Ribeiro saiu do Coliseu sem olhar para trás.
O barulho morreu rápido demais, como se alguém tivesse fechado uma porta grossa entre ele e o mundo. O céu azul-ciano marcava o tempo com precis?o irritante; cada passo parecia registrado por algo que n?o piscava.
A névoa o acompanhava. Sempre o acompanhava
N?o como forma, como aten??o.
— Você ficou olhando demais
Disse Ribeiro, sem virar o rosto.
Houve um atraso calculado antes da resposta.
— “Eu sempre olho.”
Ele parou.
N?o por cansa?o. Por sensa??o.
Desde a luta anterior, algo n?o encaixava. Pessoas reagiam rápido demais. Raiva surgia sem aviso. Medo vinha pronto. Nada extremo, apenas acessível.
— N?o é só comigo, né?
Perguntou.
A névoa se condensou um pouco, organizando-se.
— “N?o... Onde você passa, emo??es n?o crescem.”
— “Elas sobem.”
Ribeiro franziu a testa.
— Tipo gatilho?
— “Tipo campo.”
Isso ficou.
— “Observei lutadores. Público. Gente que só cruzou você no corredor e no beco.”
— “Nada explode por sua causa.”
— “Mas tudo reage mais fácil.”
Ribeiro soltou o ar devagar.
— Ent?o eu sou um problema ambulante.
— “Nop. Você é uma variável mal resolvida.”
O mundo se ajustou antes que ele respondesse.
N?o houve anúncio. Nem convoca??o formal. Apenas a certeza súbita de que o próximo combate n?o era opcional.
Quando Ribeiro voltou ao Coliseu, o anel já estava diferente.
N?o maior. N?o menor.
Mais atento.
O Patr?o n?o entrou no anel.
O anel se organizou ao redor dele.
Num instante, o centro estava vazio. No seguinte, havia alguém ali, m?os nos bolsos, postura relaxada, como quem observa uma vitrine que n?o pretende comprar.
Ribeiro sentiu primeiro na névoa, que se condensou até virar pele novamente.
N?o press?o.
Ausência de urgência.
O mundo continuava funcionando, mas como se tivesse aceitado que nada ali precisava acontecer rápido.
A névoa se espalhou por reflexo, ocupando volume, testando bordas.
N?o encontrou resistência.
Também n?o encontrou passagem.
— "Interessante…"
disse o Patr?o, mais para o espa?o do que para Ribeiro.
Stolen story; please report.
Ribeiro avan?ou.
N?o foi um ataque limpo. Foi um teste. O compasso buscou o vetor do movimento, e morreu no meio do caminho, como se o espa?o tivesse decidido que aquele trajeto n?o importava.
O golpe n?o errou.
Ele deixou de existir antes de chegar.
O Pilar do Mundo vibrou.
N?o como alerta.
Como constata??o.
— "Ent?o é você"
Disse o Patr?o, com um meio-sorriso.
— "Eu observei você bastante."
O público parecia distante demais. N?o silencioso, irrelevante.
— "Ganhando habilidades nesse monte de pedra organizada"
Continuou.
— "Desligando partes de si como quem testa interruptores que ninguém deveria tocar."
A névoa avan?ou em múltiplas frentes. N?o para atacar. Para ocupar.
Camadas invisíveis surgiram.
N?o paredes.
Decis?es.
Onde a névoa deveria continuar, o tempo simplesmente n?o seguia. Onde tentava compactar, o espa?o recusava densidade.
Ribeiro sentiu. N?o dor.
Frustra??o lógica.
— "Essa dualidade…"
O Patr?o inclinou a cabe?a.
— "N?o é divina. Deuses s?o estáveis o suficiente. Também n?o é erro. Erros colapsam rápido."
Um gesto mínimo com os dedos.
Uma barreira temporal se fechou diante de Ribeiro. N?o o prendeu. Apenas garantiu que qualquer consequência levaria tempo demais para importar.
— "O que você é?"
Perguntou, olhando direto para ele.
— "Um falso semideus? Uma anomalia? Ou um erro do tempo que ainda n?o escolheu quando falhar?"
