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56. A Volta do todo poderoso: Zenerity

  O céu n?o era mais céu. Era um rasgo em chamas que atravessava a noite como uma ferida viva, pulsante, aberta à for?a. Primeiro veio um ponto, insignificante à distancia, fácil de confundir com uma estrela errante. Depois, um arco de luz absoluta: uma flecha de energia que n?o despencava, mas deslizava, como se estudasse a crosta terrestre antes de escolher onde cravar-se.

  — Sumiu?

  Ribeiro murmurou, e a palavra morreu antes de alcan?ar alguém.

  A estrela n?o caía; navegava. Movia-se com frieza deliberada, calculando angulos impossíveis, mensurando a curvatura do planeta como um cirurgi?o cósmico avalia um órg?o antes do corte. Havia inten??o ali. E quando essa inten??o se decidiu, o mundo prendeu a respira??o.

  O impacto n?o foi som; foi ausência. Uma lacuna de vácuo rasgou o silêncio e, por um instante, tudo ficou mudo. Em seguida, a onda de choque chegou, atravessou a atmosfera, os ossos, os dentes cerrados de quem ainda existia. O solo vibrou como uma membrana esticada além do limite. Nuvens entraram em combust?o, chicoteadas por veios de luz, enquanto o horizonte ondulava sob um calor que dobrava o ar e distorcia a própria no??o de distancia. A Terra n?o tremeu apenas. Ela gemeu, como um animal que reconhece o predador.

  A press?o esmagou o ar como m?os invisíveis fechando-se ao redor do peito. Ribeiro sentiu o corpo hesitar, a inércia tentando fincá-lo no lugar. Entendeu, com clareza brutal, que parar era morrer. Lan?ou-se para frente.

  Logo, a resposta foi imediata: sua forma se adensou como mercúrio vivo. Escorreu por si mesmo, pelos bra?os, pelas pernas, pelos pulm?es que já n?o eram órg?os, mas memória de respira??o. Cada passo era cálculo puro: ele n?o voava, mas negava a inércia, convertendo panico em trajetória. Prédios se desfaziam em poeira antes mesmo de cair; escombros cruzavam o ar como laminas cegas. Seus pés ainda tocavam o asfalto em frangalhos, sentiam o impacto, ele se dissipava no choque e se recomprimia no impulso seguinte, como uma mola tensionada à beira da ruptura.

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  Ao redor, a cidade colapsava em camadas. O asfalto se partia em fendas que se abriam como bocas famintas. O mar, antes distante, erguia-se em muralhas líquidas, colossos de espuma e fúria avan?ando com a lentid?o inevitável de algo que sabe que vai alcan?ar tudo. O ar cheirava a metal aquecido e oz?nio, um odor seco, cortante, o hálito do fim.

  Acima de tudo, a estrela pulsava em padr?es impossíveis.

  N?o era meteorito. Era consciência. Um sentinela antigo que irradiava julgamento sem palavras. Ribeiro sentiu, n?o ouviu, n?o viu, a sensa??o inequívoca de ser observado por algo que media mais do que massa ou movimento. Faixas de luz desciam e marcavam o solo como selos vivos. Onde tocavam, algumas presen?as simplesmente se apagavam; outras queimavam, deixadas para trás por um critério que ninguém compreendia. Aquilo n?o era caos. Era triagem.

  Ribeiro correu entre fissuras que exalavam o calor cru do núcleo terrestre. Saltou carro?as suspensas no vácuo por segundos eternos antes de despencarem. O planeta inteiro parecia tentar esmagá-lo por reflexo, mas ele segurava algo pequeno e pesado no peito, uma promessa, um nome que se recusava a deixar virar estatística. Pensar nisso doía. Pensar nisso o mantinha vivo.

  Uma falésia bruta surgiu adiante, recortando o caminho como um muro erguido às pressas. Na sua base, a entrada de uma caverna se abria escura, oferecendo um átomo de silêncio no centro da catástrofe. A névoa o puxou para a sombra, e por um instante o mundo pareceu distante, abafado, como se alguém tivesse colocado um pano grosso sobre a realidade.

  Ribeiro parou apenas o suficiente para olhar para trás. A cidade era um mapa de feridas luminosas; a estrela, um farol implacável suspenso no céu partido. Olhou para frente. A boca da caverna prometia abrigo, ou condena??o.

  Ele respirou uma única vez, o ar arranhando as costelas, e entrou.

  Lá fora, o mundo continuava a ser reescrito em fogo e ferro. Aqui dentro, algo aguardava. Se ia sobreviver, Ribeiro sabia: o verdadeiro juízo n?o vinha do céu. Vinha do que estava por vir.

  Esse foi um capítulo estranho de escrever, imagino que também seja de ler (???????)

  Fim do capítulo.

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