Depois da batalha, o Coliseu se dissolvia em murmúrios. A poeira baixava, e ainda ecoava na mente de Ribeiro a frase do patr?o:
“N?o posso permitir que você ganhe… meu filho.”
Ele piscou. Co?ou a cabe?a. Olhou para Askiel, depois para o mini inseto. E ent?o encarou a névoa que tinha criado uma cabe?a extra em seu corpo.
— Mas que porr-... névoa, mano…
ele murmurou.
— Tu acha que é ado??o? Ou filho mesmo?
A névoa vibrou, confusa.
— "Sei lá, porra."
Ribeiro respondeu a si mesmo, cruzando os bra?os.
— N?o parece nada com o patr?o… deve ser adotado.
Pausa.
Sorriso.
— Vamos ver… hehe.
E sem aviso, ele se teletransportou.
A sala do patr?o era enorme e silenciosa. Mármores roxos, lampadas pendendo como estrelas mortas, e uma janela que mostrava o Coliseu como se fosse maquete.
Ribeiro se jogou numa cadeira.
Esperou.
Esperou um pouco mais.
Esperou até a paciência come?ar a derreter.
Quando a porta se abriu, o patr?o congelou por meio segundo ao ver o intruso.
— "Que porra tu tá fazendo aqui?"
— Queria conversar. :3
O patr?o esfregou a testa.
— "Seja rápido."
Ribeiro n?o enrolou:
— Aquilo era mesmo seu filho?
Silêncio.
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Longo.
Pesado.
O patr?o fechou os olhos. Quando falou, sua voz vinha carregada de amea?a, mas havia algo mais: uma pontada de cansa?o, como quem carrega um nome que dói.
— "Tenha… respeito… por meu filho. Ou eu explodo sua cabe?a."
Ribeiro ergueu as m?os.
— Calma, calma. Só tava curioso.
O patr?o respirou fundo. Parte da fúria se dissolveu, dando lugar a algo mais íntimo, um remorso velho que ele tentava disfar?ar com dureza.
— "Ele é meu filho biológico."
Ribeiro arregalou os olhos.
O patr?o deixou sair um suspiro curto, mais antigo que a raiva do olhar.
— "A gente pertence a uma família antiga… e estranha."
continuou, voz mais baixa.
— "Com tradi??es de misturar humanos com monstros. Mas isso n?o explica tudo da aparência dele."
O patr?o caminhou até a janela e pousou a m?o no peitoril, como se contivesse lembran?as.
— "O que o tornou assim foi o uso indevido da habilidade da nossa linhagem: Vanspar."
Ribeiro franziu a testa.
— "O primeiro usuário, Ganpins, conhecido como 'As Duas Caras do Mundo', dominava essa habilidade. Ele podia fazer-se deus de si mesmo… ou do ambiente ao redor… por um breve período. Algo próximo ao divino, mesmo para um mero humano."
Ele ergueu dois dedos, como quem pesa memória.
— "Meu filho herdou uma vers?o inferior. Limitada. Mas ainda capaz de evoluir até o nível noventa"
disse o patr?o, e a palavra vinha lenta, pesada.
— "Nível noventa n?o é brincadeira; é a margem onde o poder deixa de ser ferramenta e vira catástrofe, o suficiente para amea?ar cidades inteiras se crescer sem freio."
Ribeiro assoviou.
— E a habilidade original?
— "Quase infinita"
o patr?o respondeu.
— "E isso… responde sua pergunta sobre a aparência dele?"
— Responde várias coisas...
Ribeiro admitiu, apoiando o queixo.
— E você? N?o tem essa habilidade?
O patr?o riu, sem humor.
— "N?o encontrei os registros. E hoje, meu poder n?o vem da linhagem. Vem dos contratos. Contratos com deuses menores… e um superior."
Ele virou o rosto para Ribeiro.
— "E você tem algum, semi-deus inferior? Vejamos... Das emo??es... E oculta??o? N?o era para ser apenas um?"
O patr?o arqueou as sobrancelhas, estudando-o.
— "Interessante… dois cargos ao mesmo tempo. Isso n?o devia acontecer... Duas energias... Hm..."
Ribeiro piscou.
— Eu sou um semi-deus?!
— "Um inferior. N?o sabia?"
o patr?o arqueou uma sobrancelha.
— "Sua energia mostra isso."
Ribeiro co?ou o queixo.
— "Eu n?o vejo energia alheia ;-; Eu n?o tenho olhos, sabia?"
O patr?o ficou em silêncio por dois segundos.
— "…tá. Isso explica muito..."
Ele n?o sorriu. Em vez disso acrescentou, com voz baixa:
— "Semideuses despertos atraem aten??o. Nem toda aten??o é curiosidade; há olhos que n?o deixam nada em paz. Fica atento, garoto..."
Ribeiro sorriu.
E, naquele instante, pela primeira vez desde o torneio, o patr?o parecia menos distante. Menos titanico. Menos máscara.
Humano?
N?o exatamente.
Mas algo entre os dois existiu ali:
um fio de reconhecimento.
curiosidade compartilhada.
E talvez…
um prenúncio.
Porque heran?as monstruosas raramente ficam adormecidas.
E agora, Ribeiro sabia demais para sair dali igual ao que entrou.
Fim do capítulo.