A casa n?o o reconheceu.
N?o houve recuo, nem acolhimento. As paredes n?o respiraram. As portas n?o chamaram. Ela permaneceu de pé como algo que ainda cumpre fun??o por hábito, n?o por vontade.
Ribeiro entrou mesmo assim.
O primeiro passo confirmou o que o corpo já sabia: o mundo estava errado. N?o quebrado, errado. O ch?o sustentava peso, mas n?o oferecia resistência. A madeira rangia, mas o som chegava sem profundidade. A distancia existia, porém n?o se impunha.
N?o havia cor.
N?o ausência total. Apenas falta de importancia. O marrom da madeira, o cinza da pedra, o metal antigo, tudo estava lá, achatado, reduzido ao mínimo necessário para distinguir forma de vazio.
A névoa se espalhava baixa, rente ao ch?o. Espessa demais para ser neblina. Atenta demais para ser vapor. Onde tocava, o espa?o se denunciava por contorno, como um mapa tra?ado por press?o.
Ribeiro via sem ver.
A mesa n?o era madeira, era um obstáculo estável. A parede n?o era parede, era um limite contínuo. O mundo havia se reorganizado para responder à presen?a dele.
A casa aceitava isso.
No fundo do corredor, algo resistiu.
A névoa tocou o ponto e n?o deslizou. Enroscou. Ali o espa?o n?o cedia, lembrava.
Ribeiro parou diante do quadro.
A moldura estava torta. Um dos cantos fora reparado com metal escuro, improvisado. O prego estava em angulo errado. Ele lembrava disso. O pai sempre errava o angulo quando fazia algo com pressa.
A imagem dentro n?o estava desgastada.
Estava inacessível.
Ribeiro respirou fundo.
— Eu…
A voz saiu baixa.
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— Quero ver este quadro.
O mundo respondeu mal.
O Pilar do Espa?o n?o se fechou, abriu. N?o ao redor dele, mas para fora. O ambiente cedeu um passo invisível, como ferro quente pressionado de dentro para fora.
A cor voltou.
Só ali.
O vermelho surgiu primeiro. Gasto. Antigo. Tinta aplicada por m?os pequenas, insistentes. Um campo aberto. Uma figura central, bra?os largos demais, sorriso torto demais.
A m?e.
O rosa tentou ser sol. O ciano tentou ser céu. No canto inferior, um risco escuro, um erro que ele tentou esconder.
O resto da casa permaneceu cinza.
O contraste feriu.
O peito de Ribeiro apertou, n?o como choro, mas como press?o sem válvula. A névoa se agitou, subindo, engrossando, tocando paredes e teto.
A casa respondeu.
A distancia entre ele e o quadro encurtou sem movimento. A poeira parou no ar. O metal do prego vibrou, emitindo um som que n?o combinava com o espa?o.
Sangue fumacento escorreu do nariz de Ribeiro.
Fino. Quente. O corpo n?o reagiu. A mente também n?o. Era o ambiente que sangrava através dele.
— "Para."
A voz da névoa ocupou o intervalo entre inten??o e execu??o.
Ribeiro apertou os dentes.
— Você n?o me entende…
A voz saiu áspera.
— Eles t?o mortos. Eu tenho saudade deles. Você apareceu do nada, sua praga.
Houve uma pausa.
Curta. Precisa.
— "Por que você está falando comigo desse jeito?"
A pergunta n?o carregava ofensa. Nem defesa. Apenas constata??o.
Ribeiro abriu a boca para responder, e n?o encontrou alvo.
O espa?o deu outro passo errado.
A mesa deslizou alguns centímetros sem arrastar. A parede atrás do quadro afastou-se, criando profundidade onde n?o deveria existir. A casa tentava acompanhar algo que n?o cabia nela.
— "Para agora."
A névoa endureceu.
— "Você está vazando."
O pux?o veio de dentro.
N?o físico. Um tranco direto na estrutura. Como um circuito desligado à for?a. O Pilar colapsou.
A cor morreu.
O quadro voltou a ser apenas um retangulo opaco. O vermelho apagou. O rosa sumiu. Restou forma sem acesso.
O mundo retornou ao cinza sem gra?a.
O sangue pingou no ch?o em gotas espa?adas. Ferro no céu da boca. O silêncio caiu pesado, mais denso que antes.
Ribeiro recuou e sentou no ch?o.
A casa permaneceu imóvel.
N?o rejeitou. N?o acolheu. Apenas registrou que aquilo n?o poderia se repetir sem custo.
Ele olhou o quadro uma última vez.
N?o tentou ver.
A névoa recuou, acomodando-se ao redor dele, tensa, vigilante. Algo ali havia sido deslocado de forma irreversível.
Ribeiro fechou os olhos.
O cinza permaneceu.
E, pela primeira vez, isso n?o trouxe alívio.
Fim do capítulo 72
Aquilo n?o deveria existir nele.
E, ainda assim, existiu.