A névoa se aproximou de Ribeiro.
N?o falou de imediato.
Depois, baixo:
— “Você confia em mim?”
Ele assentiu.
Ela agiu.
O Pilar da Mente foi desligado primeiro.
A inten??o saiu do mundo. O corpo ficou. Movimento sem delibera??o. Instinto puro. A névoa acompanhou, n?o como comando, como reflexo.
O primeiro avan?o falhou.
O segundo também.
No terceiro, algo atravessou.
N?o um golpe.
Uma emo??o.
O Pilar da Emo??o, sempre ativo, vazou pelas camadas de controle como água por uma fissura ignorada. N?o atingiu o Patr?o diretamente.
O ambiente respondeu.
O ar ganhou peso. O Coliseu pareceu mais próximo de si mesmo.
Sinaliza??o.
O Patr?o ergueu a sobrancelha.
— "Hm... Hmmmm......... HMMMMMMMMMMMMM..........."
Mais camadas. Espa?o e tempo ajustados em sincronia confortável demais.
A névoa tocou o ombro de Ribeiro.
— “Agora.”
O Pilar do Mundo foi desligado.
O corpo perdeu contato com tudo.
O ataque seguinte n?o tentou atravessar nada, apenas existir onde n?o devia.
No exato instante em que o soco se completou, a névoa religou o Pilar.
Contato.
O punho encontrou algo.
N?o for?a.
Presen?a.
Houve um estalo seco. O Patr?o recuou meio passo. Um filete de sangue abriu no canto do lábio.
O Coliseu prendeu a respira??o.
O Patr?o riu. Curto. Genuíno.
— "Você me lembra dele…"
A névoa estremeceu.
— “Ele sabe.”
O Patr?o deu um passo à frente. Só um.
Falou baixo. Só para Ribeiro.
— "Meu nome n?o é Patr?o. "
— "Nem o outro, para eles."
Ribeiro sustentou o olhar.
— "Esse nome..."
Continuou
— "...eu recebi quando Ele decidiu que precisava de algo que n?o quebrasse."
Um toque no próprio peito.
— "O Oitavo Deus superior me deu sua bên??o. N?o para governar. Para aguentar."
Um sorriso leve.
— "Eu sou a fortaleza de Deus... O grande Gabriel... O PRIMEIRO TRAIDOR PARA ESSES ANIMAIS DE 4 PATAS... O resto s?o cargos. No contraste... Meu irm?o... Haha... Ele é o Pai de Todas as vidas... Um belo título, n?o? Eu queria ter ele... Haha :)"
Por um instante, o Patr?o olhou para o céu azul-ciano.
Foi o suficiente.
— “Agora.”
disse a névoa.
O Pilar do Eu foi desligado.
A névoa tomou o campo inteiro. N?o para esmagar. N?o para vencer.
Para negar leitura.
O controle ainda funcionava.
Mas precisava decidir demais.
E o mundo respondeu.
O anel vibrou. O céu pareceu mais próximo. Pessoas no público levaram a m?o ao peito sem saber por quê.
Algo, fora daquele plano, percebeu.
O Patr?o sentiu.
E entendeu.
Ele suspendeu as barreiras.
Tudo voltou ao normal num único instante. O público respirou junto. O anel voltou a ser só pedra.
Ribeiro caiu de joelhos, o corpo cobrando o pre?o atrasado.
— "Chega."
disse o Patr?o.
N?o como ordem.
Como decis?o.
Ele se afastou.
— "Vitória do Ribeiro, ou melhor... Fumante"
O Coliseu demorou a reagir.
Ribeiro ficou ali, respirando. Vivo. Inteiro o bastante.
A névoa se recolheu devagar.
— “Agora sabem...”
— “E também... Parabéns!”
Disse a névoa.
— Pelo... quê...?
murmurou Ribeiro.
— “Você ganhou um apelido. Isso costuma ser pior que cicatriz.”
O torneio acabou.
O planeta central continuou existindo.
Mas, em algum lugar onde nomes importam mais do que for?a, o de Ribeiro foi registrado.
E isso n?o tinha volta.

