O céu n?o estava acima.
Ele era o Leviathan.
As nuvens n?o se acumulavam; organizavam-se. Giravam como escamas lentas, sobrepostas em camadas que respiravam. Correntes de ar desciam em espiral, contraindo-se e relaxando como músculos que n?o precisavam de ossos. Cada movimento rearranjava o clima, n?o como consequência, mas como inten??o. O mundo, abaixo, era apenas superfície de apoio.
Ribeiro estava em terra.
O solo cedia alguns centímetros a cada passo. N?o por peso, mas por reconhecimento. A lama saturada lembrava-se de água antiga e aceitava sua presen?a como se aceitasse um nome antigo demais para ser dito em voz alta. N?o havia trov?o. O silêncio, ali, era mais denso do que qualquer ruído.
— “Você insiste em permanecer onde a fun??o n?o alcan?a.”
A voz n?o veio do alto.
Veio de dentro.
Como se o ar tivesse aprendido a falar usando o corpo dele como caixa de ressonancia.
Ribeiro fechou a m?o.
— Eu cresci aqui.
Acima, o Leviathan girou.
Uma massa de nuvens condensou-se e desceu. N?o como queda, mas como decis?o. Uma pata colossal feita de vapor comprimido, com relampagos contidos entre as dobras, tocou o mundo sem cerim?nia.
N?o houve aviso.
N?o houve julgamento.
Houve for?a.
O impacto atravessou a planície como um erro de cálculo. O ch?o rachou em silêncio, e o corpo de Ribeiro foi lan?ado para trás, rolando entre pedra, lama e lembran?a. O mundo virou um borr?o de seco e úmido, de agora e antes.
Ele só parou ao colidir contra o que restava de uma forma??o antiga: rochas polidas por uma água que já n?o existia.
O ar deixou seus pulm?es.
Por um instante, apenas um, Ribeiro ficou de joelhos. Algo dentro dele tentou desligar. Um pilar vibrou e quase cedeu.
O Leviathan n?o desceu.
Observou.
— “Resposta registrada: resistência persistente.”
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— “Resultado provável: dilui??o.”
As correntes acima come?aram a convergir. N?o era um segundo ataque. Era encerramento. O céu se organizava para fechar uma equa??o.
A voz de Aqua cortou o campo, precisa, sem emo??o:
— “Chega.”
Ribeiro cuspiu algo que seria sangue na terra.
Riu. N?o houve humor.
— é… chega.
Ele se levantou antes que o corpo concordasse. O ch?o n?o endureceu para sustentá-lo. Aceitou-o como estava, mole, imperfeito, fiel. Como se lembrasse quem ele era.
— Você fala demais.
O Leviathan n?o reagiu. N?o havia vaidade suficiente ali para ser tocada por palavras.
Ribeiro respirou fundo.
E desligou o resto.
N?o os pilares.
Ainda n?o.
Ele simplificou a inten??o.
O céu dobrou-se quando ele deixou de ocupar uma posi??o válida. N?o foi velocidade. N?o foi oculta??o. Foi ausência. Um intervalo onde coordenadas recusaram existir.
O Leviathan recalculou.
Tarde demais.
Ribeiro reapareceu dentro.
N?o havia carne.
N?o havia órg?os.
Havia fluxo.
Veias de nuvem viva conduziam energia, memória e fun??o em circula??o contínua. O interior do Leviathan n?o parava para existir. Era um sistema que se mantinha em movimento para n?o precisar se definir.
No centro, pulsando como uma afronta à própria vastid?o, estava o cora??o.
N?o era grande.
Era denso.
Cada batida fazia o céu inteiro responder, como se o mundo respirasse por empréstimo.
— “Intrus?o detectada.”
Sombra surgiu ao lado de Ribeiro, a fuma?a se enrolando com riso curto, afiado.
— Vai demorar ou vai ser bonito?
Ribeiro estendeu a m?o.
A fuma?a condensou-se. N?o virou metal. Virou decis?o. Um corte limpo atravessou camadas de conten??o que n?o conheciam laminas. O cora??o tentou redistribuir fun??o, chamar o todo, justificar-se.
N?o houve tempo.
Ribeiro o agarrou.
O Leviathan sentiu.
N?o como dor.
Como ausência.
Acima da terra, o céu perdeu coerência. Nuvens passaram a cair para dire??es erradas. Correntes se chocaram, confundidas. O mundo tentou entender como algo ainda voava sem aquilo que o mantinha inteiro.
— “Estado crítico.”
— “Fun??o central ausente.”
— “Reavalia??o impossível.”
Aqua falou como quem fecha uma porta:
— “Agora.”
Ribeiro teleportou.
Reapareceu em terra, o cora??o ainda pulsando na m?o. Pesado. N?o pelo peso físico, mas pelo que custava existir fora de onde deveria.
Atrás dele, o céu n?o caiu.
Ele enlouqueceu.
O Leviathan girava sem eixo, tentando voar sem centro, existir sem raz?o. N?o morreu. N?o precisava. A derrota era estrutural.
Ribeiro caiu de joelhos. O corpo, enfim, cobrou o pre?o.
Aqua aproximou-se.
— "Você quase tentou conversar de novo."
Ele sorriu, exausto.
— Eu sei.
Ela olhou para o céu desorganizado.
— "Da próxima vez, n?o hesite."
Ribeiro fechou a m?o em torno do cora??o do mar.
— Da próxima vez… eu n?o vou precisar do pux?o de orelha :/.
O vento passou.
N?o empurrou.
N?o amea?ou.
Desviou-se.
Como algo que, pela primeira vez, soube que a terra também observa.

