — E agora n?o tá interferindo?

  Ela sorriu torto.

  — "O mínimo possível."

  Ribeiro sentiu aquilo encaixar mal.

  — O Juízo me aceitou.

  Disse.

  Aqua fechou os olhos por um instante.

  Curto demais para ser humano.

  — "N?o."

  Ele travou.

  — "Ele n?o te aceitou"

  Corrigiu.

  — "Ele decidiu n?o te apagar."

  O castelo pareceu ajustar o eixo.

  — "Você virou variável."

  — Eu já era.

  — "N?o assim."

  Ela deu mais um passo.

  N?o havia amea?a.

  Mas o domínio inteiro se alinhou.

  — "Antes, você era algo fora do lugar."

  — Agora?

  — "Agora você é algo que o sistema tolera observar."

  Ribeiro riu.

  Curto.

  — Reconfortante.

  — "Eu n?o estou aqui para confortar."

  Ela disse sem dureza.

  Sem carinho.

  — "Estou aqui para garantir que você n?o afogue o mundo enquanto tenta entender quem virou."

  Silêncio.

  Ribeiro passou a m?o pelo rosto.

  — Ent?o eu n?o saí ileso.

  Aqua inclinou a cabe?a.

  — "Ninguém sai."

  — Nem você?

  Ela demorou.

  — "Principalmente eu... Uma mera humana..."

  A água voltou a se mover.

  Portas se abriram sozinhas, revelando corredores que n?o existiam antes.

  — "Fica."

  Disse Aqua.

  — Quanto tempo?

  — "Até você parar de atrasar o mundo."

  — E se eu n?o parar?

  Ela sorriu.

  Dessa vez, de verdade.

  — "Ent?o eu ensino você a andar nele."

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